quinta-feira, 2 de agosto de 2018

COMO ADMINISTRAR O SEU TEMPO



Introdução
Efésios 5:16

O tempo é o nosso bem mais precioso e o mais desperdiçado. É algo que temos e ao mesmo tempo não temos. De todas as forças da natureza que o homem é capaz de dominar, o tempo é um elemento impossível de ser sujeitado, armazenado, retido. Algo tão precioso devia ser melhor administrado e investido, no entanto, passamos o nosso tempo gastando-o com aquilo que não produz crescimento, que não acrescenta nada de bom à nossa vida. Às vezes nos queixamos de que o dia deveria ter mais que 24hs, porque o tempo está cada vez mais escasso, mais curto para fazermos tudo o que queremos ou precisamos. Ao invés te adaptarmos o nosso calendário de atividades ao tempo que temos disponível, queremos fazer o contrário. O resultado é o descontrole do nosso tempo e a derrota pelas circunstâncias. Ao invés de controlarmos o tempo, somos controlados por ele. Para administrar bem o nosso tempo não podemos viver a mercê das circunstâncias. O que são as circunstâncias senão aquilo que acontece quando nem sempre esperamos e que foge completamente ao nosso planejamento? Logo, como poderemos basear nelas a nossa vida, nosso ministério, nossas ações? É preciso saber o que fazer antes que elas aconteçam e estar preparados para elas, e isto só se dará com uma administração eficaz do nosso tempo. Deus deseja que administremos este bem tão precioso para que o glorifiquemos através da responsabilidade. Como fazer isso? Como otimizar o tempo e transformar desperdício em investimento? É isso que veremos neste estudo. Tempo desperdiçado não volta jamais, e o tempo que gastamos tentando compensar o tempo perdido, é mais tempo sem o aproveitamento devido. A Bíblia nos ensina a remir o tempo, porque os dias são maus (Ef 5:16).


O que é o tempo?
Gálatas 6:10

Se tivéssemos o tempo de Deus, um dia para nós seria como mil anos, mas talvez nem assim saberíamos aproveitar todo esse tempo, porque acabaríamos encontrando tarefas que requereriam pelo menos dois mil anos. O Novo Testamento utiliza duas palavras gregas para se referir ao tempo: kairós e chrónos. O termo kairós significa um tempo oportuno (Ef 5:16; Gl 6:10; Cl 4:5; Hb 11:15), um ponto ou um período no tempo (Lc 21:36; At 14:17), tempo presente (Rm 3:26), tempo favorável (Mc 12:2; Lc 20:10), tempo fixo definido (Mt 13:30; Gl 6:9) e tempo de crise ou últimos tempos (Mt 8:29; 1 Co 7:29; Ef 1:10; Ap 1:3). O termo chrónos designa demora, prazo, tempo (Mt 25.19; Lc 8.27; Jo 7.33; At 1.7; 14.3, 28; 17.30; Rm 16.25; 1 Co 16.7; Gl 4.4; Hb 5.12; Ap 6.11). Existe uma sensível diferença entre o tempo humano e o tempo de Deus: para Deus não existe conceito de tempo, como também não existe espaço. O tempo é visto sempre a partir da uma perspectiva humana e limitada. O nosso passado, presente e futuro fazem parte de um hoje eterno de Deus, que nem hoje é. O que para nós ainda é futuro, para Deus aconteceu desde a eternidade. Quando a Bíblia faz menção ao tempo se referindo a Deus, é para que tenhamos uma visão mais ou menos clara da forma como Ele age no mundo. Como não somos Deus e estamos limitados a essa realidade temporal, sem poder controlar o hoje, apressar ou atrasar o amanhã, cabe-nos fazer o melhor com o tempo que temos em mãos, aproveitando-o como oportunidades de Deus para nós (2 Tm 4:2). De podemos estar certos de que oportunidades jamais faltarão se administrarmos bem o tempo que temos disponível (Gl 6:10). Nessa administração, descobriremos que não precisamos fazer tudo sozinhos nem ao mesmo tempo. Uma caminhada não se dá com saltos, como o Hulk, mas passo a passo. Um passo de cada vez.


Evite gasto indevido de tempo
Eclesiastes 3:18

A administração do nosso tempo requer sabedoria. Precisamos avaliar as escolhas que temos feito e quais são as nossas prioridades reais para eliminar o tempo gasto de maneira incorreta, com coisas que não contribuem para o nosso crescimento e para o nosso desempenho na obra do Senhor. Tempo eficaz é aquele que investimos naquilo que realmente tem importância e que nos dará um retorno seguro. Se as nossas tarefas não têm produzido um resultado satisfatório, se não têm contribuído para alcançarmos nossas metas dentro daquilo que é prioridade para a nossa vida pessoal, familiar, profissional e ministerial, elas precisam ser reavaliadas e até mudadas. A forma como administramos o nosso tempo, as coisas que elegemos como prioridades, é que mostra o nosso real valor, o nosso caráter; são essas coisas que deixam claro aquilo que realmente nos é importante. Quando usamos mal o nosso tempo, quando empregamos nossas preciosas horas naquilo que é infrutífero, não temos retorno de espécie alguma, pelo contrário, perdemos nós e o Reino de Deus. Um tempo gasto indevidamente é um tempo inútil, que não pode ser recuperado. Quantos cristãos perdem longas horas em frente à TV assistindo novelas, destruindo os seus neurônios, maculando a sua espiritualidade, absorvendo verdadeiro lixo cultural ao invés de investir no Reino de Deus! pais não têm tempo para os seus filhos, casais não investem tempo de qualidade na relação, pastores não empregam tempo no estudo da Palavra, jovens passam mais tempo em jogos na Internet do que se dedicando aos estudos e à sua vida na igreja. O problema real não é a falta de tempo ou o tempo curto, mas o mau uso que fazemos do tempo que temos disponível. Perder tempo pode significar a perda de uma oportunidade de fazer o bem, de buscar Deus com mais empenho, embora Ele jamais nos faltará. Otimizemos o nosso tempo!


Mantenha uma agenda flexível
1 Tessalonicenses 2:18

Nosso tempo precisa ser otimizado. Otimizar significa tornar ótimo ou ideal, extrair o melhor possível de algo (o tempo) ou alguém (nós). Não podemos ser escravos do relógio, mas é sempre bom manter uma agenda de atividades bem organizada, que nos ajude a fazer o que tem de ser feito no tempo certo. Esta agenda deve estar sempre aberta. A administração do nosso tempo precisa ser flexível. Existem muitos cristãos vivendo um ativismo desenfreado, escravos das suas atividades, da sua agenda, não abrindo mão do que já está programado. Todavia, a própria vida se encarrega de nos mostrar que existe tempo para tudo e que esse tempo é o tempo de Deus. Deus sempre encontrou um tempo para nós, sempre manteve a sua agenda flexível para nos atender em nossas necessidades. Deus não quer que sejamos irresponsáveis com relação ao nosso tempo e nossas obrigações, mas Ele espera que, acima de tudo, esteja o amor pelo próximo e o cuidado sempre constante com as suas necessidades. As pessoas não existem por nossa causa; nós, como servos de Cristo, despenseiros do Reino de Deus e ministros do Evangelho é que existimos por causa delas. Quando otimizamos o nosso tempo, permitimos que as tarefas sejam feitas da forma correta e no espaço de tempo devido, dando-nos oportunidade de investir nos imprevistos ou de ganhar tempo para aplicar em outras atividades importantes. Uma agenda flexível conterá algo que veremos mais adiante: as prioridades. Embora tudo caminhe dentro da direção soberana de Deus, do ponto de vista humano, Adão quebrou a agenda de Deus quando pecou, levando a uma reorganização em torno de uma nova realidade. Imaginemos se Deus fosse inflexível, se Ele não encontrasse tempo na sua agenda para providenciar-nos um Salvador. Da mesma forma, precisamos estar sempre abertos à reorganização da nossa vida.


