segunda-feira, 16 de julho de 2018

A IGREJA É UM HOSPITAL?




“Porque de Deus somos cooperadores; lavoura de Deus, edifício de Deus sois vós” (1 Co 3:9).

A Bíblia utiliza diversas expressões e figuras para se referir à Igreja do Senhor Jesus, como, por exemplo: assembleia, corpo de Cristo, noiva do Cordeiro, entre outros. O crente é chamado de filho de Deus, filho da luz, templo do Espírito Santo, membro do corpo de Cristo, servo, obreiro, apenas para citar alguns. Em lugar algum das Escrituras a Igreja é comparada a um hospital ou o crente a um doente em tratamento terapêutico. A Igreja não pode ser um hospital nem o crente um paciente por um motivo óbvio: quem faz parte da Igreja já está curado, não precisa de terapia intensiva, porque Jesus já levou sobre si todas as suas dores, isto é, pecados, como vemos em Isaías 53. Se temos problemas, doenças e outros tipos de perturbações, não estamos na Igreja para sermos curados dessas coisas, pois isso significaria que, após a cura, poderíamos ter alta e sair da Igreja. Na verdade é o que muitos fazem: eles buscam a Deus adoecidos dos seus problemas e sonhos; quando recebem a cura, isto é, a vitória, voltam para suas vidas sem Deus até o próximo acidente ou doença. O Senhor Jesus disse que somente os doentes precisam de médico (Mt 9:12). Ele é a cura! Hospital não é lugar de gente curada, mas de gente doente. Se buscamos na Igreja um hospital, estamos no lugar errado. Se existe alguém fraco ou doente na Igreja, como havia na igreja de Corinto (cf. 1 Co 11:30), o caminho é o arrependimento.

Existem duas imagens que demonstram o que a Igreja é e que hoje não se assemelham ao tipo de reunião que temos visto por aí. Em primeiro lugar, a Igreja é uma família onde todos são irmãos, possuem um só Senhor, uma só fé, um só batismo e um só Deus (Ef 4:5,6). Eles comungam das mesmas bênçãos, compartilham do mesmo amor e devem cuidar uns dos outros. Paulo escreveu aos Efésios que somos da família de Deus (2:19). Se a Igreja é um hospital e Deus é o médico, Ele trata de cada um individualmente. Mas se a Igreja é uma família, Deus cuida de todos comunitariamente. Um irmão é usado para ajudar os outros, sendo ele mesmo ajudado por eles. A Igreja não cura um membro, ela cura a si mesma, porque um membro não é contado como um doente que vai embora e que não tem comunhão com o hospital, mas como parte integrante da família. Se ele sofre, todos os outros membros sofrem com ele. Paulo escreveu aos Coríntios que a Igreja é um corpo coordenado por Deus “para que não haja divisão no corpo; pelo contrário, cooperem os membros, com igual cuidado, em favor uns dos outros. De maneira que, se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, e um deles é honrado, com ele todos se regozijam” (1 Co 12:24-26). Devemos, então levar as cargas uns dos outros (Gl 6:2), alegrar-nos com os que se alegram e chorar com os que choram (Rm 12:15), ofertar com amor e liberalidade, pedir e ofertar perdão; corrigir, ensinar e disciplinar; servir uns aos outros (Gl 5:13), confessar os nossos pecados uns aos outros e orar uns pelos outros (Tg 5:16), amar incondicionalmente uns aos outros (Jo 15:12), evitar contendas e divisões (1 Co 12:25), ser hospitaleiros (1 Pe 4:9), ministrar os dons e serviços, praticar a misericórdia e a humildade, entre tantas outras ações que nos identificam como verdadeiros discípulos de Jesus. Isto é ser Igreja, isto é ser família, isto é ser cristão. Na família do Senhor, um membro não deixa o corpo quando recebe a cura, mas permanece nele, porque fora do corpo, morre. No hospital, os profissionais saudáveis e conhecedores das artes médicas tratam de pessoas sem saúde. Na Igreja somos todos iguais: somos médicos e pacientes ao mesmo tempo. Cuidamos e somos cuidados. Somos pecadores curados que ainda manifestam alguns sintomas da Queda de Adão, mas que não estão mais adoecidos pelo pecado.


A visão de hospital surge e se afirma quando olhamos para uma igreja em que os seus membros estão doentes, sofrendo toda sorte de perturbações emocionais e espirituais. O que comumente se chama de “cura”, podemos, na verdade, chamar de “restauração” ou “santificação” diária. O que são as enfermidades espirituais que trazemos a este ambiente que chamamos de hospital? Se fôssemos compreender a partir da Palavra de Deus, a Bíblia, veríamos que as nossas enfermidades espirituais se resumem em uma coisa: pecado. Lemos no livro das Lamentações de Jeremias: "De que se queixa, pois, o homem vivente? Queixe-se cada um dos seus pecados. Esquadrinhemos os nossos caminhos, e provemo-los, e voltemos para o Senhor. Levantemos os nossos corações com as mãos para Deus nos céus, dizendo: Nós transgredimos, e fomos rebeldes; por isso tu não perdoaste" (Lm 3:39-42). A vida do rei Davi, seu pecado, suas dores físicas e emocionais tinham um único motivo: o seu próprio pecado (por exemplo, o Sl 51). Durante a nossa vida, sofremos traumas, carregamos complexos e enfermidades que poderiam ser resolvidas por meio do arrependimento e da confissão de pecados. De repente, não é um pecado que nós cometemos, mas que cometeram contra nós, como o abuso sexual, por exemplo. Daí entra o perdão, esquecer o passado, caminhar no presente rumo ao futuro. As enfermidades físicas nós resolvemos no médico ou Deus pode operar de maneira sobrenatural a cura. Mas para as doenças espirituais, de onde provêm muitas doenças emocionais, a grande maioria, o remédio não é milagre, não é unção, não é culto, não é missa, não é oração, não é campanha disso ou daquilo. O remédio é: arrependimento, confissão e abandono do pecado. 

Meditemos e respondamos a esta questão: A Igreja evangélica como a vemos hoje, com indivíduos que buscam a Deus apenas por causa das suas bênçãos, com tantas brigas, divisões e escândalos, assemelha-se a uma família? Pode ser que alguém diga: Ora, mas em todas as famílias há problemas. Então respondamos a outra questão: É isso que Deus quer? Não devemos nos espelhar no modelo de família do mundo para definir o que é ser Igreja, mas naquilo que a Bíblia diz sobre o que é e como é ser Igreja. O que impera na Igreja é a interdependência, a solidariedade, a comunhão, o “uns aos outros”, a partilha, a empatia entre os seus membros. Qualquer modelo de ajuntamento que não se assemelhe a uma família cheia de amor, não é uma Igreja. Na família de Deus, os membros têm tudo em comum. Eles são apenas um em Cristo.

Outra imagem que a Bíblia utiliza a respeito da Igreja e que escapa ao conhecimento da grande maioria dos cristãos, é que ela é um exército, Deus é o general e nós somos os seus soldados. Isto destrói ainda mais a visão de um hospital. Num hospital, vamos para receber; num batalhão, entramos para dar! A grande maioria das pessoas que se intitulam “crentes”, vive uma fé totalmente passiva. Elas estão na Igreja sentadas, salvas e satisfeitas, quando deveriam ser salvas, santas e servas. Algumas nem acreditam que são salvas! Quando vão ao culto, afirmam que estão indo “receber algo da parte do Senhor”. Talvez não se recordem das palavras do Senhor Jesus que o apóstolo Paulo jamais esquecia: “Mais bem-aventurado é dar que receber” (At 20:35). Se pararmos para prestar atenção, todos os mandamentos da Bíblia expressam uma ação, algo que devemos fazer e que nos coloca em movimento. Não fomos chamados para ficarmos como aquelas aves que acabaram de nascer e esperam de boca aberta que sua mãe às alimente. Toda a fé cristã se baseia em coisas que devemos fazer porque já recebemos bênçãos espirituais da parte de Deus. Somos conduzidos aos verbos amar, orar, perdoar, pregar, ensinar, resistir, evangelizar, batalhar, suportar, ofertar, levar, deixar, abandonar, falar, ouvir, entre tantos outros verbos que indicam que estamos em movimento, que fomos salvos para as boas obras (Ef 2:8-10), para dar frutos (Jo 15:8), para salgar e iluminar (Mt 5:13-16), para lutar como soldados numa guerra. Quem acha que ser crente é frequentar uma denominação evangélica, cumprir alguns preceitos religiosos, praticar certos rituais, orar para receber algo de Deus, cantar alguns louvores e depois ir para casa, ainda não entendeu quem é Jesus, muito menos o que significa pertencer a Ele.

