sábado, 9 de março de 2013

Renovação e reforma na Igreja Católica pós-Bento XVI


            
  
Os últimos acontecimentos que abalaram as estruturas do catolicismo romano e que culminaram com a renúncia do conservador papa Bento XVI, no dia 11 de fevereiro de 2013, podem ser encarados de duas formas: a primeira é como um grande obstáculo ao avanço da Igreja Católica ou um precipício no qual ela se lançou sem asas para alçar voo. A segunda é como uma OPORTUNIDADE. Encarando a situação sob o primeiro ponto de vista, olharemos apenas para os problemas e suas graves consequências, como o que representam as denúncias para a fé e a moral católicas e os processos na justiça que ela já vem enfrentando. Sob o segundo ponto de vista, olhamos e enxergamos uma oportunidade histórica de renovação, transformação e de REFORMA. Assim diz o Senhor em Apocalipse 2:1-7:

Ao anjo da igreja em Éfeso escreve: Estas coisas diz aquele que conserva na mão direita as sete estrelas e que anda no meio dos sete candeeiros de ouro: Conheço as tuas obras, tanto o teu labor como a tua perseverança, e que não podes suportar homens maus, e que puseste à prova os que a si mesmos se declaram apóstolos e não são, e os achaste mentirosos; e tens perseverança, e suportaste provas por causa do meu nome, e não te deixaste esmorecer. Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas.