Separe tempo para cuidar de si mesmo
Salmo 139:14

Somos santuários do Espírito e habitação de Deus (1 Co 3:16; 6:19; Ef 2:22). Logo, cuidar a nós mesmos é muito mais que uma questão de amor próprio, mas é amar ao Deus que habita em nós. A Palavra de Deus nos mostra algumas formas de valorizarmos o santuário de Deus e mantê-lo sempre agradável aos olhos do Senhor.  A falta de organização do nosso tempo toma muito de nós e não deixa espaço para uma vida de maior dedicação a Deus. Às vezes queremos fazer coisas demais em pouco tempo e acabamos deixando muitas prioridades de lado, como ler a Bíblia e orar. Administrar nosso tempo, além de incluir como prioridade a pessoa de Deus, precisa deixar espaço para nosso lazer, nossa família, para cuidarmos da nossa saúde. Deus não é insensível às nossas necessidades pessoais. O nosso Deus é um Deus que cuida de nós. Quando alguém chega à exaustão na obra do Senhor não é porque é um super-crente, mas porque é alguém que não sabe se cuidar, que não entende que o seu corpo é santuário do Espírito Santo, mas continua sendo de carne e osso e precisa de cuidados especiais. O ativismo nunca é saudável. Em Mateus 23:37 e Marcos 12:30 aprendemos que devemos amar a Deus de quatro maneiras: nossa força, e isso representa esforço físico para louvar, pregar a Palavra, servir, adorar; nosso coração, o que também significa que devemos usar nossas emoções no amor a Deus; nossa alma, isto é, com toda a nossa espiritualidade; nosso entendimento, o que podemos entender como mente e razão. Sendo assim, aquele que ama a Deus, que deseja amar ao próximo como a si mesmo, deve amar-se ao ponto de não descuidar da sua saúde física e espiritual. Quando negligenciamos um, normalmente estamos em falta com outro. Para isso precisamos administrar o nosso tempo corretamente, levando sempre em conta a glória de Deus.


Planeje!
Lucas 14:28,29

Não existe maneira mais simples de otimizar o tempo do que através do planejamento, embora nem sempre a vida corra na mesma direção da nossa agenda. Quando planejamos para Deus e sob a sua orientação, estamos certos de que Ele fará o melhor por nós.  o planejamento deve levar em conta as nossas atividades e o tempo precisaremos para realizá-las, de modo que tudo seja feito no prazo, dentro das nossas possibilidades. Muitas vezes nos envolvemos com coisas demais, querendo realizar muitas tarefas ao mesmo tempo, acabando não fazendo nada ou fazendo tudo pela metade, o que gera diversos problemas. Quando planejamos, impedimos que isso aconteça, eliminando muitos erros decorrentes da pressa e da falta de atenção e dedicação corretas. O adiamento de decisões e ações cada vez que surge uma surpresa ou a oportunidade de gastar tempo com mais alguma coisa, acumula tarefas, dispersa a nossa atenção, esgota-nos, estressa-nos. O planejamento leva em conta as situações inesperadas, antecipando-nos a elas, aceitando correr riscos necessários, programando um tempo para resolvê-los de forma proativa. Uma ótima forma de fazer isso é sempre planejar algo com tempo sobrando. Isto é, se calculamos que uma programação dure em torno de cinco horas, podemos nos programar para seis ou mais, levando em conta que pode ocorrer algum imprevisto. Outra forma de enfrentar o inesperado é a organização e a pontualidade. Imprevistos sempre ocorrerão, mas na hora de trabalhar em cima deles, não se pode perder o foco da missão nem abrir mão das prioridades. Ao empreender algo, esteja certo de ter o conhecimento, as ferramentas, a capacidade e os recursos humanos necessários para realizá-lo. Começar a construir um edifício sem saber se de fato será possível levar a obra até o fim, desperdiça tempo, talento e esforços. Planeje sempre!


Invista tempo no que gosta
Filipenses 2:12-16

Nosso tempo é mais bem aproveitado quando o investimos naquilo que realmente gostamos e nos dá prazer. Fazer a obra do Senhor deve ser mais que uma obrigação ou um mandamento bíblico, mas algo que nos motiva, impulsiona, dá forças para viver. Quando fazemos algo que não gostamos, o tempo não anda; quando nos envolvemos em algo que não nos dá prazer, não ligamos para a falta de tempo, não planejamos. Por isso, antes de empreendermos qualquer ação, seja na vida acadêmica, profissional ou eclesiástica, é interessante que procuremos conhecer quais são os nossos talentos, que são as nossas aptidões naturais, e quais são os nossos dons espirituais, isto é, a capacitação especial que Deus nos dá para trabalhar na sua obra. Muito tempo e esforços são mal empregados quando estamos no lugar errado e fazendo a coisa errada. Quem não tem talento para lidar com crianças, não renderá no ministério infantil da Igreja e terá muitos problemas até se convencer disso. Quem não tem o dom de presidir, poderá até se esforçar em dar o seu melhor, mas não fará diferença como aquele que tem o dom e deixará de estar sendo aproveitado em outra área. Tanto na nossa vida dentro como fora da Igreja (no sentido de templo), não é errado procurar fazer aquilo que gostamos, que nos sentimos bem em realizar. A visão de que devemos servir na obra do Senhor em qualquer posição, independente de gostarmos ou não, é equivocada. Ele é sábio e distribuiu os dons de maneira perfeita, de modo que cada um faça a sua parte e a faça com amor e prazer. Na vida profissional, escolher uma profissão só porque é bastante rentável ou por uma cobrança da família só nos levará à frustração. Em qualquer esfera da existência humana existe um lugar para cada pessoa e cada pessoa deve estar no seu lugar, fazendo o que ama e amando o que faz.


Organize-se contra o estresse
1 Reis 20:25

O tempo bem administrado reduz a nossa taxa de estresse. Imaginemos alguém que vive correndo, atrasado para tudo, que esquece seus compromissos, que se mete em várias atividades quase que ao mesmo tempo. O seu grau de nervosismo e de estresse será altíssimo, diferente daquele que mantém uma agenda de compromissos bem organizada e sabe que não é onipresente, isto é, não pode estar em vários lugares ao mesmo tempo. É mentira dizer que crente não se estressa, que não passa por momentos de pressão onde pode até perder a cabeça, fazer e falar besteiras. Uma vida sedentária, desorganizada, sem boa alimentação, sem devocional, ativista e sem sabedoria estressa qualquer cristão. Quem se organiza não se estressa. É necessário manter tudo por escrito, o que precisa ser feito, pensado, falado, comprado, todas as informações concernentes ao ministério, às reuniões, às decisões tomadas, ao planejamento, tudo precisa estar escrito para facilitar a consulta no momento apropriado. Quando mais mantemos esses relatórios, menos tempo gastamos tentando nos lembrar de algo. Muitos podem confiar em suas memórias, mas devemos levar em conta que ela pode falhar, e se tudo estiver anotado, será muito fácil consultar e relembrar. Mas não basta organizar o tempo, é preciso organizar o ambiente. Um ambiente limpo e organizado poupa-nos tempo. Como dissemos com relação às pessoas, também afirmamos com relação as coisas: um lugar para cada coisa, cada coisa no seu lugar. Eleger um local apropriado para deixar objetos guardados nos livra do estresse de ter de procurá-los quando precisamos deles. A chave guardada sempre no mesmo local não se perde. Quando precisarmos dela, saberemos onde encontrar, poupando-nos um tempo desnecessário de busca. Quando mais nos organizados, menos nos estressamos e melhor nos saímos.


Administre o possível
Salmo 90:12

Para administrar bem o nosso tempo precisamos, também, eliminar as barreiras que nos impedem de ganhar tempo. Nosso ambiente de trabalho precisa estar sempre organizado, com tudo aquilo que vamos precisar usar ao alcance das nossas mãos. Antes de cada atividade, é importante estarmos com uma lista nas mãos com tudo que precisaremos não perder tempo precioso correndo atrás de algo esquecido. Quando falamos em administração do tempo, das nossas atividades, devemos estar certos que estamos falando das coisas possíveis e prováveis. Não podemos administrar o impossível e o improvável, pelo menos não antes de eles acontecerem. Sempre que planejamos é necessário contar com esses dois fatores e utilizar de muita criatividade quando eles surgirem. Há alguns anos eu trabalhava com teatro na Igreja. O irmão que faria um dos personagens em uma peça de natal, simplesmente desistiu de apresentar e tive de substituí-lo, sem tempo para ensaiar. Neste dia eu estava na sonoplastia e precisei de me desdobrar para representar e voltar para a mesa de som. Ser filhos de Deus e ter o poder do Espírito Santo em nós não significa que não teremos limitações nem encontraremos obstáculos. A vida do apóstolo Paulo foi repleta desses momentos que fogem ao nosso planejamento e que nos cobram medidas emergenciais. Embora soubesse que sofreria pelo Evangelho, provavelmente ele não sabia por antecipação cada uma das vezes que sofreu nas mãos de salteadores, dos patrícios, nos naufrágios, etc. Quando cada evento surgiu, Paulo precisou lidar com eles. O que vemos em seus escritos sobre isso é uma total dependência do Espírito Santo, a certeza de estar fazendo a vontade de Deus e a vontade de chegar até o fim da sua carreira tendo guardado a sua fé. Administremos o possível pela fé no Deus do impossível, porque tudo é dele.