Voltando para a imagem da Igreja como um exército e do crente como um soldado, fomos salvos para produzir algo para o Reino de Deus, para guerrearmos numa batalha que já foi vencida pelo Senhor na cruz, mas que faz parte do nosso cotidiano como seus soldados. O nosso campo de guerra se divide em três frentes de batalha: a carne, o mundo e o diabo. Ao estimular Timóteo no combate pela fé, Paulo diz: “Participa dos meus sofrimentos como bom soldado de Cristo” (2 Tm 2:3). A nossa luta é contra o pecado que faz guerra dentro de nós, mortificando diariamente a carne para submetê-la ao Espírito. Nesta guerra, na verdade, não é a carne que luta contra si própria, mas o Espírito que luta contra ela para mortificá-la (Gl 5:17; Rm 8:13). Paulo esmurrava o seu próprio corpo para não ser desqualificado (1 Co 9:27). Também lutamos contra o mundo e os seus valores geradores de morte, contra a sedução dos seus prazeres e riquezas, contra este inimigo de Deus que tenta nos tragar (Tg 4:4). Ainda travamos uma batalha contra os principados e potestades, contra o nosso grande inimigo e adversário, que é Satanás (Ef 6:12). Lutamos vitoriosos em Cristo para resistir às suas investidas diabólicas que existem para roubar, matar e destruir (Jo 10:10). Lutamos, também, pela verdade do Evangelho contra as mentiras do diabo, contra as heresias dos falsos mestres e dos falsos profetas. Lutamos para defender a verdade evangélica que nos foi entregue pelo Senhor Jesus. Judas escreveu em sua epístola: “Amados, quando empregava toda diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). Quantas músicas nós temos escutado nas mídias com esse tema? Quantos sermões têm sido pregados sobre a defesa da fé?

Meditemos e respondamos a estas perguntas: Nós nos reconhecemos como soldados de Cristo no campo de batalha ou negamos a existência desta guerra e nos acomodamos a uma fé sem sal e sem luz? Uma das grandes gírias evangélicas é chamar o irmão ou a irmã de “vaso”. Quando se fala assim, está-se querendo afirmar que o irmão ou a irmã são “vasos de honra usados por Deus ou que Deus deseja usar”. Mas usar para quê? Qual a finalidade?

Não quero terminar este breve estudo com certezas prontas, mas lançando muitas dúvidas na sua mente. São as dúvidas que nos levam a estudar ainda mais para alcançarmos as certezas. Então, leia e estude a Bíblia. Pergunte-se a respeito de si mesmo se você é um eterno paciente deitado num leito de hospital, recebendo medicamentos e cuidados, com uma fé praticamente em coma, que não o deixa sair para viver a sua vida cristã lá fora, onde estão as obras que você deve praticar. Pergunte-se se você se sente membro de uma família, com irmãos e irmãs que você deve amar, cuidar e respeitar, ou como membro de um clube onde vai passar algumas horas, receber alguns bônus e depois vai para casa, sem compromisso algum com este clube, a não ser o pagamento de uma mensalidade: o dízimo. Pergunte-se quem Deus é para você, se Ele é aquele paizão que está no céu disposto a lhe encher de bênçãos e vitórias ou um Deus soberano a quem você deve temor e obediência. Você se vê como soldado de Jesus? Está lutando contra a carne, o mundo e o diabo? Você tem batalhado pela fé cristã ou tem praticado a filosofia diabólica e mundana do “politicamente correto”, achando que cada um crê naquilo que deseja e ninguém tem nada a ver com isso? Você é capaz de responder sobre a razão da sua esperança, da sua fé, utilizando uma base bíblica sólida ou apenas repete a velha frase “eu acho que”? Leia 1 Pedro 3:15; 2 Timóteo 2:15 e 4:1-5.

Eu sou membro da Igreja de Cristo. Eu não estou num hospital, mas faço parte de uma família. Eu não sou a terra que fica imóvel recebendo a chuva, mas quero ser a nuvem que faz a chuva cair para molhar a terra. Não quero ser um paciente doente em um leito, mas um soldado no campo de batalha. E você, quem é?




AUTOR:

Mizael de Souza Xavier, natural do Rio de Janeiro. Moro atualmente em São Paulo. Sou poeta, teólogo e escritor. Exerço o ministério pastoral na Igreja Cristão Nova Aliança do Senhor, em São Paulo/SP.

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sábado, 23 de junho de 2018

MILAGRES, SINAIS E MARAVILHAS: DE DEUS OU DO DIABO?