            A meu ver, a desistência de Bento XVI do seu pontificado é mais política que fisiológica. Seu antecessor, o papa João Paulo II resistiu na cátedra até o último suspiro de sua vida e as circunstâncias não eram melhores que as atuais. Muitos livros escritos na época denunciam fatos similares aos que hoje acusam a cúria da Igreja Católica romana. Muito mais que o peso da idade, o fardo de carregar uma igreja corrompida nas costas pode não ter lhe deixado outra saída que não a renúncia. A questão é: por que, como sumo pontífice, como alter christus, como autoridade eclesiástica “infalível” ex cátedra, Bento XVI não ficou para reformar a sua Igreja? Por que não instaurou um Santo Ofício para identificar e punir os malfeitores, chamando-os ao arrependimento e à conversão ou excomungando-os, expulsando-os de meio dos verdadeiros líderes fiéis e comprometidos com a Igreja? Talvez somente Bento XVI, em seu íntimo, tenha as respostas a estas questões.
            Da mesma forma como no passado a Igreja Católica defendeu a sua tese de que o universo girava em torno da Terra, que era o seu centro, contra a palavra científica de Galileu Galilei que afirmava o contrário, gostaria de defender a minha tese sobre a crise do catolicismo. Porém, assim como a tese da Igreja Católica estava equivocada com relação ao então excomungado Galileu, rendendo um pedido de perdão por parte do papa João Paulo II, pode ser que a minha também esteja. Então, desde já peço o meu perdão pelo equívoco. Somos seres incompletos, pecadores, mesmo após iluminados pela graça de Deus e transformados em templos do Espírito Santo. Errar faz parte da natureza humana desde Adão e Eva. O que não podemos é permanecer deliberadamente no erro, não fazendo caso da santidade de Deus e da necessidade de arrependimento e conversão. Caso eu esteja errado, certamente me converterei do meu mau caminho.
            O poder da Igreja Católica está muito além da figura anciã e carismática do papa. Ela vai além do suposto primado de Pedro e do poder religioso que o papa exerce sobre a Igreja. Por trás da cortina que separa os fiéis da verdade, existe um jogo político de interesses, existem clérigos ávidos pelo poder e pelos e pelos bens seculares que dele advém. Existem divisões como fruto dessa busca desesperada por autoridade e status religioso, político e social. Também existe corrupção, abusos sexuais, filhos ilegítimos de padres nascidos às escuras, aborto praticado por freiras, trabalhos forçados em conventos, tudo documentado em livros, revistas, jornais, processos nos tribunais e na Internet. Tudo isto, porém, não é novidade e caminha junto com a história da Igreja Católica e do papado. Basta apenas uma visão aguçada e crítica do passado, deixando de lado o paternalismo e a adesão cega ao catolicismo para entender o que realmente é esta religião e o que ela tem representado no mundo. Sem negar os fatores positivos e as conquistas doutrinárias da Trindade e da divindade de Cristo contra os hereges, já explícitas na Bíblia, existem questões que não podem ser desprezadas e que se resolvidas ou não, podem fazer a diferença entre uma igreja sadia e uma doente, em estado terminal.
            A razão de Bento XVI ter preferido abdicar ao trono papal a enfrentar os poderosos leões do Vaticano pode ser uma só: o seu poder e a sua autoridade como líder máximo da Igreja são apenas representativos e simbólicos. Ele pode reunir concílios e emitir bulas sobre pontos de fé, pode influir na política, nos costumes e na religiosidade de outros países; pode opinar e lutar contra as injustiças praticadas no mundo, pode até mesmo derrubar o muro de Berlim, mas não pode jamais levantar-se contra abusos na sua própria Igreja. Ele pode demonstrar seu descontentamento e sua preocupação com o rumo da vida e da fé dos seus subordinados, mas não tem capacidade e poder para expulsá-los e condená-los. As suas mãos estão atadas por poderes que estão além da sua possibilidade de controle, poderes muito fortes e destrutivos.
            O teólogo e intelectual papa Bento XVI pode ter muitos defeitos, mas loucura parece não ser um deles. Como ele poderia permanecer numa Igreja corrompida e ao mesmo tempo manter a sua consciência tranquila diante de Deus? Como rezar pela liberdade e pela justiça entre os povos do mundo todo se dentro da sua casa reina a balbúrdia, se o banco do próprio Vaticano, centro da fé católica, está envolvido em escândalos? Como pregar contra a opressão liderando uma Igreja opressora, que conta com mais de seis mil sacerdotes envolvidos em casos de pedofilia, e isto só nos Estados Unidos da América? Oprimido, impotente e incapaz de qualquer ato santo e heroico, ou mesmo sacrificial que representasse uma mudança santa da Igreja, só lhe restava abandonar o cargo para não ser acusado no mínimo de conivência. No meu ver, a saída de Bento XVI foi estratégica, embora a justiça divina ainda possa penalizá-lo por qualquer participação direta ou indireta sua nas denúncias que abundam na mídia, caso se prove que elas procedem.
            O que vemos agora é uma Igreja afogada num mar de incertezas quanto ao seu futuro. Será que empossar outro papa no trono de São Pedro ajuda a resolver alguma coisa? As questões que envolvem o catolicismo romano, acima de tudo nesta última década, são complexas e fruto de anos de deterioração de sua teologia e sua prática de fé. O avanço das igrejas evangélicas e das seitas neopentecostais (separe-se igrejas de seitas), só demonstra o descontentamento e o descrédito da população mundial com relação à tradição religiosa católica que demanda séculos de absolutismo, impondo-se por meio da força (Inquisição e Cruzadas, por exemplo) e por meio do descrédito das igrejas reformadas, que alguns católicos taxam de seitas de Satanás. Dentro do próprio catolicismo romano existem fiéis que discordam de suas doutrinas, que não adoram imagens, que não rezam mecanicamente e que promovem verdadeiros cultos pentecostais, muito longe de se parecerem com a liturgia fechada e fria das missas tradicionais. A grande maioria dos católicos é apenas nominal, isto é, declaram-se católicos, mas não são praticantes, apenas frequentam a missa de vez em quando.
            O que os católicos devem aguardar do novo papa? Que atitudes eles devem esperar que possam resgatar a Igreja Católica Apostólica Romana, das trevas em que ela se encontra? Talvez reformas profundas na Igreja, tanto na Cúria romana quanto na vida dos seus mais humildes vassalos. Talvez seja a hora de admitir que não é possível a convivência pacífica entre lobos e cordeiros e por isso seja necessário expulsar esses lobos para que os cordeiros vivam em paz. Talvez alguns devam responder criminalmente por seus atos ao invés de serem acobertados pelo paternalismo das autoridades eclesiásticas. Mas isso ainda é insuficiente para salvar a Igreja católica da sua derrocada. A mudança que a Igreja católica necessita está muito além da punição dos envolvidos em escândalos e da expulsão dos lobos do meio do rebanho. Por maiores cuidados que se tenha, o joio sempre crescerá no meio do trigo, até o dia da grande separação.
            Gostaria de sugerir algumas reformas simples que podem ser implantadas na Igreja Católica para resgatá-la dessa nova “Idade das Trevas” para lançá-la sob a luz do Senhor. Não adiantam punições severas, anátemas, dogmas reacionários, protecionismos, renúncias ou qualquer outro tipo de solução se não houver uma transformação radical na teologia e na vida dos católicos. A busca primeira deve ser a busca por Deus e pelo Evangelho de Cristo. Somente inserida no Reino de Deus a Igreja romana poderá vencer os seus desafios e transformar seus problemas em degraus para subir cada vez mais alto, rumo à Israel celestial, onde todos os crentes do mundo inteiro e de todas as épocas estarão por toda a eternidade adorando ao Senhor Deus Todo-poderoso. Eis, então, minhas sugestões.