Adapte-se à realidade dos outros
Hebreus 13:16

Na administração do tempo existem regras que se aplicam a todas as pessoas, independente da atividade que elas realizam. Todavia, precisamos adaptar estas regras à realidade de cada um, mesmo que isto signifique mudar algumas. Cada uma tem o seu jeito de trabalhar, de se autoadministrar, de aproveitar o seu tempo, pois sua vida pessoal difere da dos outros. Em um mesmo ambiente (trabalho, lar, igreja) podemos ter pessoas que apenas trabalham e pessoas trabalham e estudam; podemos ter pessoas com bastante tempo livre e pais e mães com a agenda cheia, mas todos trabalhando juntos. Não podemos ser ditadores, acharmos que todos devem administrar o tempo de igual modo, mas precisamos estar sensíveis à individualidade de cada um e adaptar esta administração às suas realidades. Adaptar-se a realidade dos outros não significa dar liberdade para faltas e atrasos injustificáveis. É preciso conhecer bem a realidade de cada um, suas necessidades, para saber como cada pessoa administrará seu tempo para o bom andamento de algo realizado em equipe. Devemos estar atentos para saber quando teremos de substituir uma pessoa que não pode participar de algo porque seus compromissos pessoais a impediram. É bom estarmos sempre sensíveis a tudo. Não se pode querer obrigar as pessoas a acertarem seu relógio com o nosso, mesmo porque a sua realidade difere da nossa. Mas é preciso remir o tempo, aproveitar cada segundo precioso que temos. Nada pode ser forçado. Precisamos nos motivar e estimular as pessoas a otimizarem o seu tempo, dando exemplo, mostrando o que elas têm a ganhar com isso, deixando claro a importância de se administrar o tempo para a obra do Senhor, em todas as áreas da nossa vida e para sua glória. Somos família, corpo, equipe, time. Não somos uma ilha nem o exército de um homem só. Somos interdependentes.

  
Eleja prioridades
Lucas 10:38-42

A forma mais eficaz e importante, na administração do tempo é o estabelecimento de prioridades. Existem várias maneiras de classificar essas prioridades, mas daremos aqui preferência a uma projeção de prioridades baseada em: indispensável, necessária, possível e supérflua. Convém lembrar que cada pessoa têm as suas próprias prioridades, de modo que cada um deve buscá-las e encaixá-las nessas projeções. Eleger prioridades ajuda a eliminar a perda de tempo e mantém o foco da missão. Manter os problemas e as ações numa ordem de prioridades nos ajuda a realizar todas as nossas tarefas no tempo certo e da forma correta. O primeiro vem sempre em primeiro lugar. Quando adiamos um problema de importância máxima em função de algo novo que surge, criamos uma bola de neve que poderá nos soterrar de preocupações maiores no outro dia. Isto é: com os problemas de amanhã para resolver, ainda teremos o que não resolvemos hoje. Certamente os de amanhã passarão para o outro dia e assim por diante. Talvez não tenhamos tanto tempo e oportunidades para tais prorrogações. As nossas prioridades serão sempre uma questão de valores: amamos e priorizamos aquilo que para nós tem importância. Muitas atividades corriqueiras do nosso dia a dia são empurradas com a barriga ou jogadas para debaixo do tapete, ficando para ser feito apenas aquilo que julgamos essencial. Mas esse julgamento é baseado em quê? Nem sempre o que para nós é importante tem de fato alguma importância. E de forma contrária: nem tudo aquilo que consideramos como menos importante o é de fato. Precisamos de sabedoria para avaliar de forma isenta e não tendenciosa. Às vezes o prioritário é o que não nos agrada no momento e que, se postergado, poderá agradar ainda menos no futuro. Logo, é interessante realizá-lo o quanto antes e partir para o seguinte.


A cadeia de prioridades
1 Reis 8:23

Antes de elegermos aquilo que é prioritário para nós, precisamos entender que a nossa prioridade máxima é o Reino de Deus (Mt 6:33). Todo o restante do nosso planejamento de vida deve estar alicerçado sobre os valores eternos deste Reino de justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14:17). Vamos, então, classificar nossas prioridades: a) indispensável: é aquilo que precisamos realizar com urgência e que se for protelado, poderá trazer consequências desastrosas. Um exemplo é a salvação da nossa alma (2 Co 6:2); b) necessária: uma prioridade necessária é importante, mas não tão urgente e pode ser adiada, mas não por muito tempo, pois pode vir a se tornar indispensável e, por passarmos tanto tempo não dando muita atenção a ela, pode não haver mais como solucioná-la; c) possível: as atividades possíveis podem ser adiadas indefinidamente, sem grandes consequências; normalmente são coisas que precisamos realizar, mas que não requerem tanta urgência. Mas elas podem com o tempo assumir uma posição de necessário logo evoluir para indispensável. Na verdade, o que determinará o tempo que adiaremos ou não uma prioridade é a sabedoria, o cuidado de realizar tudo seguindo as instruções da vontade de Deus; d) supérflua: a prioridade supérflua é aquela que realmente não faz falta e pode ser adiada indefinidamente, pois não influencia em grande coisa em qualquer área da nossa vida. Precisamos estar atentos às nossas prioridades para saber administrá-las com sabedoria. Muitos pecam por inverter a lista de prioridades e dar atenção demasiada àquilo que não é tão importante, deixando o que realmente importa para depois. A nossa prioridade em tudo deve ser a vontade de Deus, e isso envolve priorizar uma vida de oração e estudo da Palavra. Se Deus é prioridade na nossa vida, todo o restante fluirá perfeitamente.


Relação custo-benefício
1 Coríntios 10:31

Após o término de cada atividade, precisamos avaliar nossas atitudes e a maneira como empregamos o tempo. Quais foram os resultados? Eles satisfazem o planejado? Eles corresponderam às expectativas daquilo que era prioridade? Senão, o que ocorreu de errado e precisa ser mudado, transformado, aprimorado? Qual tem sido o nosso desempenho?  Que comportamentos precisam ser modificados para a melhora do nosso desempenho, o aumento da nossa produtividade e o alcance dos resultados esperados? Identificar os obstáculos interiores e exteriores é indispensável para a otimização do tempo e a realização de tarefas. O caminho de Deus é perfeito e a sua obra é santa, mas os caminhos do homem são maus e nem sempre o mundo acolherá as nossas ações. Muitos são os fatores que podem influenciar negativamente o nosso tempo, afastando-nos das nossas prioridades e precisamos identificá-los. O tempo gasto com burocracia, com discussões inúteis, com coisas supérfluas precisa ser otimizado. Segundo Mancini, citando Winston (2007. P. 29), a relação custo-benefício é essencial quando determinamos prioridades. Daí surge a pergunta: “O que eu ganho com isso?”. O uso do nosso tempo é, portanto, avaliado em termo de valor e retorno. Devemos nos perguntar que benefício existe por trás de cada investimento de tempo que fazemos, tanto para nós quanto para as pessoas ao nosso redor. Pode ser que não valha a pena o tempo investido em certas atividades. Como crentes, precisamos nos indagar sobre o custo/benefício o quanto uma atividade redundará em glória a Deus. Não é difícil avaliar o benefício de cada uma dessas ações. Elas podem ter um investimento alto de tempo, paciência, dinheiro, perseverança, lágrimas, esforço, mas os seus benefícios são muito maiores, e são eternos.


Tenha objetivos claros
Romanos 1:11

Ter objetivos claros e específicos contribui bastante para a boa administração do tempo. Quando desejamos realizar algo, precisamos estar certos do que queremos realizar antes de começar, caso contrário, ficaremos perdidos no meio do caminho e teremos de gastar tempo para acertar o rumo. Com metas e objetivos bem claros e audaciosos, todos os nossos esforços estarão empregados em sua implementação, sabendo já a direção certa a seguir. Algo que sempre toma muito tempo de nós são as distrações, aquelas coisas que encontramos tempo para fazer e que fogem completamente ao nosso objetivo, ao nosso planejamento inicial. É necessário fazer um uso eficiente do tempo, aplicá-lo da melhor maneira possível, sem desperdiçar qualquer precioso segundo. O tempo não retrocede, não paralisa, simplesmente avança implacável. O que perdemos hoje, não podemos recuperar depois, pois depois será um novo tempo, com uma nova realidade, talvez mais complicada. Quando deixamos algo para amanhã, ele se somará àquilo que deve ser feito amanhã, transformando-se em uma bola de neve. O apóstolo Paulo era alguém que podia nos aconselhar a respeito do uso do nosso tempo, porque ele soube aproveitar todas as oportunidades que surgiram, vivendo sempre em total dependência da direção do Espírito Santo, traçando metas sobre onde queria ir e o que desejava realizar (1 Co 4:19-21). Nem sempre alcançamos os nossos objetivos porque não traçamos metas específicas nem planejamos o percurso da ação. Se investirmos tempo em traçar metas específicas, não gastaremos tempo mais adiante tentando refazer o caminho, o que significa, muitas vezes, voltar ao ponto inicial e começar tudo de novo. Tendo a meta em vista, devemos nos ater a ela e a tudo aquilo que lhe for beneficiar, lembrando sempre que o que conta de verdade é a vontade de Deus para nós.