            Quando falamos da característica do nosso inimigo como o “grande dragão”, e também quando estudamos a respeito dos falsos mestres, vimos que uma das formas que Satanás emprega para enganar os seus seguidores é o uso de sinais miraculosos produzidos por diversas religiões, incluindo o cristianismo evangélico. Cabem aqui algumas considerações a respeito dessas operações enganadoras na batalha espiritual, tendo em vista que muitos crentes têm-se deixado levar por esse tipo de coisa, abandonando a verdade do Evangelho para viver uma fé supersticiosa, baseada em sinais e prodígios, desprendida de valores bíblicos e da sã doutrina. Quando se fala em milagres, a primeira coisa que nos vêm à mente é que nosso Deus é um Deus de milagres, de maneira que todo milagre está diretamente ligado a Ele. Entretanto, não é isso que vemos nas Escrituras. Desde o início, Satanás tem demonstrado capacidade para realizar alguns prodígios sobre a terra, com o intuito de desviar os homens da verdade ou simplesmente imitar o poder de Deus.
Não é errado afirmar que, assim como era no passado, aqueles que creem em Deus esperam testemunhar algum milagre. Isso pode acontecer como uma forma de sustentar a sua fé, que não pode se manter de pé sem a presença de algum sinal extraordinário. Muitos, quando oram pedindo algo a Deus, pedem também um sinal de que Ele está escutando e de que responderá a sua oração. O desejo por milagres não é apenas fruto da necessidade de curas e libertações, mas consequência de uma desconfiança constante da presença e do poder de Deus. A presença dos milagres é tão maciça na fé evangélica que existem cultos dedicados especialmente a eles, onde os crentes são chamados a receberem o seu milagre, com local e hora marcados. Junto a esses milagres, profecias e novas revelações aparecem como uma voz especial de Deus dirigida à Igreja, onde novas doutrinas acabam por nascer através de uma leitura totalmente deturpada da Bíblia.
Não queremos discutir aqui a veracidade dos milagres nos dias de hoje, mas as consequências que esta busca por sinais e maravilhas exerce sobre a fé evangélica e o risco que essas pessoas correm de serem iludidas por Satanás. Na Bíblia, os milagres eram agentes da revelação, apontando para a presença de Deus na História humana e para a veracidade do ministério de Cristo. O próprio João escreveu a respeito do conteúdo do seu Evangelho: “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20:30,31). Quando foi convocado para libertar o povo de Deus da escravidão do Egito, Moisés questionou o Senhor, afirmando que jamais creriam nele nem dariam ouvidos à sua voz. Deus, então, deu-lhe dois sinais para serem feitos diante do povo incrédulo, de modo a levá-los a crer que o Senhor o estava enviando a eles. (Gn 4:1-9). Deus lhe disse: “Se eles não crerem, nem atenderem à evidência do primeiro sinal, talvez crerão na evidência do segundo” (v. 8). Hoje acontece da mesma forma: as pessoas precisam presenciar sinais e milagres para ter certeza de que Deus está falando e agindo.
A questão em foco aqui está na possibilidade de um falso profeta realizar um sinal ou um milagre, sendo instrumentalizado por Satanás. Ainda no Êxodo, quando Moisés lançou seu bordão diante de Faraó e seus oficiais, ele se transformou em uma serpente (7:10). Vindo os sábios e encantadores do Egito, operaram o mesmo sinal que Moisés, utilizando suas ciências ocultas (v. 11). Neste episódio, o milagre realizado pelos egípcios demonstrou-se mais impressionante que o de Moisés, pois não era apenas um bordão, mas vários (v. 12). Embora o bordão de Moisés tenha devorado os outros, o que vemos é que o diabo também tem poder, dado por Deus, para realizar prodígios com o fim de enganar e desviar as pessoas da verdade. A questão crucial é: a que propósito os milagres servem? Eles revelam a Deus e conduzem a Cristo ou são um fim em si mesmos, servindo apenas para satisfazer a necessidade humana de prodígios e bênçãos? Como vimos, existem alguns princípios que devem nortear a nossa busca pela verdade em todas as coisas para discernir se elas procedem de Deus ou do diabo. Se um sinal maravilhoso não glorifica a Deus nem conduz o homem a um estado de dependência total dele e de santidade, não é de Deus.
Tanto o objetivo quanto o caráter dos sinais produzidos por Satanás são mentirosos. Isto fica bastante claro em Deuteronômio 13:1,2: “Quando profeta ou sonhador levantar no meio de ti e te anunciar um sinal ou prodígio, e suceder o tal sinal ou prodígio de que te houver falado, e disser: Vamos após outros deuses, que não conheceste, e sirvamo-los, não ouvirás as palavras desse profeta ou sonhador; porquanto o Senhor, vosso Deus, vos prova, para saber se amais o Senhor, vosso Deus, de todo o vosso coração e de toda a vossa alma”. Três lições são tiradas desse texto. Primeira: existe a possibilidade de sinais praticados por indivíduos que se dizem profetas e sonhadores, o que é muito comum nas igrejas atuais, acima de tudo neopentecostais, onde cada sonho é com certeza uma revelação. Segunda: o objetivo da realização do sinal é afastar o crente de Deus e induzi-lo ao erro. No caso da Igreja, os crentes não são chamados a servir a outros deuses, mas a si mesmos; eles são induzidos a barganhar bênçãos de Deus e a praticar uma religiosidade baseada no dizimar pare receber. Terceira: está claro no texto que os sinais realizados pelos falsos profetas possuem, também, um objetivo divino: provar seus filhos com o objetivo de ver para que lados eles caminharão. Geralmente, falando-se da fé atual, as pessoas caminham para si mesmas, para uma necessidade cada vez mais constante de “tocar o sobrenatural” de Deus para serem abençoadas.
Os sinais por si sós não comprovam nenhuma direção ou presença divina (Êx 7:11,12; Mt 7:22,23; 24:24; Ap 13:13,14). Eles também não comprovam que Deus está agindo ou legitimando esta ou aquela crença ou prática espiritual. Algo implícito no dia do Grande Julgamento, quando muitos comparecerão diante do Senhor afirmando-se serem suas ovelhas (Mt 7:22,23), é que eles profetizaram, expeliram demônios e fizeram muitos milagres. Eles com certeza impressionaram muitas pessoas, tiveram muitos seguidores, realizaram muitos sinais, mas não poderão entrar no Reino dos céus. A natureza dos seus sinais não era propriamente divina, mas escondia uma obra maligna que não visava a glória de Deus, mas a iniquidade. O que vemos em grandes denominações atualmente são operações de sinais e maravilhas, onde milagres são forjados e êxtases espirituais são conseguidos por meio da aplicação da hipnose. Essas denominações arrebanham grande número de seguidores ávidos por essas coisas, desejosos de receber as bênçãos que eles prometem trazer, impressionados com as supostas maravilhas que lá são operadas. Se o milagre pode acontecer por meio de uma atuação demoníaca, o falso milagre também. Não é fácil criar truques de mágica. Muitos estão disponíveis no mercado e nos shows de mágica espalhados pelo mundo.
Ao falar das últimas coisas antes do seu retorno glorioso, o Senhor Jesus traz um alerta a respeito de muitos homens mentirosos que virão afirmando-se como Cristos: “Porque virão muitos em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo, e enganarão a muitos” (Mt 24:5). Ele previne: “Então, se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo! Ou: Ei-lo ali! Não acrediteis; porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos” (vs. 23,24). Esses falsos cristos e falsos profetas já estão no nosso meio. Eles pregam ilusões e fazem sinais para aprisionar os incrédulos à sua doutrina e deles poder fazer comércio (2 Pe 2:3). Embora haja previsão a respeito da vinda do Anticristo (2 Ts 2:3,4), o seu espírito já opera em muitos anticristos espalhados pelo mundo desde a era apostólica (1 Jo 2:18-22; 4:3; 2 Jo 1:7). Aqui está uma questão importante: muitos espíritos enganadores e anticristos estão presentes em denominações que promovem toda espécie de maravilhas por meio de cultos de cura e de libertação, uso de objetos ungidos para trazer prosperidade e curar, campanhas com propósitos envolvendo dízimos e ofertas com a intenção de receber algo de Deus, além de profecias e novas revelações. Não importa o quão absurdo seja o objeto ou a campanha, os fiéis desses movimentos se entregam totalmente e doam suas posses para ver o milagre acontecer. Eles não se importam com a idoneidade dos pregadores e fazem vistas grossas ao fato de que estes enriquecem às suas custas. Eles não se preocupam se o que está sendo pregado ou realizado por meio desses ministérios está totalmente fora da sã doutrina.
Embora os falsos profetas e anticristos já estejam operando no nosso meio, em breve virá coisas ainda maiores e mais impressionantes. O apóstolo fala a respeito do ministério da iniquidade que já opera desde aquela época e do homem da iniquidade (2 Ts 2:1-12). O seu aparecimento, segundo Paulo, “é segundo a eficácia de Satanás, com todo poder, e sinais, e prodígios da mentira, e com todo engano de injustiça aos que perecem, porque não acolheram o amor da verdade para serem salvos” (vs. 9,10). No final dos tempos, a segunda besta que aparecerá após a primeira que fora curada de uma ferida mortal, também vai operar grandes sinais, “de maneira que até fogo do céu faz descer à terra, diante dos homens” (Ap 13:11-13). Ela “Seduz os que habitam sobre a terra por causa dos sinais que lhe foi dado executar diante da besta” (v. 14a), de modo que até à imagem da besta esta irá fazer falar (v. 15). A pergunta crucial deste capítulo do nosso estudo é: quem são esses que se deixarão facilmente enganar pelos sinais maravilhosos produzidos pela besta? O próprio Senhor responde: “Mas a besta foi aprisionada, e com ela o falso profeta que, com sinais feitos diante dela, seduziu aqueles que receberam a marca da besta e eram os adoradores da sua imagem. Os dois foram lançados vivos dentro do lago que arde com enxofre” (Ap 19:20).
Vimos que os sinais miraculosos produzidos pelo falsos profetas não podem enganar os eleitos de Deus (Mt 24:23,34). Aqueles que são de Deus, ouvem a sua voz e procuram identificá-la em tudo o que ouvem e veem. Eles não aceitam prontamente qualquer sinal maravilhoso ou milagre, por mais impressionante que lhes pareça, mas questionam o seu caráter, a sua motivação e a sua veracidade, tendo como base as Escrituras Sagradas. Os eleitos possuem o Espírito Santo, que os torna sensíveis às coisas espirituais e lhes dá discernimento para definir o que é divino e o que é diabólico. Eles são chamados de céticos e de incrédulos pelo grupo que está sempre em busca de sinais e maravilhas, que dá crédito a qualquer milagre, que não questiona o caráter e a motivação de nada que veem ou ouvem dizendo ser de Deus. Este grupo será facilmente enganado pelo falso profeta, pelo anticristo e pela Besta, porque se impressionarão com seus prodígios, adorando-os e servindo-os. São esses os que não acolhem nem nunca acolherão o amor da verdade. Por esse motivo “Deus lhes manda a operação do erro, para darem crédito à mentira, a fim de serem julgados tantos quantos não deram crédito à verdade; antes, pelo contrário, deleitaram-se com a injustiça” (2 Ts 2:11,12).
Na nossa batalha espiritual contra os poderes das trevas, vemos o quanto é importante desenvolvermos uma fé sadia, baseada totalmente nas Sagradas Escrituras e na sã doutrina ensinada por Jesus e pelos apóstolos. Esta guerra, como vimos nos versículos acima, será sempre uma luta constante da mentira contra a verdade. A mentira provém da injustiça e igualmente a produz. Esta injustiça não diz respeito apenas às práticas enganosas, mas também porque contrariam a justiça de Deus baseada na fé em Cristo para a remissão dos pecados. A fé dos eleitos é racional e não se deixa levar por fatos sem explicação, por palavras e obras de homens que se intitulam servos de Deus, quando na verdade são falsos profetas e anticristos. O Senhor Jesus disse que faríamos obras maiores que as que Ele próprio fazia (Jo 14:12), o que não significa que toda grande obra parte do Pai. Nem todas revelam Deus ou apontam para a glória do seu Filho. As obras estão condicionadas ao caráter de Deus e a Revelação. Elas não podem trazer novas revelações nem contrariar o conteúdo daquela que já temos em mãos. Elas não podem aprisionar o crente num sistema religioso que o afasta do Evangelho genuíno nem prendê-lo a um esquema de sacrificar sua vida financeira para barganhar as bênçãos de Deus. As obras que promovem isso vêm do diabo. Não é pecado, mas um dever de fé e de consciência questionar todos os sinais, prodígios e milagres realizados na Terra, acima de tudo por pessoas que de autodeclaram enviadas por Deus.