1.    Rever as 95 teses de Lutero desprezadas há séculos, que se fundamentavam nos excessos praticados pela Igreja Católica na cobrança indevida e abusiva de indulgências e na hierarquia da igreja. A Reforma Protestante pode ter cometido excessos e Marinho Lutero pode não ter sido nenhum “santinho”, mas as suas intenções foram das melhores: reformar a igreja que ele amava e servia. Eis o momento sobremodo oportuno do próximo papa dar prosseguimento ao sonho de Lutero.
2.    Rever alguns dogmas e doutrinas católicas que se estendem pela história do catolicismo, que se sabe que são interpretações forçadas da Bíblia e deturpações. Exemplos: a infalibilidade papal, o celibato para os sacerdotes e as freiras, a hierarquia eclesiástica, o protecionismo que demonstra a arrogância dos líderes católicos em não admitir suas falhas e pecados.
3.    Rever a posição católica romana diante da Bíblia, tomando-a doravante como Palavra de Deus inspirada, suficiente e infalível, única em matéria de fé e prática cristãs. A Bíblia precisa assumir a centralidade na fé católica, abrindo-se mão da Tradição, que não passa de acréscimos e interpretações incorretas da Bíblia, salvo algumas exceções.
4.    Entender-se apenas como mais uma Igreja de Cristo e não “A Igreja de Cristo”, abrindo mão da pretensão de conter em si a salvação das almas. É preciso aceitar as igrejas protestantes como membros do corpo de Cristo, como genuinamente cristãs, salvo as seitas neopentecostais, acima de tudo aquelas ligadas à Teologia da Prosperidade, bem como os Mórmons e as Testemunhas de Jeová, que não creem na divindade de Cristo nem na Trindade.
5.    Investir em seminários de formação para leigos, onde eles possam estudar a Palavra de Deus livremente, sem uso da filosofia, mas tendo a hermenêutica como ferramenta; também sem a intermediação da Tradição.
6.    Reavaliar seus seminários de formação de sacerdotes, recrutando apenas os verdadeiramente vocacionados. Além disso, com a desistência da obrigação do celibato, permitir que os sacerdotes se casem e constituam família, como o fazem os pastores evangélicos, sem prejuízo para o seu ministério.
7.    Orar, buscar santidade aqui na terra, e não após a morte, revendo a conversão de seus milhões de fiéis espalhados pelo mundo, que são apenas nominais, homens e mulheres que um dia foram batizados – quando bebês – e que não possuem qualquer compromisso com o Evangelho e o Reino de Deus.
8.    Rever os sacramentos, que no produzem salvação, pois a salvação é exclusivamente pela fé. Dentre eles, o batismo de crianças deve ser abolido, pois é um absurdo que se considerem salvas e crentes crianças que sequer têm consciência de quem são, quem dirá fé em Deus. O batismo de crianças presume que seus pais e seus padrinhos as guiarão na fé católica, mas eles próprios só estão ali pelo batismo de seus filhos, esquecendo-se depois das promessas batismais, em sua grande maioria. Resultado: uma multidão de batizados que não conhecem a Cristo, não tiveram um encontro pessoal com Ele e não têm compromisso nenhum com a sua Palavra e seu Reino.
9.    Reformar a Liturgia da Igreja. O “sacrifício eucarístico” é um absurdo teológico que perverte os ensinos de Romanos e Hebreus sobre o sacrifício único, definitivo, suficiente e perfeito de Cristo e a salvação pela graça de Deus. Salvo os animados cultos realizados pela renovação carismática e pelos padres “pop stars’, as missas são entediantes em qualquer lugar do planeta. São frias, vazias, repetitivas, cheia de regras e orações pré-fabricadas que os fiéis repetem mecanicamente. É preciso rever isso.
10. Pedir perdão ao mundo pelos excessos calamitosos do catolicismo romano durante toda a história de sua existência, como na Inquisição, onde pessoas foram torturadas e queimadas vivas nas fogueiras a mando dos papas; ou as Cruzadas, onde um sem número de indivíduos morreram sob o fio das espadas dos Cruzados que pretendiam tomar a Terra Santa, algo que não era deles nem dos papas, mas dos muçulmanos e dos judeus. A terra santa dos cristãos está nos céus.
11. Acabar com o papado, elegendo um líder para cuidar da igreja e administrá-la, com o auxílio de todos os seus ministros (bispos, diáconos, presbíteros), mas sem a roupagem atual: um homem infalível, santo, aclamado, revestido de poder e autoridade apostólica, adornado com ricas vestes, vivendo suntuosamente num palácio, reverenciado e praticamente adorado por seus fiéis. A Igreja Católica precisa de um homem na sua liderança, não de um semideus. Só há um Deus e Senhor: Jesus Cristo, único Sumo Sacerdote. Não existe um alter christus. O papa é mais uma figura folclórica do que um líder da Igreja.
12. Buscar um avivamento espiritual, com orações de arrependimento e conversão, leitura da Bíblia, pregação do Evangelho e prática do amor (algo que os católicos já fazem por meio das suas pastorais). A igreja precisa ser reavivada. Os católicos nominais precisam se converter a Jesus Cristo e todos os que são convertidos, mas servem a Maria, precisam rever sua conversão. Deus precisa estar no centro da atenção e da oração dos católicos.
13. Tirar todas as imagens das igrejas, que são abomináveis ao Senhor, e instituir a adoração ao Deus invisível, ao único e verdadeiro Rei do universo, ao Senhor dos senhores. Além disso, destituir o rosário, o escapulário, as velas, os crucifixos e as medalhas milagrosas de seus postos de fontes de bênçãos. Amuletos são supersticiosos. O crente deve se pautar na fé e na confiança em Deus somente, por meio de Jesus Cristo.
14. Destronar Maria. Admitir de uma vez por todas o erro teológico que envolve os dogmas criados em torno dela, reconhecendo que ela não é rainha, não é senhora, não é medianeira, não é intercessora, não é mãe de Deus, não é mãe da igreja, não salva o pecador, não é corredentora. Maria, nossa amada Maria, deve ser vista como ela se enxergava com seus próprios olhos: A BEM-AVENTURADA SERVA DO SENHOR. Ela foi a primeira cristã convertida e é modelo de fé e serviço a Deus. Nós protestantes amamos profundamente a Maria que está na Bíblia, mas desprezamos veementemente a Maria criada pela Igreja Católica.