Delegue tarefas
Êxodo 18:13-27

Uma forma de saber administrar o tempo é não concentrar uma grande quantidade de tarefas em nossas mãos. É preciso delegar. Quando muitas pessoas estão envolvidas, cada uma em uma tarefa específica, há tempo para todas realizarem as suas obrigações dentro do prazo determinado. Quando uma pessoa se vê obrigada a cumprir várias atividades, ela não o faz com eficiência e sempre fica algo a desejar. Se alguém descobre que não é capaz de realizar tal tarefa ou que precisa de alguém que o ajude, os ajustes devem ser feitos para que não se perca tempo. Muitos pastores e outros líderes na Igreja pecam por concentrarem tudo em si, ficando sobrecarregados, quando poderiam delegar tarefas a outras pessoas capacitadas a realizá-las. Vemos dois exemplos na Bíblia de como é importante contar com os outros. O primeiro é o do sogro de Moisés, que percebe o quanto ele estava sobrecarregado na tarefa de atender às demandas que o povo lhe trazia. Além do tempo gasto sem sabedoria, isso também sobrecarregava o povo. Seguindo o conselho de Jetro, Moisés delegou a outras pessoas uma tarefa que ele tentava resolver sozinho, sem qualidade (Êx 18:13-27). O segundo exemplo é o da Igreja primitiva. Como aumentava o número de conversões, fez-se necessário escolher alguns irmãos para servirem às mesas e, assim, permitir aos apóstolos que se dedicassem a outras atividades (At 6:1-6). Se os apóstolos tivessem concentrado todo o poder em suas mãos, haveria uma 21grande perda de tempo e pessoas teriam sido prejudicadas. Seja liderando um ministério na Igreja, seja no ambiente profissional ou familiar, é importante que deleguemos tarefas, que não façamos nada sozinhos, mas procuremos contar com pessoas capazes para nos ajudar. Dessa forma, o tempo será mais bem aproveitado e muito mais tarefas serão realizadas e com mais qualidade.


Troque a pressa pela agilidade
Provérbios 21:5

Diz o adágio popular que a pressa é inimiga da perfeição. Estar apressado pode significar certa negligência e falta de planejamento e organização. Deus não é Deus de pressa, Ele não faz as coisas de qualquer jeito, mas tudo de um modo planejado e ordeiro, de maneira que todas as coisas aconteçam no seu devido tempo. Quando lemos na Bíblia sobre pressa, não encontramos aquela pressa irresponsável de quem deveria ter realizado uma tarefa num espaço de tempo estabelecido, acomodou-se e agora precisa correr. Na Bíblia, pressa tem a ver com ímpeto para fazer a vontade de Deus rapidamente (Êxodo 12:11), fugir estrategicamente (2 Samuel 15:14), pressa do Senhor em nos salvar (Salmo 70:1). Provérbios 21:5 afirma que “os planos do diligente tendem à abundância, mas a pressa excessiva, à pobreza”. Logo, o que precisamos para uma administração eficaz do nosso tempo é ter agilidade, planejar estrategicamente para fugir das armadilhas do imprevisto. Precisamos ser proativos, com rápido raciocínio, adaptando-nos às mudanças, aos meios e às situações, reagindo rapidamente ao inusitado. Quando deixamos de planejar, tornamo-nos presas fáceis das adversidades. Nosso tempo precisa ser otimizado, planejado de maneira a abrir a possibilidade de administrar bem os imprevistos, por piores que eles sejam. Para isso é preciso manter o equilíbrio, conhecer a nós mesmos profundamente, saber que somos falhos e que podemos nos apertar a qualquer momento, prevenindo-nos. Conhecer o meio em que vivemos e atuamos e compreender que ele pode trazer imprevistos e reconhecê-los imprevistos antes que aconteçam, também é de grande valia. Além disso, delegar atividades, colocar pessoas responsáveis por cada área, por cada situação ajuda-nos há amenizar um pouco os imprevistos e até mesmo evitá-los.


AUTOR:


Mizael de Souza Xavier, natural do Rio de Janeiro. Moro atualmente em São Paulo. Sou poeta, teólogo e escritor. Exerço o ministério pastoral na Igreja Cristão Nova Aliança do Senhor, em São Paulo/SP.

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terça-feira, 24 de julho de 2018

O JOIO E O TRIGO: PODEMOS OU NÃO PODEMOS JULGAR?




            Uma das grandes estratégias de Satanás na sua luta contra a verdade e a fé cristã, é contar com a tolerância que acabamos desenvolvendo às heresias que se infiltram na Igreja e certos movimentos que se dizem espirituais, mas que são uma vergonha e uma afronta ao Evangelho de Cristo. Para não sermos chatos ou taxados de arrogantes e donos da verdade, acabamos permitindo que essas coisas façam parte da comunidade, influenciando nossa teologia e nossa prática. Em nome da “liberdade do Espírito”, aceitamos que indivíduos preguem blasfêmias contra Deus e a sua Palavra, que utilizem o púlpito para profetizar o que o Senhor não mandou profetizar, determinar bênçãos que Ele não prometeu e revelar coisas que Ele não revelou. Felizmente, as igrejas que praticam um cristianismo sério e comprometido com a verdade não abrem as suas portas nem entregam o microfone para esse tipo de pessoas. Entretanto, ainda que de forma dissimulada, elas insistem em penetrar entre os fiéis, apregoando mentiras, causando divisões e discórdias. Às vezes, numa simples discussão pela cor da farda do coral das senhoras já se pode perceber a atuação do inimigo com o intuito de desestruturar o grupo e dissipá-lo. Uma fofoca na esquina sobre um problema pessoa do irmão, pode desencadear um problema de grandes proporções.
            Além disso, existe o cuidado para não machucar, magoar ou afastar a ovelha da comunhão com os irmãos. Então, esconde-se a sujeira debaixo do tapete, esperando que ela permaneça lá sem causar nenhum problema. Essa tolerância é destruidora, acima de tudo quando falamos numa batalha em que o inimigo ataca sem piedade. O diabo não cultiva nenhum tipo de emoção positiva pelas pessoas, mas tão somente deseja destruí-las. Ele não se importa em espalhar a discórdia, separar casais, destruir famílias, levar pastores ao suicídio, esvaziar templos. Satanás não possui nenhuma tolerância pelo bem; ele só deseja o mal. Por isso a Bíblia, especialmente o Novo Testamento, trata de maneira radical esta situação, exigindo a exclusão de tais indivíduos da comunhão da comunidade cristã. Havia uma razão para Deus não permitir que o povo de Israel se contaminasse com as outras nações. O resultado da desobediência a esta regra, trouxe toda sorte de pecados para o meio do povo, incluindo a idolatria tão abominável. O livro de Juízes retrata muito bem isso, como, por exemplo, em 3:7: “Os filhos de Israel fizeram o que era mau perante o Senhor e se esqueceram do Senhor, seu Deus; e renderam culto aos baalins e ao poste-ídolo”.
            A contaminação da Igreja não é combatida apenas no seu envolvimento com as coisas do mundo (1 Jo 2:15,16; Rm 12:2; Tg 1:27; Ef 2:1-3; 1 Co 6:18-20). Ela também é um cuidado constante com as impurezas que se apresentam em sua própria estrutura. O apóstolo Paulo não apresenta a mesma tolerância da Igreja moderna. Ele entendia as consequências de se permitir que pessoas com intenções malignas permanecessem no meio dos santos. Um exemplo está na sua primeira carta aos crentes de Corinto, onde ele reprova diversas atitudes carnais daqueles irmãos que, apesar dos seus dons espirituais, viviam na imoralidade, ao ponto de haver quem se atrevesse a possuir a mulher do seu próprio pai (5:1). A orientação dada pelo apóstolo é que fosse retirado do meio da comunhão da igreja aquele que estava praticando tal pecado (vs. 2-5). Ele escreve: “Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento leveda toda a massa?” (v. 6). O velho fermento precisa ser lançado fora! Ele escreve, ainda: “Já em carta vos escrevi que não vos associeis com os impuros; refiro-me, com isto, não propriamente aos impuros deste mundo, ou aos avarentos, ou roubadores, ou idólatras; pois neste caso, teríeis de sair do mundo. Mas agora vos escrevo que não vos associeis com alguém que, dizendo-se irmão, for impuro, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal, nem sequer comais” (vs. 11,12).