ATENÇÃO: Este texto é parte integrante do livro “Batalha espiritual: uma luta a favor da verdade”, de minha autoria, ainda a publicar. Todos os direitos reservados.

AUTOR:

Mizael de Souza Xavier, natural do Rio de Janeiro. Moro atualmente em São Paulo. Sou poeta, teólogo e escritor. Exerço o ministério pastoral na Igreja Cristão Nova Aliança do Senhor, em São Paulo/SP.

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sábado, 2 de junho de 2018

O CRISTÃO E A INTEGRIDADE - PARTE 6




Seu preço: O que acontece quando somos íntegros?

            Ser uma pessoa íntegra, acima de tudo no mundo atual, tem o seu preço. Todavia, este preço não é nada para se comparar com a glória que espera o crente nos céus nem a condenação que aguarda os ímpios no inferno. Logo, por mais que soframos procurando ser íntegros em um mundo mal, este é o caminho certo a ser seguido, e é aquele que agrada a Deus. No modelo de sociedade em que vivemos, onde as pessoas buscam sempre uma forma de tirar vantagem das outras, ser honesto não somente atrai o escárnio das pessoas, como também parece dificultar a vida do homem íntegro, porque, principalmente no Brasil, as coisas parecem funcionar com base na desonestidade. Então, o homem honesto demora mais tempo para resolver as coisas, para conquistar seus sonhos, porque não age de forma ilícita, não dá o “jeitinho brasileiro”.
            Além da dificuldade encontrada ao existir num mundo mal, o homem íntegro é vítima constante dos ímpios. O rei Davi, que sofreu grande perseguição por parte de Saul, sabia o que era estar na mira da perversidade, como ele próprio descreve no Salmo 64. Mais uma vez a língua entra como um instrumento de destruição para perturbar a vida daquele que anda retamente, por meio de maledicências, intrigas e difamações. Diz um ditado popular que só se atira pedras em árvore que dá frutos. O objetivo desses homens malignos é desestabilizar a vida daquele que anda em integridade; se não pode levá-lo a cair, pode colocar pessoas e situações contra ele. Mas até mesmo essa tentativa de desviar os íntegros do seu caminho bom se transforma em destruição para os ímpios. Salomão escreveu: “O que desvia os retos para o mau caminho, ele mesmo cairá na cova que fez, mas os íntegros herdarão o bem” (Pv 28:10). A vontade de Deus é que soframos por praticar o que é bom, não o que é mal (1 Pe 3:17), como o exemplo de Jesus, que na sua integridade foi verdadeiro até o fim, mesmo tendo que suportar o ódio dos seus inimigos, ao ponto de tirar-lhe a vida.
Os que estão firmes na Palavra de Deus, jamais se desviam do caminho certo, mesmo que haja um preço alto a ser pago. Os homens retos não se deixam levar pelas investidas dos ímpios, não seguem os seus maus caminhos, não se desviam da verdade, mas permanecem firmes. Pedro indaga: “Ora, quem é que vos há de maltratar se fordes zelosos do que é bom?” (1 Pe 3:13). Mas completa: “Mas, ainda que venhais a sofrer por causa da justiça, bem-aventurados sois” (v. 14a). O apóstolo deixa bastante claro que a prática da justiça pode produzir sofrimento, como ameaças, por exemplo. O crente precisa estar pronto para responder aos ímpios sobre a razão da sua fé, mantendo a boa consciência para envergonhar aqueles que falam contra ele ao perceber o seu bom procedimento em Cristo (v. 16). A alegria do homem íntegro é sofrer como cristão, rendendo glórias a Deus (4:16).
Desde o início da nossa caminhada cristã, está claro que viver de modo santo em um mundo pecador nos traria consequências. O apóstolo Paulo, que antes perseguia a Igreja, transformou-se em alvo de inquisições e foi vítima de toda espécie de perseguição (1 Tm 1:12-14; 2 Co 4:8,9; 12:10; 1 Ts 3:4; 2 Ts 3:1-3). Ele escreve a Timóteo: “Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2 Tm 3:12). O autor de Hebreus fala de muitos que estavam aprisionados e eram maltratados (Hb 13:3). Pedro chama os crentes a se alegrarem com as perseguições que vinham sofrendo, pois eles estavam sendo co-participantes dos sofrimentos de Cristo (1 Pe 4:12-16). Aqueles que não enfrentam problemas com relação ao seu procedimento na sociedade, que não são vítimas do ódio do mundo, pode ser que não estejam vivendo piedosamente, ou seja: talvez o seu comportamento seja tão pouco parecido com o de Cristo e tão conformado com o mundo, que não se percebe neles o Espírito Santo. Paulo também escreveu: “Mas os homens perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados” (2 Tm 3:13).


Seu caráter eterno: Qual a relevância eterna da nossa integridade?

            O sangue de Cristo nos purificou das obras mortas para servirmos ao Deus vivo (Hb 9:14). A integridade da vida cristã, porém, não diz respeito apenas àquilo que acontece na esfera terrena da sua existência, mas tem um propósito celestial e eterno. Para que fomos salvos? Em Efésios, lemos que somos “feitura” de Deus: Ele nos criou em Cristo (2:10). Esta criação nos coloca numa posição diferente daquela que tínhamos quando éramos incrédulos, dando-nos uma nova natureza e um novo propósito de vida. A nossa filiação divina é segundo o beneplácito da vontade do Pai e para o louvor da sua glória (1:3-14), de modo que a nossa integridade como crentes selados com o Espírito Santo tem um propósito eterno, que se tornará completo na glória. Este é o objetivo da nossa perfeição como Igreja, a noiva do Senhor: sermos apresentados santos e imaculados perante Ele, que a lavou e purificou “para a apresentar a si mesmo uma igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” (5:27; cf. 2 Co 11:2; Cl 1:22-28; Jd 24; Ap 14:4,5).
            A santificação é um processo que se inicia no momento em que somos convertidos pelo Espírito Santo e prossegue num processo contínuo até alcançarmos a perfeição. Neste processo, o homem pode de certa forma cooperar com o Espírito no aperfeiçoamento do seu caráter. Embora seja uma obra divina, o crente é chamado a santificar-se por meio da prática da justiça, da obediência à Palavra de Deus e da abstinência total das obras da carne e dos prazeres do mundo. Tanto a vontade quanto a capacidade para responder a este chamado só são possíveis pelo Espírito Santo que nele habita. O desejo de Deus é que sejamos íntegros em nossa fé e em nosso caráter, refletindo a sua própria glória neste mundo enquanto esperamos a entrada na Israel celestial. Uma questão, todavia, deve ser discutida: os crentes atualmente possuem essa concepção de eternidade? Eles entendem que são forasteiros neste mundo e que a sua pátria está nos céus? Eles anelam por isso?
            Infelizmente, a busca por uma vida reta não tem sido numa perspectiva de eternidade, mas a tentativa de agradar a Deus para viver bem neste mundo. Quando lemos o relato do autor de Hebreus a respeito de grandes homens e mulheres que sofreram toda espécie de males por causa da sua fé, percebemos que, a despeito das suas limitações e falhas, foram pessoas íntegras, que jamais abriram mão dos propósitos de Deus nem negaram a sua fé. Ao contrário do que muitos pregadores afirmam e muitos crentes acreditam, o seu objetivo de vida não era alcançar grandes bênçãos nesta vida, mas elas aguardavam a concretização de uma promessa maior, superior e eterna. Hebreus 11:39 afirma: “Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé, não obtiveram, contudo, a concretização da promessa” (v. 39). Neste ponto podemos perguntar espantados: como não? Então quer dizer que mesmo com seu bom testemunho, sua fé e todo o sofrimento que enfrentaram, eles não obtiveram a promessa?
Até onde sabemos, Abraão foi pai de uma grande nação e Moisés libertou o povo do Egito. Como assim não obtiveram a promessa? O autor de Hebreus prossegue: “por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados” (v. 40). Para entendermos melhor ainda a questão, vamos retornar ao v. 13: “Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas, vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra”. Abraão saiu da sua terra e morreu sem enxergar a terra prometida, mas cria nas promessas de Deus. Mas o autor deixa bastante claro que, tanto Abraão quando todos os heróis da fé não aspiravam um espaço geográfico neste mundo, mas uma pátria superior, celestial. É o que lemos nos versículos 10: “porque aguardava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e o edificador”; e 16: “Mas agora, aspiram a uma pátria superior, isto é, celestial. Por isso Deus não se envergonha deles, de ser chamado o seu Deus, porquanto lhes proveu uma cidade”.
Não podemos abrir mão do propósito eterno da nossa integridade. O que somos começa nesta vida, mas não se limita a ela; começa neste mundo, mas não faz parte dele. A salvação que Cristo nos dá deve nos levar a desejar o céu, o que refletirá na retidão do nosso caráter, nas nossas boas obras, no desapego das coisas deste mundo e na pregação do Evangelho. Se não tivermos esse sentimento, dificilmente seremos íntegros. Devemos nos fazer algumas perguntas: (1) Onde está o seu coração? O Senhor nos diz: “Porque onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6:21). (2) O que temos buscado nesta terra? O Senhor nos exorta: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6:33). (3) Qual o seu verdadeiro anseio? O nosso anseio deve ser o mesmo do apóstolo Paulo: estar com Jesus no céu (Fp 1:21-23).