Sei que essas sugestões são apenas uma parte da solução do problema. Mas aqui está a minha contribuição. É hora da Igreja Católica voltar ao seu primeiro amor, à verdade plena do Evangelho de Cristo que está nas páginas da Bíblia Sagrada. É necessário resgatar a fé viva que existia antes de a Igreja se tornar a religião oficial do Império Romano, através do imperador Constantino. Fora com o paganismo, as festas pagãs, os ídolos mudos, o culto aos mortos e aos anjos. Fora com o purgatório, que é uma agressão ao perdão de Deus. Fora com as indulgências, que escarnecem da salvação oferecida por Cristo na cruz. Fora com os falsos padres, os falsos mestres, os falsos servos de Deus. Deixem a luz de Deus brilha na Igreja Católica! Permitam que o Espírito Santo conduza seus corações em santidade e adoração ao único e verdadeiro Deus. Nada temos a perder servindo ao Senhor, mas tudo temos a ganhar: a vida eterna que Ele graciosamente nos dá, sem merecermos, sem conquistarmos por nossos próprios esforços.
Que a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor incondicional de Deus e a unção do Espírito Santo estejam sobre a sua vida. Que do céu Deus faça chover bênçãos de renovação e avivamento sobre a Igreja Católica e sobre todas as igrejas reformadas, que precisam tanto quanto ela. Que Deus desfaça o muro que separa as igrejas e reúna seu povo num único rebanho, conduzido e guiado não por supostos apóstolos ou papas, mas pela sua Palavra que liberta e que transforma. Esta é a minha oração. Em Nome de Jesus. Amém.
           


Um comentário:

  1. Você aprece que sabe de tudo... mas infelizmente não! Quem lhe disse que a Igreja está afogada num mar de incertezas quanto ao seu futuro? Rever alguns dogmas e doutrinas católicas, você quer ser o novo papa? Você pode até escrever bonito, mas a ladainha é sempre a mesma...e isso, nenhuma palavra muda o que Deus fez na minha vida e continua fazendo. Sou muito feliz por ser CATÓLICA e não troco minha FÉ por nenhum conceitinho de anticatólicos! Passar bem, Deus abençoe e a Virgem Maria te livre de todo mal!

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