As sete Igrejas e os falsos ensinos

            Está claro que a associação de que Paulo fala é para praticar as mesmas coisas. Todavia, ao invés de disciplinar essas pessoas e excluí-las da Igreja, tendemos a tolerá-las, deixando-nos levar por seus pecados e permitindo que as suas práticas infames influenciem o ambiente da comunidade. Outra coisa que fica bastante clara nesse texto, é que tais pessoas não são irmãos verdadeiros, mas “se dizem irmãos”. Os seus frutos demonstram totalmente o contrário. Escrevendo a Tito, Paulo também o exorta a respeito de pessoas desse tipo que estavam infiltradas na Igreja (Tt 1:10-16). O contexto desta exortação parte das qualificações dos ministros que, entre outras coisas, deveria se apegar à palavra fiel, “que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem” (v. 9). Ao denunciar o caráter desses falsos mestres (vs. 10,16), suas ações e sua hipocrisia (v. 16), o seu péssimo testemunho no mundo (vs. 12,13), Paulo deixa claro que o objetivo deles é enganar as pessoas por meio de ensinos errados, movidos por sua ganância. Esses indivíduos demonstravam uma imensa incoerência entre a fé que professavam e a sua prática de vida, o que os tornava abomináveis, desobedientes e reprovados para toda boa obra (v. 16).
            A solução de Deus para essas pessoas não é a tolerância. Paulo afirma: “É preciso fazê-los calar” (v. 11). As suas doutrinas não devem ser ouvidas, seus ensinamentos não devem ser permitidos, mas é necessário repreendê-los severamente, para que sejam sadios na fé (v. 13). Ele exorta mais adiante: “Evita o homem faccioso, depois de admoestá-lo primeira e segunda vez” (3:10). Por trás dessas práticas carnais e dos falsos ensinos, como já aprendemos, está a influência de Satanás. Quando não infiltra seus soldados no meio da Igreja, utiliza seus próprios membros para espalhar a destruição. Esses membros são os crentes carnais, que não se firmam na fé e também não procuram aprender a verdade para obedecê-la. Atualmente, muitos ensinos e práticas contrários à Palavra de Deus têm sido aprendidos na Internet e reproduzidos no meio da Igreja. A liderança não pode ser permissiva, mas deve tratar com seriedade esta situação, porque um pouco de fermento pode levedar realmente toda a massa.
            A forma correta de agir é por meio do discipulado, do ensino e da aplicação correta da disciplina, com o intuito de preservar a unidade e a santidade dos membros da Igreja. Esses três elementos juntos – discipulado, ensino e disciplina – fornecem aos membros do corpo a edificação necessária para crescerem saudáveis, conduzindo-os à obediência a Cristo. Para aqueles que andam de forma desordenada, tanto em questões de comportamento como de doutrina, a disciplina é importante para corrigir suas ações e trazê-los de volta à verdade evangélica. O Novo Testamento deixa bastante clara a aplicação da disciplina na Igreja (Mt 16:19; 18:18; Jo 20:23; 1 Co 5:2,7,13; 2 Co 2:5-7). A ideia primária da disciplina é fazer com que o insubordinado se arrependa e seja liberto (2 Ts 3:14,15; Tt 3:10). Embora a cura seja o ideal, haverá casos em que ela não surtirá nenhum efeito, principalmente quando estivermos lindando com um falso crente. Após um processo de exortações e admoestações, caso o indivíduo insistir em suas práticas, a sua exclusão da comunhão com a Igreja deve ser aplicada (Mt 18:17; 1 Co 5:13; Tt 1:10,11; 3:10; 1 Tm 1:20). O objetivo da excomunhão nos casos descritos na Bíblia, é para que o pecado irresoluto ou os falsos ensinos não contaminem o restante do corpo. Se essa excomunhão não for devidamente aplicada, corre-se o risco de uma infecção generalizada, que poderá fazer desviar os membros que estavam sadios. Este é o objetivo de Satanás.
            Uma Igreja doente não prega o Evangelho, não ora, não ensina a Palavra de Deus, não influencia o mundo com a luz e o sal de Cristo, não pratica as boas obras, não busca o Reino dos céus, não anseia pela volta de Jesus. Tal Igreja assemelha-se à igreja de Sardes, para a qual o Senhor escreveu: “Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives e estás morto. Sê vigilante e consolida o resto que estava para morrer, porque não tenho achado íntegras as tuas obras na presença do meu Deus” (Ap 3:1,2). A solução para o problema daquela igreja era lembrar-se do que recebera e ouvira, guardá-lo e arrepender-se. Isto é: relembrando e praticando a doutrina correta, aquela igreja voltaria ao seu estado original de santidade. As outras igrejas descritas no Apocalipse enfrentavam seus próprios problemas, e muitos envolviam questões de desvio moral e desvio doutrinário. A igreja de Éfeso estava numa luta constante contra os falsos apóstolos, homens mentirosos que se infiltraram na comunidade, embora eles mesmos tivessem abandonado seu primeiro amor (2:1-7). A igreja de Esmirna enfrentava a influência de alguns que se declaravam judeus, mas que eram, na verdade, da sinagoga de Satanás, o que mostra a ação do inimigo na igreja por meio de pessoas (2:8-11).
            A igreja de Pérgamo, apesar de não ter negado a fé mesmo diante da idolatria daquela cidade (2:13), tolerava alguns indivíduos que sustentavam duas doutrinas heréticas; a de Balaão e a dos nicolaítas (vs. 14,15). Vemos na igreja de Tiatira uma tolerância declarada pelo próprio Senhor (2:18-29). Aquela igreja possuía muitos pontos positivos: obras, amor, fé, serviço, perseverança e um progresso visível, porque as suas últimas obras eram mais numerosas que as primeiras (v. 19). Todavia, o Senhor afirma: “Tenho, porém, contra ti o tolerares que essa mulher, Jezabel, que a si mesma se declara profetisa, não somente ensine, mas ainda seduza os meus servos a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos” (v. 20). Este fato apenas confirma aquilo que dissemos no decorrer deste estudo: o ataque do inimigo é contra a verdade; ele introduz ensinos mentirosos nas igrejas para desviar os crentes da sã doutrina e levá-los a pecar. Quantos profetas e profetisas hoje estão espalhados pelas igrejas, pregando e ensinando mentiras, trazendo novas revelações e doutrinas de demônios, sendo tolerados e reverenciados por quem não suporta a verdade. No v. 24 fica bastante claro que o ensino e as ações daquela Jezabel estavam diretamente ligados a Satanás.
            A igreja da Filadélfia parece ter sido a única que de fato guardou a Palavra do Senhor (3:7-13). Percebe-se como estar certo ou errado, em santidade ou em pecado, no caminho certo ou no caminho errado, firme na fé ou desviado, do lado de Deus ou do lado de Satanás está sempre ligado a pregar e viver a verdade. Apesar de a igreja em Filadélfia ter pouca força, ela guardava a Palavra do Senhor e não negava o seu Nome (vs. 8,10). Ali também havia a influência de indivíduos da sinagoga de Satanás, que se declaravam judeus, mas mentiam; entretanto, aqueles irmãos permaneciam firmes na verdade que lhes fora revelada. A igreja de Laodicéia (3:14-22) é contada como uma igreja morna, capaz de fazer o Senhor vomitar (vs. 15,16). Aquela era uma das cidades mais ricas da Ásia Menor. A riqueza daquela igreja levou-a à soberba, a crer que já possuía tudo, quando não possuía nada (v. 17). O Senhor convida aqueles irmãos a valorizarem o que de fato importava: as riquezas espirituais e celestiais capazes de lhes devolver a visão (v. 18). Nos dias de hoje, vemos muitas igrejas, acima de tudo as neopentecostais, pregarem a conquista de bens e riquezas materiais, esquecendo-se das celestiais. Elas transformam a fé num instrumento de barganha com Deus, reduzindo a espiritualidade cristã a uma busca constante por felicidade e prosperidade neste mundo. Jesus está batendo à porta dessas igrejas, querendo transformar vidas que ali estão enganadas por Satanás e pelo seu próprio desejo ganancioso. Ele deseja transformar o culto a si mesmo num culto verdadeiro a Deus.