CONCLUSÃO

Como vimos neste estudo o cristão não deve buscar uma doutrina equilibrada a respeito de nenhum ponto da sua fé, mas a verdade única e absoluta em cada doutrina que a Bíblia apresenta. Da mesma forma, o seu estilo de vida precisa ser íntegro, de acordo com a verdade que ele professa crer, por isso a necessidade de uma verdade que seja absoluta e conduza à integridade. A Palavra de Deus é o prumo seguro da verdade, da fé e da moral. O que ela afirma é verdadeiro e digno de confiança. Não estamos livres para escolher fazer ou não fazer algo: ou podemos ou não podemos. E quando escolhemos um, o outro é excluído. Um exemplo está em Deuteronômio 30:19, onde Deus declara: “Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te propus a vida e a morte, e bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência”. Está explícito que escolher a morte não traria vida, como escolher a maldição não traria bênção. Não é possível, também, crer ou não em Deus. Aquele que se aproxima dele, segundo escreve o autor de Hebreus, deve crer que Ele existe e que se torna galardoador daqueles que o buscam (11:6).
O jovem rico descobriu que não poderia haver qualquer equilíbrio entre seguir a Deus e continuar apegado aos seus bens materiais. Ele, na verdade, buscava fazer as duas coisas: cumprir os mandamentos de Deus, mas com o coração voltado para este mundo e para as suas riquezas que, no final das contas, se mostraram muito mais importantes que a sua fé (Mt 19:16-22). Após o jovem se retirar triste, o Senhor declarou que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus, de modo que os discípulos se maravilharam, dizendo: “Sendo assim, quem pode ser salvo” (vs. 23-25), ao que Jesus respondeu: “Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível” (v. 26). De fato, o que Jesus demonstra nesse episódio é que a salvação não é por aquilo que fazemos (seguir os mandamentos, abrir mão de tudo), pois assim é impossível alcançar o céu. A salvação é pela graça de Deus, não pelos nossos próprios esforços ou nossa vã religiosidade. Desse modo, até o rico avarento pode ser salvo, porque quem operará na vida dele é o Espírito Santo. Não há um equilíbrio entre a nossa busca por Deus e a busca de Deus por nós. É Ele e somente Ele quem trabalha em todo o processo da salvação (cf. Os 11:1-5).
Não devemos abrir mão da verdade absoluta em nenhuma circunstância. É ela que configura a nossa fé em Deus e determina a prática desta fé. Quando tentamos buscar um equilíbrio entre crenças e práticas, fatalmente estamos desprezando a verdade revelada de Deus e a sua própria natureza santa e perfeita. Escolher este ou aquele elemento para compor a nossa fé significa abrir mão de outros igualmente importantes. Mais que isso, essa tentativa de equilibrar doutrinas e práticas nos conduz à mentira, porque o produto que teremos em mãos não será a fé verdadeira, mas uma versão distorcida engendrada pelo nosso pecado. A Teologia da Prosperidade é expert em utilizar apenas os versículos que, de acordo com a sua interpretação, demonstram que o cristão deve viver uma vida isenta de sofrimento e financeiramente próspera, que isso é um direito seu, afirmando, inclusive, que o fiel de Deus não adoece. Por outro lado, eles rejeitam e não pregam a respeito de textos que demonstram claramente como os homens de Deus sofreram enquanto estavam na terra, como o capítulo onze de Hebreus, os sofrimentos de Paulo pelo Evangelho e até o exemplo de Jesus Cristo. A busca pelo equilíbrio teológico culmina na criação de falsos ensinos e heresias. O que Deus espera de nós não é o equilíbrio, como dissemos, mas uma teologia genuinamente bíblica, forjada na correta exegese da sua Palavra, isenta de pressupostos humanos tendenciosos (Tt 2:7,8; 1 Tm 4;1-3). Ele também deseja a integridade do caráter, uma vida reta e santa baseada na sua Palavra, totalmente isenta das inclinações da nossa carne e impregnada com a ação poderosa do Espírito Santo. Em todas as coisas, seja Deus verdadeiro, e mentiroso, todo homem (Rm 3:4).



BIBLIOGRAFIA


MACARTHUR, John. A guerra pela verdade. São Paulo: Fiel Editora, 2014.




AUTOR:

Mizael de Souza Xavier, natural do Rio de Janeiro. Moro atualmente em São Paulo. Sou poeta, teólogo e escritor. Exerço o ministério pastoral na Igreja Cristão Nova Aliança do Senhor, em São Paulo/SP.

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O CRISTÃO E A INTEGRIDADE - PARTE 5




Suas recompensas: O que ganhamos sendo íntegros?