O joio e trigo: não devemos julgar?

            O desenvolvimento dessa tolerância cega e destruidora pode estar ligado à falta de compreensão de dois textos bíblicos. O primeiro é a parábola do joio e do trigo, em Mateus 13:24-30. O segundo é o ensino de Jesus a respeito do julgamento: “Não julgueis, para que não sejais julgados” (Mt 7:1). Com base nestes dois textos, têm-se o seguinte pensamento: “Os falsos crentes sempre existirão a Igreja, e não cabe a nós julgarmos quem são os falsos e os verdadeiros, mas a Deus. Somente no dia do Grande Julgamento é que poderemos saber quem é o joio e quem é o trigo”. Essa afirmação, entretanto, parte de uma visão limitada e distorcida da Bíblia, que não leva em conta o ensino geral das Escrituras, onde muitos textos, como já vimos, nos ensinarão a identificar os falsos irmãos, a discipliná-los e, se for o caso, excluí-los da comunhão da Igreja. Como se diz no jargão teológico: texto fora do contexto é um pretexto para a heresia. E é este o desejo de Satanás: destruir a fé cristã por meio das heresias e da tolerância irracional aos falsos ensinos.
É necessário afirmar que os falsos crentes não são apenas pessoas que na igreja são uma benção e fora dela vivem uma vida de pecado. Alguns são ainda mais perigosos, porque influenciam o restante dos irmãos com o seu pecado e com suas falsas doutrinas. Logo, não se trata simplesmente de não julgar o coração dos irmãos, algo que de fato pertence somente a Deus, mas de observar as suas obras e perceber o que eles são de fato. A árvore dá-se a conhecer pelos seus frutos (Lc 6:43-45). A pergunta que deve ser feita é: ao identificarmos um falso irmão pelas suas atitudes e ensinamentos, devemos deixar que ele permaneça livremente no meio da igreja até que o Senhor venha e separe o joio do trigo ou devemos exercer a disciplina e praticar a excomunhão? Já aprendemos até aqui que a disciplina bíblica deve ser aplicada e, nos devidos casos, efetuada a exclusão do membro. Então, resta-nos entender a verdade por trás dos textos referentes ao joio e ao trigo e ao julgamento.
Em primeiro lugar, a parábola de Jesus não está se referindo à exclusão de membros da Igreja, mas ao entendimento que somente Deus pode ter a respeito daqueles que de fato lhe pertencem. Muitos passarão a vida inteira na Igreja, exercerão ministérios, farão grandes obras, mas no final das contas não irão para o céu, porque não faziam parte do rebanho do Senhor e não eram convertidos verdadeiramente. Essas pessoas podem ser exemplos de integridade de caráter entre os santos, mas ainda assim não eram crentes nem santos no sentido bíblico do termo. O Senhor conhece os que lhe pertencem (2 Tm 2:20). Muitos, naquele dia, comparecerão diante dele declarando as suas obras (Mt 7:22), mas o Senhor lhes dirá: “Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade” (v. 23), pois “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (v. 21). Muitos estão na igreja e não foram até Jesus, porque Deus não os enviou. Muitos são chamados, mas poucos os escolhidos (Mt 22:14). Somente aqueles que Deus leva até Jesus são verdadeiramente convertidos e serão ressuscitados no último dia (Jo 8:44; 6:65). Como saber quem são estes? Como julgar quem foi convertido e quem apenas se convenceu de que faz parte do Reino sem jamais ter sido? Este entendimento pertence somente a Deus. Somente Ele sabe quem são os seus escolhidos.
Entretanto, se não podemos identificar o joio no meio do trigo, o joio pode ser bastante sincero consigo mesmo e se autodescobrir como tal. Embora isso não seja toda a questão, mas é parte dela: o que nos motivou a aceitar a Jesus e frequentar uma igreja? A conversão genuína ocorre quando o pecador é regenerado pelo Espírito Santo, que lhe dá a fé necessária para aceitar a verdade do Evangelho, reconhecendo-se pecador e carente de salvação. Através da mediação da Palavra de Deus, o Espírito convence o perdido do seu pecado e o conduz, por meio da graça, a uma nova vida pela fé em Jesus Cristo. Em suma, a conversão é uma resposta positiva do pecador, estimulado pelo Espírito Santo, ao chamado de Deus. Sendo convertido, ele passa a fazer parte do corpo de Cristo, que é a Igreja, transformando-se em cidadão do céu. Como têm sido os apelos à conversão nas igrejas atuais? Eles são, na verdade, um chamado para a resolução de problemas pessoais por meio da fé, prometendo ao pecador-sofredor que, ao aceitar a Jesus, terá todos os seus problemas resolvidos e gozará de uma vida próspera e feliz. Estando já na igreja, toda a sua vida girará em torno disso: conquistar as bênçãos divinas. Isto não é conversão. Isto é ser joio.
            Então chegamos à conclusão de que devemos, sim, julgar todas as coisas. As coisas não existem por si só, mas há uma motivação por trás da sua existência, uma intenção que fez com que elas viessem a existir. Para reter o que é bom, precisamos avaliar e julgar o que não é. O texto “julgai todas as coisas, retende o que é bom” (1 Ts 5:21), está ligado a outros dois versículos: “Não desprezeis as profecias” (v. 20) e “abstende-vos de toda forma de mal” (v. 22). Isto significa que nem tudo que ouvimos na Igreja é necessariamente bom, por isso tudo deve ser julgado para que possamos nos abster do mal. Se não julgássemos os profetas e as suas profecias, incorreríamos em grave erro e correríamos o risco de tolerar heresias sem discerni-las (1 Co 14:29-40). Se alguém traz deliberadamente um falso ensino, o seu caráter já está manifesto. As suas próprias obras o denunciam. Escrevendo a Tito, Paulo diz que o homem faccioso deve ser “evitado” (Tt 3:10). Como evitá-lo sem julgá-lo faccioso? E como julgá-lo? Observando as suas atitudes que causam a facção, que está ligada aos ensinos mentirosos, às heresias que dividem a Igreja. Somente por meio da observação é possível conhecermos a verdadeira natureza das pessoas (Lc 19:22; Jo 8:9-11).
É preciso avaliar tudo que chega aos nossos olhos e aos nossos ouvidos, as motivações por trás das ações, o que inclui comportamentos e palavras, de acordo com a Palavra de Deus. A obediência aos nossos guias recomendada em Hebreus 13:17, por exemplo, não é cega. Mas a própria Palavra coloca parâmetros para o caráter desses guias: eles velam pela nossa alma. Se devemos avaliá-los antes de dar-lhes a liderança da Igreja, como prescreveu o apóstolo Paulo para a escolha dos diáconos e dos bispos (At 6:1-7; 1 Tm 3:1-13), porque não o continuaremos fazendo quando já estiverem nela? Como identificaremos os obreiros fraudulentos sem submetê-los a um julgamento? Somente observando as ações de certas pessoas nas igrejas, o apóstolo Paulo poderia emitir o seguinte julgamento: “Porque os tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo” (2 Co 11:13). Estaria Paulo “julgando mal” os seus irmãos? O apóstolo Pedro, em sua segunda epístola, capítulo segundo, descreve os pormenores do caráter dos falsos mestres, como também denuncia as suas obras e profere contra eles um juízo. Ao pensar em escrever a respeito da nossa comum salvação, Judas se viu obrigado a exortar os irmãos a batalharem pela fé evangélica, visto que muitos falsos mestres haviam se infiltrado na Igreja para destruí-la. Ele cita algumas das suas características: “Os tais são murmuradores, são descontentes, andando segundo as suas paixões. A sua boca vive propalando grandes arrogâncias; são aduladores dos outros, por motivos interesseiros” (v. 16). Imaginemos um desses falsos irmãos perguntando a Judas: “Quem é você para me julgar?”.
Como pudemos ver, Judas, além de denunciar as obras daqueles falsos irmãos, indicou a sua motivação interior: “motivos interesseiros”. Como ele chegou a esta conclusão? Com certeza porque aquelas pessoas murmuravam, viviam descontentes, andavam segundo as suas paixões, eram arrogantes e adulavam os outros para suprir seus próprios interesses. Não podemos julgar os motivos do coração, algo que pertence somente a Deus, mas as práticas, estas sim podemos julgar. E esses motivos do coração se deixam transparecer na prática de vida, porque se a boca fala do que o coração está cheio (Mt 12:34), as atitudes também. Jesus conhecia o coração dos fariseus, mas denunciou o seu pecado pela observação das suas obras (Mt 23:1-12). O apóstolo Paulo, escrevendo aos crentes de Roma, falou a respeito dos judeus que se gloriavam na Lei, mas que possuíam práticas totalmente contrárias àquelas que eles mesmos ensinavam (Rm 2:17-24). E que motivo pode haver em um coração de conhecer a verdade e praticar o contrário? Esse tipo de julgamento além de não ser incorreto, é necessário para manter a Igreja sadia e livre de influências carnais e malignas.
Então quando não devemos julgar? O que a Palavra de Deus condena é o julgamento temerário, que é aquele em que criamos critérios para os outros e nós mesmos não obedecemos. Foi o que Jesus quis dizer ao ensinar: “Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois, com o critério com que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também” (Mt 7:1,2). Como já vimos, os judeus são por diversas vezes advertidos no Novo Testamento por sua religiosidade hipócrita: ensinavam e cobravam o que eles mesmos não praticavam, usando dois pesos e duas medidas. Não podemos julgar as atitudes de alguém quando nós mesmos praticamos o que reprovamos. Para nos tornarmos aptos a “tirar o argueiro” do olho do irmão, é preciso que primeiro tiremos o do nosso, isto é, que estejamos seguros de estar acertando onde acusamos o irmão de estar errando. Por exemplo: se mentimos, como vamos julgar quem mente? Se murmuramos, como julgaremos quem murmura? Além disso, o que está em vista é entendermos que podemos não pecar na área em que o irmão peca, mas pecamos em outra. Logo, ao julgar alguém, devemos estar cientes de que também erramos, por isso não podemos usar o pecado dos outros para nos sentir bem com nós mesmos ou minimizar nossos próprios pecados. Se não formos capazes de julgar da maneira correta, não poderemos cumprir o que Jesus nos ensinou após falar sobre o julgamento: “Não deis aos cães o que é santo, nem lancei ante os porcos as vossas pérolas, para que não a pisem com os pés e, voltando-se, vos dilacerem” (Mt 7:6). Sem julgar, como identificaremos os cães e os porcos? E quando os identificarmos, não estaremos pecando os considerando como tais.
Em suma, é preciso haver um constante julgamento entre os irmãos, não segundo a ideia que cada um tem do que é certo ou errado, mas segundo a reta justiça (Jo 7:24). O que deve fundamentar nossos critérios de avaliação é a Palavra de Deus. Neste processo, é importante o desenvolvimento de algumas virtudes que nos ajudarão a santificar as nossas relações e a fortalecer a nossa fé, protegendo-a contra as influências malignas do diabo e dos seus servos infiltrados no nosso meio. Escrevendo aos colossenses, Paulo recomenda que eles se revistam de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão e de longanimidade, suportando e perdoando uns aos outros, estando alicerçados sobre o amor (Cl 3:12-14). O que deveria reger as ações daqueles irmãos era a paz de Cristo (v. 15). Por meio dessa paz, estamos prontos para praticar o que é certo e julgar retamente aqueles que agem de forma contrária a essas virtudes. Em todas essas coisas, a justiça presente na Palavra de Deus deve ser a base das nossas ações: “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instrui-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão em vosso coração” (v. 16). E todas estas coisas devem visar tão somente a glória de Deus, dando a Ele graças por tudo (v. 17; cf. 1 Co 10:31-33)


OBSERVAÇÃO:

Este estudo é parte integrante do livro “Batalha Espiritual: uma luta em defesa da verdade”, de minha autoria, ainda a publicar.

AUTOR:

Mizael de Souza Xavier, natural do Rio de Janeiro. Moro atualmente em São Paulo. Sou poeta, teólogo e escritor. Exerço o ministério pastoral na Igreja Cristão Nova Aliança do Senhor, em São Paulo/SP.

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segunda-feira, 16 de julho de 2018

A IGREJA É UM HOSPITAL?




“Porque de Deus somos cooperadores; lavoura de Deus, edifício de Deus sois vós” (1 Co 3:9).

A Bíblia utiliza diversas expressões e figuras para se referir à Igreja do Senhor Jesus, como, por exemplo: assembleia, corpo de Cristo, noiva do Cordeiro, entre outros. O crente é chamado de filho de Deus, filho da luz, templo do Espírito Santo, membro do corpo de Cristo, servo, obreiro, apenas para citar alguns. Em lugar algum das Escrituras a Igreja é comparada a um hospital ou o crente a um doente em tratamento terapêutico. A Igreja não pode ser um hospital nem o crente um paciente por um motivo óbvio: quem faz parte da Igreja já está curado, não precisa de terapia intensiva, porque Jesus já levou sobre si todas as suas dores, isto é, pecados, como vemos em Isaías 53. Se temos problemas, doenças e outros tipos de perturbações, não estamos na Igreja para sermos curados dessas coisas, pois isso significaria que, após a cura, poderíamos ter alta e sair da Igreja. Na verdade é o que muitos fazem: eles buscam a Deus adoecidos dos seus problemas e sonhos; quando recebem a cura, isto é, a vitória, voltam para suas vidas sem Deus até o próximo acidente ou doença. O Senhor Jesus disse que somente os doentes precisam de médico (Mt 9:12). Ele é a cura! Hospital não é lugar de gente curada, mas de gente doente. Se buscamos na Igreja um hospital, estamos no lugar errado. Se existe alguém fraco ou doente na Igreja, como havia na igreja de Corinto (cf. 1 Co 11:30), o caminho é o arrependimento.

Existem duas imagens que demonstram o que a Igreja é e que hoje não se assemelham ao tipo de reunião que temos visto por aí. Em primeiro lugar, a Igreja é uma família onde todos são irmãos, possuem um só Senhor, uma só fé, um só batismo e um só Deus (Ef 4:5,6). Eles comungam das mesmas bênçãos, compartilham do mesmo amor e devem cuidar uns dos outros. Paulo escreveu aos Efésios que somos da família de Deus (2:19). Se a Igreja é um hospital e Deus é o médico, Ele trata de cada um individualmente. Mas se a Igreja é uma família, Deus cuida de todos comunitariamente. Um irmão é usado para ajudar os outros, sendo ele mesmo ajudado por eles. A Igreja não cura um membro, ela cura a si mesma, porque um membro não é contado como um doente que vai embora e que não tem comunhão com o hospital, mas como parte integrante da família. Se ele sofre, todos os outros membros sofrem com ele. Paulo escreveu aos Coríntios que a Igreja é um corpo coordenado por Deus “para que não haja divisão no corpo; pelo contrário, cooperem os membros, com igual cuidado, em favor uns dos outros. De maneira que, se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, e um deles é honrado, com ele todos se regozijam” (1 Co 12:24-26). Devemos, então levar as cargas uns dos outros (Gl 6:2), alegrar-nos com os que se alegram e chorar com os que choram (Rm 12:15), ofertar com amor e liberalidade, pedir e ofertar perdão; corrigir, ensinar e disciplinar; servir uns aos outros (Gl 5:13), confessar os nossos pecados uns aos outros e orar uns pelos outros (Tg 5:16), amar incondicionalmente uns aos outros (Jo 15:12), evitar contendas e divisões (1 Co 12:25), ser hospitaleiros (1 Pe 4:9), ministrar os dons e serviços, praticar a misericórdia e a humildade, entre tantas outras ações que nos identificam como verdadeiros discípulos de Jesus. Isto é ser Igreja, isto é ser família, isto é ser cristão. Na família do Senhor, um membro não deixa o corpo quando recebe a cura, mas permanece nele, porque fora do corpo, morre. No hospital, os profissionais saudáveis e conhecedores das artes médicas tratam de pessoas sem saúde. Na Igreja somos todos iguais: somos médicos e pacientes ao mesmo tempo. Cuidamos e somos cuidados. Somos pecadores curados que ainda manifestam alguns sintomas da Queda de Adão, mas que não estão mais adoecidos pelo pecado.