            Quando falamos em recompensas por uma vida íntegra, com certeza não estamos nos referindo a prêmios que o Senhor nos dar pela retidão do nosso caráter e pela santidade do nosso comportamento. Assim como em tudo na vida cristã, não amamos e servimos a Deus para ganhar prêmios por isso, mas porque Ele é Deus e devotarmos nossa vida inteiramente a Ele é um dever e um prazer. Falar em recompensas significa afirmar que a integridade sempre nos trará consequências positivas, ainda que venhamos a sofrer por isso. A maior dessas consequências é a paz que experimentamos diante de Deus e a segurança que esta paz nos proporciona por sempre estarmos fazendo a coisa certa, o que promove uma vida segura (Pv 10:9; 28:18). A santidade de Deus nos conduz à integridade moral como condição para nos parecermos com Ele. Sem esta santidade que o Senhor nos dá por meio do seu Santo Espírito, é impossível desenvolvermos a nossa salvação até o alcance da perfeição; e é improvável que não teremos do que nos envergonhar e temer por causa das nossas ações.
A integridade que temos em nós é fruto dos méritos de Cristo conquistados na cruz e da sua justiça que nos é imputada e que nos torna agradáveis a Deus. Deus se mostra íntegro para com aqueles que são íntegros, embora a integridade de Deus jamais mude, mesmo para com os que não são íntegros (Sl 18:25). A retidão de Deus pode ser vista na distribuição da sua justiça, quando Ele retribui cada um conforme as suas obras (Jó 34:11). Logo, praticar a justiça e rejeitar a iniquidade é a atitude de quem deseja provar das consequências positivas da justiça de Deus. Paulo escreveu a respeito daqueles que praticam o que condenam: “Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade contra os que praticam tais coisas” (Rm 2:2); e afirmou que Ele retribuía a cada um segundo o seu procedimento (v. 6). A forma de nos mantermos livres de más consequências e agradarmos a Deus é sendo íntegros. Ele abençoe aqueles que vivem em integridade (Sl 41:12; 84:11).
A integridade também produz bom testemunho do crente diante do mundo e a glorificação do Nome de Deus. Ela gera uma boa consciência capaz de manter o crente reto em seus caminhos, de modo que não há nada que se possa falar de mal dele e ao mesmo tempo ele contradiga aqueles que o acusam injusta e falsamente (1 Pe 3:16). Somos filhos da luz, e na luz não existem trevas. Ao discursar perante o rei Agripa, o apóstolo Paulo descreve a sua conversão quando chamado pelo Senhor para servi-lo (At 26:1-23). A natureza da sua missão era a evangelização dos gentios, para “abrir-lhes os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus” (v. 18). Vemos aí a consequente mudança na vida daquele que é convertido pelo Senhor. Existe uma mudança radical efetuada em sua vida: do pecado para a integridade. Como filhos da luz, devemos refletir no nosso caráter as obras da luz, andando como filhos da luz (1 Ts 5:4-11; Ef 5:8).
            O homem reto é guiado pela integridade e guardado pela justiça (Pv 11:3; 13:6). Para entendermos as consequências positivas que seguem a vida daquele que a integridade o guia, basta nos resultados das ações dos pérfidos: a sua mesma falsidade os destrói. Aqueles que andam desordenadamente, encontram cedo ou tarde com o fruto daquilo que semearam. O seu fim é trágico (Sl 37). Quem anda integramente, não teme o mal e colhe os frutos da sua própria justiça. Aqueles que são íntegros encontram nos caminhos do Senhor a sua fortaleza, estão seguros. Os ímpios, porém, vivem na ruína (Pv 10:29). A justiça do íntegro endireita o seu caminho, conduz seus passos pelas veredas da justiça e impede que ele tropece, que tenha comportamentos errados e venha a cair (Pv 11:6; 28:18). Logo, vale a pena andar de maneira íntegra. O futuro do homem íntegro é um futuro de paz, enquanto o dos transgressores é a destruição (Sl 37:37,38).Os retos e íntegros habitarão a terra e permanecerão nela (Pv 2:20,21), ao contrário dos ímpios, que serão exterminados (v. 22). A terra é a herança eterna dos que andam retamente (Mt 5:5; Sl 37:29).
            A integridade na prática da vontade de Deus traz consequências positivas ao crente (Nm 14:24; 32:12). Se coisas muito ruins têm nos acontecido, pode ser que a nossa falta de integridade seja uma das razões. Muitas pessoas se perguntam por que nada dá certo na sua vida, porque vivem atribuladas e até mesmo no ministério da igreja não obtêm êxito. Pode ser que não estejam sendo sinceras o suficiente consigo mesmas a respeito das suas atitudes. O livro de Juízes retrata o ciclo espiritual em que vivia a nação de Israel. Temos um claro exemplo no capítulo seis. Se levarmos em conta a história daquele povo desde a sua saída do Egito, podemos ver que Deus enviou um libertador para tirá-los de um estado de escravidão e dar-lhes uma terra onde pudesse habitar livres. Eles, porém, pecaram e Deus lhes enviou castigos. Em Juízes, este ciclo está bastante explícito: o povo peca (6:1), Deus envia um castigo (vs. 1-5), o povo clama a Deus (vs. 6,7) e Deus envia um libertador (vs. 11-16). Nesta ocasião, o Senhor convoca Gideão para restaurar a nação. Ao ser saudado pelo Anjo do Senhor, que lhe disse: “O Senhor é contigo, homem valente” (v. 12), Gideão responde com indignação contra o Senhor, porque não entendia porque ele e seu povo vinha sofrendo nas mãos dos midianitas (v. 13). Entretanto, lendo o v. 10, a resposta ao questionamento daquele homem valente está clara: “não destes ouvidos à minha voz”.
            Andar de maneira íntegra em tudo favorece o nosso relacionamento com Deus e o nosso comportamento no mundo. Além do que já foi dito a respeito das consequências positivas, vivemos em paz com as leis de Deus e do nosso país, não tendo do que nos envergonhar diante do mundo e de Deus. Nós nos tornamos pessoas melhores, maduras e sábias quando agimos com integridade, e isso reflete nos nossos relacionamentos. A integridade do caráter se estende, inclusive, aos nossos próprios filhos, que lucram com as nossas ações íntegras (Pv 20:7). Essa integridade também tem valor para o reino de Deus: por meio de uma vida íntegra, tornamo-nos testemunhas do Evangelho de Cristo e testificamos do Reino de Deus em um mundo corrompido. Num mundo materialista e individualista, que clama por valores monetários, diante de Deus, é preferível ser íntegro e pobre que rico e perverso (Pv 28:6).


Sua ausência: O que acontece quando não somos íntegros?

            Para responder a esta pergunta, bastaria que afirmássemos o contrário de tudo o que foi dito no ponto anterior. Por exemplo: “A falta de integridade na prática da vontade de Deus traz consequências negativas ao crente”. Ou: “A ausência de integridade produz mau testemunho do crente diante do mundo e a não glorifica o Nome de Deus”. Se é certo que um viver íntegro atrai bênçãos para a vida do homem reto, também é certo que uma vida ímpia resulta em maldição. A vida do rei Saul é o retrato de alguém que decide viver em rebeldia contra Deus e ainda assim espera obter sucesso naquilo que faz. Vemos no primeiro livro de Samuel, duas repreensões a Saul (13:13,14 e 15:23,28). Em ambos os casos a acusação que pesava sobre ele era a desobediência aos mandamentos do Senhor: “Procedeste nesciamente em não guardar o mandamento que o Senhor, teu Deus, te ordenou” (13:13); “Visto que rejeitaste a palavra do Senhor”. O resultado dessa falta de retidão de Saul foi a rejeição divina e a perda do seu reinado. O seu sucessor, o rei Davi, apesar de ser considerado um homem segundo o coração de Deus (1 Sm 13:14; 16:12; Sl 89:20; At 13:22), também teve seus momentos de fraqueza, vindo a colher os resultados do seu pecado.
            A falta de integridade dos seus reis apenas reflete o estado espiritual em que a nação de Israel se encontrava. Como vimos anteriormente, o livro de Juízes relata o ciclo de quedas daquele povo. Todos os profetas exortaram o povo de Deus sobre o seu mau procedimento e as consequencias que ele lhes trazia. O livro do profeta Isaías inicia com uma terrível repreensão: “Ai desta nação pecaminosa, povo carregado de iniquidade, raça de malignos, filhos corruptores; abandonaram o Senhor, blasfemaram do Santo de Israel, voltaram para trás” (Is 1:4). Jeremias declarou que Jerusalém era uma cidade pecaminosa, onde não havia integridade (Jr 5:1). Ezequiel profetizou a respeito das abominações que Israel estava praticando (Ez 8:6), onde até mesmo os falsos profetas falavam pretensamente em nome de Deus para enganar o povo (13:8,9). Amós profetizou sobre a cegueira espiritual de Israel (4:4-13). Miquéias falou a respeito da corrupção moral em que aquela nação se encontrava (Mq 7:1-7). Malaquias denunciou a pecaminosidade no roubo nos dízimos e nas ofertas (Mq 3:7,8), o que trazia maldição sobre o povo (v. 9).
            Salomão escreveu em seus provérbios que aquele que não é íntegro não terá o bem, mas somente a maldade (Pv 17:20; Pv 20:19). Essa maldade que tal homem experimenta está ligada às consequências da sua língua dobre. O uso da língua determina o caráter de uma pessoa e o seu destino. Numa língua dobre não existe verdade, apenas mentira e hipocrisia. A integridade pertence àquele que não tropeça no falar, porque é capaz de frear todo o seu corpo (Tg 3:2). A língua, porém, é somente mais um órgão do corpo humano que não possui consciência nem vontade própria. Ela apenas serve para articular as palavras que saem da garganta e reverberam nas cordas vocais. E essas palavras são produzidas pela mente humana. Logo, a língua é um instrumento humano de bênção ou de destruição. Isto nos leva à realidade de que a boca fala daquilo que o coração está cheio e pode revelar o verdadeiro caráter de alguém: “como podeis falar coisas boas, sendo maus?” (Mt 12:33,34). Sobre isso, Tiago faz várias comparações mostrando a impossibilidade de haver compatibilidade entre um caráter íntegro e a maldade, e entre um caráter ímpio e a bondade (Tg 3:7-12). O resultado de um caráter mortífero é o inferno.
A falta de integridade conduz à hipocrisia, e esta é capaz de corromper outras pessoas, como afirmou Jesus a respeito dos fariseus: “Acautelai-vos do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia” (Lc 12:1,2; Mt 16:6,12). Jesus estava falando a respeito da doutrina daqueles homens, que ensinavam o que não praticavam: “Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles vos disserem, porém não os imiteis nas suas ações; porque dizem e não fazem” (Mt 23:3). A falta de integridade pode induzir outras pessoas ao erro, influenciá-las a comportamentos nocivos, afastá-las da verdade. Mesmo grandes homens de Deus, como o apóstolo Pedro, pode se deixar levar por atitudes que não condizem com o caráter santo de Deus (Gl 2:13,14). O que pode acontecer quando a hipocrisia vier à tona? Quantos ministérios são destruídos por líderes religiosos mentirosos que se utilizam da fé para praticar crimes. Quantos crentes se afastam da verdade porque são ensinados com base em mentiras. Quantos relacionamentos são desfeitos porque têm por base a falsidade. O mesmo Deus que não rejeita o homem íntegro, também não toma pela mão os malfeitores (Jó 8:20).