A visão de hospital surge e se afirma quando olhamos para uma igreja em que os seus membros estão doentes, sofrendo toda sorte de perturbações emocionais e espirituais. O que comumente se chama de “cura”, podemos, na verdade, chamar de “restauração” ou “santificação” diária. O que são as enfermidades espirituais que trazemos a este ambiente que chamamos de hospital? Se fôssemos compreender a partir da Palavra de Deus, a Bíblia, veríamos que as nossas enfermidades espirituais se resumem em uma coisa: pecado. Lemos no livro das Lamentações de Jeremias: "De que se queixa, pois, o homem vivente? Queixe-se cada um dos seus pecados. Esquadrinhemos os nossos caminhos, e provemo-los, e voltemos para o Senhor. Levantemos os nossos corações com as mãos para Deus nos céus, dizendo: Nós transgredimos, e fomos rebeldes; por isso tu não perdoaste" (Lm 3:39-42). A vida do rei Davi, seu pecado, suas dores físicas e emocionais tinham um único motivo: o seu próprio pecado (por exemplo, o Sl 51). Durante a nossa vida, sofremos traumas, carregamos complexos e enfermidades que poderiam ser resolvidas por meio do arrependimento e da confissão de pecados. De repente, não é um pecado que nós cometemos, mas que cometeram contra nós, como o abuso sexual, por exemplo. Daí entra o perdão, esquecer o passado, caminhar no presente rumo ao futuro. As enfermidades físicas nós resolvemos no médico ou Deus pode operar de maneira sobrenatural a cura. Mas para as doenças espirituais, de onde provêm muitas doenças emocionais, a grande maioria, o remédio não é milagre, não é unção, não é culto, não é missa, não é oração, não é campanha disso ou daquilo. O remédio é: arrependimento, confissão e abandono do pecado. 

Meditemos e respondamos a esta questão: A Igreja evangélica como a vemos hoje, com indivíduos que buscam a Deus apenas por causa das suas bênçãos, com tantas brigas, divisões e escândalos, assemelha-se a uma família? Pode ser que alguém diga: Ora, mas em todas as famílias há problemas. Então respondamos a outra questão: É isso que Deus quer? Não devemos nos espelhar no modelo de família do mundo para definir o que é ser Igreja, mas naquilo que a Bíblia diz sobre o que é e como é ser Igreja. O que impera na Igreja é a interdependência, a solidariedade, a comunhão, o “uns aos outros”, a partilha, a empatia entre os seus membros. Qualquer modelo de ajuntamento que não se assemelhe a uma família cheia de amor, não é uma Igreja. Na família de Deus, os membros têm tudo em comum. Eles são apenas um em Cristo.

Outra imagem que a Bíblia utiliza a respeito da Igreja e que escapa ao conhecimento da grande maioria dos cristãos, é que ela é um exército, Deus é o general e nós somos os seus soldados. Isto destrói ainda mais a visão de um hospital. Num hospital, vamos para receber; num batalhão, entramos para dar! A grande maioria das pessoas que se intitulam “crentes”, vive uma fé totalmente passiva. Elas estão na Igreja sentadas, salvas e satisfeitas, quando deveriam ser salvas, santas e servas. Algumas nem acreditam que são salvas! Quando vão ao culto, afirmam que estão indo “receber algo da parte do Senhor”. Talvez não se recordem das palavras do Senhor Jesus que o apóstolo Paulo jamais esquecia: “Mais bem-aventurado é dar que receber” (At 20:35). Se pararmos para prestar atenção, todos os mandamentos da Bíblia expressam uma ação, algo que devemos fazer e que nos coloca em movimento. Não fomos chamados para ficarmos como aquelas aves que acabaram de nascer e esperam de boca aberta que sua mãe às alimente. Toda a fé cristã se baseia em coisas que devemos fazer porque já recebemos bênçãos espirituais da parte de Deus. Somos conduzidos aos verbos amar, orar, perdoar, pregar, ensinar, resistir, evangelizar, batalhar, suportar, ofertar, levar, deixar, abandonar, falar, ouvir, entre tantos outros verbos que indicam que estamos em movimento, que fomos salvos para as boas obras (Ef 2:8-10), para dar frutos (Jo 15:8), para salgar e iluminar (Mt 5:13-16), para lutar como soldados numa guerra. Quem acha que ser crente é frequentar uma denominação evangélica, cumprir alguns preceitos religiosos, praticar certos rituais, orar para receber algo de Deus, cantar alguns louvores e depois ir para casa, ainda não entendeu quem é Jesus, muito menos o que significa pertencer a Ele.

Voltando para a imagem da Igreja como um exército e do crente como um soldado, fomos salvos para produzir algo para o Reino de Deus, para guerrearmos numa batalha que já foi vencida pelo Senhor na cruz, mas que faz parte do nosso cotidiano como seus soldados. O nosso campo de guerra se divide em três frentes de batalha: a carne, o mundo e o diabo. Ao estimular Timóteo no combate pela fé, Paulo diz: “Participa dos meus sofrimentos como bom soldado de Cristo” (2 Tm 2:3). A nossa luta é contra o pecado que faz guerra dentro de nós, mortificando diariamente a carne para submetê-la ao Espírito. Nesta guerra, na verdade, não é a carne que luta contra si própria, mas o Espírito que luta contra ela para mortificá-la (Gl 5:17; Rm 8:13). Paulo esmurrava o seu próprio corpo para não ser desqualificado (1 Co 9:27). Também lutamos contra o mundo e os seus valores geradores de morte, contra a sedução dos seus prazeres e riquezas, contra este inimigo de Deus que tenta nos tragar (Tg 4:4). Ainda travamos uma batalha contra os principados e potestades, contra o nosso grande inimigo e adversário, que é Satanás (Ef 6:12). Lutamos vitoriosos em Cristo para resistir às suas investidas diabólicas que existem para roubar, matar e destruir (Jo 10:10). Lutamos, também, pela verdade do Evangelho contra as mentiras do diabo, contra as heresias dos falsos mestres e dos falsos profetas. Lutamos para defender a verdade evangélica que nos foi entregue pelo Senhor Jesus. Judas escreveu em sua epístola: “Amados, quando empregava toda diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). Quantas músicas nós temos escutado nas mídias com esse tema? Quantos sermões têm sido pregados sobre a defesa da fé?

Meditemos e respondamos a estas perguntas: Nós nos reconhecemos como soldados de Cristo no campo de batalha ou negamos a existência desta guerra e nos acomodamos a uma fé sem sal e sem luz? Uma das grandes gírias evangélicas é chamar o irmão ou a irmã de “vaso”. Quando se fala assim, está-se querendo afirmar que o irmão ou a irmã são “vasos de honra usados por Deus ou que Deus deseja usar”. Mas usar para quê? Qual a finalidade?

Não quero terminar este breve estudo com certezas prontas, mas lançando muitas dúvidas na sua mente. São as dúvidas que nos levam a estudar ainda mais para alcançarmos as certezas. Então, leia e estude a Bíblia. Pergunte-se a respeito de si mesmo se você é um eterno paciente deitado num leito de hospital, recebendo medicamentos e cuidados, com uma fé praticamente em coma, que não o deixa sair para viver a sua vida cristã lá fora, onde estão as obras que você deve praticar. Pergunte-se se você se sente membro de uma família, com irmãos e irmãs que você deve amar, cuidar e respeitar, ou como membro de um clube onde vai passar algumas horas, receber alguns bônus e depois vai para casa, sem compromisso algum com este clube, a não ser o pagamento de uma mensalidade: o dízimo. Pergunte-se quem Deus é para você, se Ele é aquele paizão que está no céu disposto a lhe encher de bênçãos e vitórias ou um Deus soberano a quem você deve temor e obediência. Você se vê como soldado de Jesus? Está lutando contra a carne, o mundo e o diabo? Você tem batalhado pela fé cristã ou tem praticado a filosofia diabólica e mundana do “politicamente correto”, achando que cada um crê naquilo que deseja e ninguém tem nada a ver com isso? Você é capaz de responder sobre a razão da sua esperança, da sua fé, utilizando uma base bíblica sólida ou apenas repete a velha frase “eu acho que”? Leia 1 Pedro 3:15; 2 Timóteo 2:15 e 4:1-5.

Eu sou membro da Igreja de Cristo. Eu não estou num hospital, mas faço parte de uma família. Eu não sou a terra que fica imóvel recebendo a chuva, mas quero ser a nuvem que faz a chuva cair para molhar a terra. Não quero ser um paciente doente em um leito, mas um soldado no campo de batalha. E você, quem é?




AUTOR:

Mizael de Souza Xavier, natural do Rio de Janeiro. Moro atualmente em São Paulo. Sou poeta, teólogo e escritor. Exerço o ministério pastoral na Igreja Cristão Nova Aliança do Senhor, em São Paulo/SP.

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