CONTINUA...


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Mizael de Souza Xavier, natural do Rio de Janeiro. Moro atualmente em São Paulo. Sou poeta, teólogo e escritor. Exerço o ministério pastoral na Igreja Cristão Nova Aliança do Senhor, em São Paulo/SP.

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O CRISTÃO E A INTEGRIDADE - PARTE 4



Seu motivo: Por que devemos ser íntegros?

A integridade nos diferencia dos homens ímpios (Sl 26:9-12). Ela é consequência da nossa conversão e ao mesmo tempo um mandamento do Senhor: devemos ser santos porque Deus é Santo (1 Pe 1:15; 1 Ts 5:23). Fomos escolhidos por Deus para sermos santos e irrepreensíveis na sua presença (Ef 1:4; Cl 1:22; Sl 15:1-5). É impossível que sejamos aceitáveis diante de Deus por causa dos nossos pecados que fazem separação entre nós e Ele. A justificação pela fé em Cristo nos reconcilia com Deus e nos torna dignos de servi-lo. Não habitamos na sua casa, mas somos a sua casa por meio do seu Santo Espírito. Essa integridade que nos é dada na conversão e na santificação diária, permite que sejamos crentes além da aparência, diferentemente daqueles que, como o apóstolo Paulo escreveu, se gloriam na aparência e não no coração (2 Co 5:12). O crente íntegro tem uma nova razão de existir e uma motivação santa em seus pensamentos e ações. Ele não vive mais para si mesmo, mas para aquele que por ele morreu e ressuscitou (v. 15). Ele não anda mais segundo a corrupção que há na sua carne, mas segundo Cristo. E assim, “se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (v. 17). A integridade só é possível em um coração que não vive mais de si para si, mas de Deus para Deus. Servir a Deus envolve uma vida íntegra e uma alma voluntária, onde não há espaço para o velho homem e as suas práticas pecaminosas (1 Cr 28:9; Js 24:14).
            Como mandamento, a integridade é aquilo que Deus pede de nós, e envolve a prática da justiça, o amor pela misericórdia e a humildade (Mq 6:8). A nossa atitude para com as pessoas reflete a integridade que temos em Deus. Se somos íntegros, a justiça, a misericórdia e a humildade farão parte das nossas relações. Ao contrário, se o nosso caráter não for reto, dificilmente desenvolveremos essas virtudes. A Igreja evangélica tem experimentado uma avalanche de problemas envolvendo a qualidade moral dos seus membros e das suas lideranças. Algumas já nascem como fruto de um caráter deturpado, interessado apenas em satisfazer a sua sede de dinheiro e de poder. Muitos crentes que caem em pecado em suas denominações e não querem se arrepender, acabam migrando com seus pecados para outras denominações, espalhando o seu mal e contaminando outros irmãos. Outros vão além e abrem as suas próprias igrejas, que já nascem como fruto de um pecado. Que tipo de pregação e que ética farão parte dessas novas igrejas?
Devemos ser íntegros porque a nossa integridade atrai a justiça de Deus. Se pedirmos a Deus que nos faça justiça quando não estamos andando integramente, devemos estar certos que esta justiça virá sobre nós em forma de juízo (Sl 7:8; 26:1,11). Então ser íntegro tem a ver com a nossa consciência diante de Deus. Paulo era alguém que podia defender a si próprio com base na sua integridade como servo de Deus. Se antes ele era um judeu radical que perseguia aqueles que pregavam uma fé diferente da sua, logo ele se colocou do outro lado da frente de batalha, respondendo pelo crime de pregar a fé que outrora procurava exterminar. Paulo, enquanto fariseu, acreditava que a fé em Jesus Cristo era uma afronta às Escrituras; depois da sua conversão, porém, passou a defendê-la de acordo com a lei e os escritos dos profetas (At 24:14). A sua nova fé lhe permitia, finalmente, ter consciência pura diante de Deus e dos homens (v. 16). A esperança em Deus é que nos faz viver de maneira íntegra. Aqueles que não esperam em Deus, mas vivem segundo seus próprios caminhos, jamais poderão ser íntegros nem ter segurança naquilo que fazem (Sl 25:21).
Uma consciência íntegra é aquela que não tem do que se condenar, que está absolutamente certa quanto àquilo em que acredita e às práticas resultantes da sua fé. Esta consciência não é produzida pela capacidade humana de obedecer a Deus e fazer o que é certo, mas é resultado da obra vicária de Cristo na cruz, como escreveu o autor de Hebreus: “muito mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas, para servimos ao Deus vivo!”. A consciência imaculada impede que sirvamos a Deus, mas a nova natureza que nos é dada por Cristo nos permite sermos aceitáveis a Ele. Desta forma, estaremos seguros quanto ao nosso procedimento diante dos homens, podendo estar tranquilos quanto ao nosso caráter e procedimento, mesmo quando somos acusados de praticar o que é errado. Quando nos abstemos se fazer o que não agrada a Deus, mantemos o nosso procedimento exemplar, de modo que aqueles que falam contra nós se contradizem e dão glórias a Deus (2 Pe 2:11,12). Pedro ainda escreve que devemos nos santificar a Cristo em nosso coração, para darmos resposta àqueles que questionam a nossa esperança no Senhor, “fazendo-o, todavia, com mansidão e temor, com boa consciência, de modo que, naquilo que falam contra vós outros, fiquem envergonhados os que difamam o vosso bom procedimento em Cristo” (3:15,16). A integridade leva a uma boa consciência, e esta boa consciência confirma a nossa integridade, não deixando espaço para o que de mal possam nos acusar.
Alguns crentes acreditam que a sua vida nova não é resultado da fé em Cristo, mas um artifício para obter o favor de Deus. Isto é: não buscam acertar porque nasceram de novo, mas porque creem que ganharão o favor de Deus com isso e atrairão as suas bênçãos. Entretanto, O cumprimento das promessas de Deus envolve andarmos em integridade de coração. Não podemos esperar receber de Deus as suas bênçãos se não agimos conforme o seu caráter, praticando a sua vontade revelada nas Escrituras (1 Rs 9:4,5).  Devemos ser íntegros pelo que Deus é, não pelo que Ele faz. Abraão creu na promessa de Deus de que viria a ser pai de uma grande nação (Gn 12:2; Rm 4:11; Hb 11:8-19). Mas terá ele visto essa grande nação? Independente de não tê-la avistado, ele permaneceu na fé, jamais se desviou dela, nem mesmo quando Deus lhe pediu que sacrificasse o seu filho, Isaque (Gn 22). Jó, quanto posto a prova, não perdeu a sua fé, que era muito mais que a sua confiança inabalável em Deus, mas envolvia também a integridade do seu caráter como fruto dessa confiança. Isto é exercitar a fé: ser íntegro.
Muitos abandonam a sua integridade tão logo as tribulações os alcancem. Sempre haverá tribulação, perseguição, barreiras, principalmente no início da caminhada cristã. Para Deus não importa tanto como começamos, mas como iremos terminar. O que decidirá o nosso sucesso será o nível de compromisso com a obra de Deus e a nossa integridade. Assim como Neemias, José enfrentou duras penas até chegar ao ponto planejado por Deus. Mesmo diante de todas as circunstâncias adversas, ele não se dobrou, não negociou os seus valores. Temos uma reação natural de pagar o mal com o mal, entretanto Deus nos convoca a uma resignação santa, fruto de uma fé confiante e íntegra, tendo a certeza de que Ele está no controle de todas as coisas (Rm 8:28).


Suas formas: Como podemos ser íntegros?

            Este ponto envolve duas questões. A primeira é o que podemos fazer para nos tornarmos pessoas íntegras, o que já foi exposto: pela graça de Deus que nos justifica e nos santifica. A segunda diz respeito ao caráter que essa integridade produz em nós e o seu comportamento consequente. Ou seja: como agem as pessoas íntegras? E: como elas podem desenvolver e aperfeiçoar a sua integridade? A integridade tem a ver com o nosso novo nascimento e a renovação da nossa mente, que retira de nós o padrão mundano e nos faz conforme o próprio Deus (Rm 12:1,2). Este novo padrão produzirá uma integridade baseada na santidade de Deus, não nas nossas práticas antigas. Se o padrão é novo e não está baseado nas paixões que anteriormente militavam na nossa carne (Rm 6:6-12; 11:30; 1 Co 6:11; Cl 3:5-11; 1 Pe 1:14,15), ele precisa estar baseado no novo, que é produzido em nós pela prática da Palavra de Deus, onde existe integridade plena.
A nossa forma de crer serve de base para nosso modo de agir. Portanto, a nossa integridade precisa estar baseada na crença correta, onde os nossos valores serão formados a partir das Sagradas Escrituras, ditando como deve ser o nosso comportamento. A partir do momento que sabemos o que fazer e como fazê-lo, o nosso caráter é alicerçado firmemente. Não existe espiritualidade cristã e vida íntegra sem coerência entre aquilo que cremos (ortodoxia) e aquilo que praticamos como fruto dessa crença (ortodoxia).  O Senhor Jesus nos ensinou: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13:35). A mensagem do Evangelho é uma mensagem de amor, de fé, de perdão, de restauração, de reconciliação, de esperança, de abandono do pecado, de obediência, de adoração e de serviço a Deus. Como viveremos e pregaremos este Evangelho se as nossas atitudes forem incoerentes com esses valores? Como o mundo enxergará em nós o Cristo que anunciamos se todas as nossas ações são contrárias ao que Ele pregou e viveu? Escrevendo a Tito sobre os falsos mestres e as suas falsas doutrinas, Paulo diz a respeito dos insubordinados: “No tocante a Deus, professam conhecê-lo; entretanto, o negam por suas obras; é por isso que são abomináveis, desobedientes e reprovados para toda boa obra” (Tt 1:16) O servo do Senhor, no entanto, deve ser padrão de boas obras (2:7), “dando prova de toda fidelidade, a fim de ornarem, em todas as coisas, a doutrina de Deus, nosso Salvador” (2:10).
Aos Tessalonicenses ele escreveu: “Pois esta é a vontade de Deus, a vossa santificação: que vos abstenhais da prostituição, que cada um saiba possuir o seu corpo, em santificação e honra” (1 Ts 4:3,4). Se o nosso ser (corpo, alma e espírito) não carrega a santidade de Cristo, não haverá integridade nas nossas ações. Só podemos ser íntegros se aliarmos a prática às nossas crenças. Salomão escreveu em seus Provérbios: “A integridade dos retos os guia, mas aos pérfidos a sua mesma falsidade os destrói” (11:3). Tiago escreveu que aquele que se acha sábio e inteligente, deve mostrar isso em mansidão e sabedoria, mediante obras condizentes com essas qualidades (Tg 3:13). O contrário disso é mentir contra a verdade (v. 14). A integridade da prática, todavia, provém da integridade com a crença. Isto significa que é preciso crer da maneira correta, ser coerente com o ensino apostólico. Boas práticas que não provenham de boa doutrina são desprezíveis. Paulo escreveu aos gálatas a respeito da questão judaizante, envolvendo a prática da Lei mosaica e a graça libertadora de Deus em Cristo. Ele afirma que paz e misericórdia seriam multiplicadas a “todos quantos andarem de conformidade com esta regra” (6:16); isto é: a crença correta na salvação pela graça.
Só podemos alcançar essa integridade com o nosso coração transformado. As nossas ações são consequências daquilo que está no nosso coração. Assim como acontecia com os fariseus, as igrejas estão lotadas de pessoas que vivem uma fé de aparência, baseada nas suas manifestações religiosas nos templos onde vão cultuar a Deus. Seus dízimos e ofertas, a sua participação em ministérios e eventos de suas denominações escondem o orgulho e o pecado no oculto do coração e do lar, onde somente Deus pode sondar. Mas Deus julgará as intenções do coração, se foram íntegras ou não (Mt 10:26; Lc 16:15; 1 Co 4:5; 1 Cr 28:9; 29:17). A integridade é fruto de um coração arrependido, que reconhece a sua necessidade de Deus e anda em justiça. A estes, Deus recompensa com a sua presença e a sua glória (Is 33:13-16).
O caráter íntegro não é revelado na religiosidade insípida vivida hoje, mas se mostra através das boas obras, bem como a falta de integridade se desmascara por meio das más obras (1 Tm 24,25; Pv 10:9;  26:26). É Deus quem produz a integridade a aperfeiçoa. Não podemos ser homens íntegros mediante nossos próprios esforços, mas segundo a graça de Deus que opera em nós por meio do seu Santo Espírito (2 Co 1:12; Fp 1:6; Hb 10:22). A integridade se evidencia por meio de relacionamentos saudáveis (2 Co 1:12; 1 Co 8:7-12), pela valorização das coisas que são do alto, pela busca constante do Reino de Deus em primeiro lugar e pela glorificação do Nome do Senhor (1 Co 10:31). O homem íntegro é honesto em tudo o que faz (Pv 11:1; 16:11; 20:10,23). Se não existe honestidade, não há integridade, a começar pela nossa própria casa, onde primeiro ela deve se evidenciar (Sl 101:2). Não podemos ser íntegros apenas aos olhos das pessoas. A integridade não tem a ver com o que fazemos, mas com quem somos (Lc 16:15). Se não somos bons pais, bons filhos, bons amigos, bons patrões, bons empregados, não adianta manter as aparências na Igreja.
             O mundo é o ambiente de onde fomos tirados por Deus para servi-lo, mas é no mundo que devemos desenvolver e manifestar a nossa integridade, separando-nos moralmente dele e influenciando-o com os novos valores que Cristo nos dá. Somos sal da terra e luz do mundo (Mt 5:13-16). Se nos falta sabedoria de como agirmos em determinadas situações, devemos pedi-la a Deus e buscá-la na sua Palavra. A prática da sabedoria que vem de Deus permite que os nossos caminhos sejam retos para que não venhamos a tropeçar (Pv 2:6-8; 3:19-23). A sabedoria nos dá um conceito correto acerca das coisas (1 Co 10:23; Tt 1:15), ensinando-nos a como agir em todas as circunstâncias para que sempre façamos o que é certo. Uma forma de andarmos assim e mantermos a nossa integridade é falar e agir como Jesus, imitando-o em seu caráter (Ef 5:1). Se não agirmos com integridade, até mesmo a qualidade do nosso amor sofrerá interferências negativas. O amor correto procede de um coração puro, uma consciência boa e uma fé sem hipocrisia (1 Tm 1:5). Assim, o agir do crente íntegro é puro, bom e verdadeiro.

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AUTOR:

Mizael de Souza Xavier, natural do Rio de Janeiro. Moro atualmente em São Paulo. Sou poeta, teólogo e escritor. Exerço o ministério pastoral na Igreja Cristão Nova Aliança do Senhor, em São Paulo/SP.

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