sábado, 2 de junho de 2018

O CRISTÃO E A INTEGRIDADE - PARTE 6




Seu preço: O que acontece quando somos íntegros?

            Ser uma pessoa íntegra, acima de tudo no mundo atual, tem o seu preço. Todavia, este preço não é nada para se comparar com a glória que espera o crente nos céus nem a condenação que aguarda os ímpios no inferno. Logo, por mais que soframos procurando ser íntegros em um mundo mal, este é o caminho certo a ser seguido, e é aquele que agrada a Deus. No modelo de sociedade em que vivemos, onde as pessoas buscam sempre uma forma de tirar vantagem das outras, ser honesto não somente atrai o escárnio das pessoas, como também parece dificultar a vida do homem íntegro, porque, principalmente no Brasil, as coisas parecem funcionar com base na desonestidade. Então, o homem honesto demora mais tempo para resolver as coisas, para conquistar seus sonhos, porque não age de forma ilícita, não dá o “jeitinho brasileiro”.
            Além da dificuldade encontrada ao existir num mundo mal, o homem íntegro é vítima constante dos ímpios. O rei Davi, que sofreu grande perseguição por parte de Saul, sabia o que era estar na mira da perversidade, como ele próprio descreve no Salmo 64. Mais uma vez a língua entra como um instrumento de destruição para perturbar a vida daquele que anda retamente, por meio de maledicências, intrigas e difamações. Diz um ditado popular que só se atira pedras em árvore que dá frutos. O objetivo desses homens malignos é desestabilizar a vida daquele que anda em integridade; se não pode levá-lo a cair, pode colocar pessoas e situações contra ele. Mas até mesmo essa tentativa de desviar os íntegros do seu caminho bom se transforma em destruição para os ímpios. Salomão escreveu: “O que desvia os retos para o mau caminho, ele mesmo cairá na cova que fez, mas os íntegros herdarão o bem” (Pv 28:10). A vontade de Deus é que soframos por praticar o que é bom, não o que é mal (1 Pe 3:17), como o exemplo de Jesus, que na sua integridade foi verdadeiro até o fim, mesmo tendo que suportar o ódio dos seus inimigos, ao ponto de tirar-lhe a vida.
Os que estão firmes na Palavra de Deus, jamais se desviam do caminho certo, mesmo que haja um preço alto a ser pago. Os homens retos não se deixam levar pelas investidas dos ímpios, não seguem os seus maus caminhos, não se desviam da verdade, mas permanecem firmes. Pedro indaga: “Ora, quem é que vos há de maltratar se fordes zelosos do que é bom?” (1 Pe 3:13). Mas completa: “Mas, ainda que venhais a sofrer por causa da justiça, bem-aventurados sois” (v. 14a). O apóstolo deixa bastante claro que a prática da justiça pode produzir sofrimento, como ameaças, por exemplo. O crente precisa estar pronto para responder aos ímpios sobre a razão da sua fé, mantendo a boa consciência para envergonhar aqueles que falam contra ele ao perceber o seu bom procedimento em Cristo (v. 16). A alegria do homem íntegro é sofrer como cristão, rendendo glórias a Deus (4:16).
Desde o início da nossa caminhada cristã, está claro que viver de modo santo em um mundo pecador nos traria consequências. O apóstolo Paulo, que antes perseguia a Igreja, transformou-se em alvo de inquisições e foi vítima de toda espécie de perseguição (1 Tm 1:12-14; 2 Co 4:8,9; 12:10; 1 Ts 3:4; 2 Ts 3:1-3). Ele escreve a Timóteo: “Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2 Tm 3:12). O autor de Hebreus fala de muitos que estavam aprisionados e eram maltratados (Hb 13:3). Pedro chama os crentes a se alegrarem com as perseguições que vinham sofrendo, pois eles estavam sendo co-participantes dos sofrimentos de Cristo (1 Pe 4:12-16). Aqueles que não enfrentam problemas com relação ao seu procedimento na sociedade, que não são vítimas do ódio do mundo, pode ser que não estejam vivendo piedosamente, ou seja: talvez o seu comportamento seja tão pouco parecido com o de Cristo e tão conformado com o mundo, que não se percebe neles o Espírito Santo. Paulo também escreveu: “Mas os homens perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados” (2 Tm 3:13).


Seu caráter eterno: Qual a relevância eterna da nossa integridade?

            O sangue de Cristo nos purificou das obras mortas para servirmos ao Deus vivo (Hb 9:14). A integridade da vida cristã, porém, não diz respeito apenas àquilo que acontece na esfera terrena da sua existência, mas tem um propósito celestial e eterno. Para que fomos salvos? Em Efésios, lemos que somos “feitura” de Deus: Ele nos criou em Cristo (2:10). Esta criação nos coloca numa posição diferente daquela que tínhamos quando éramos incrédulos, dando-nos uma nova natureza e um novo propósito de vida. A nossa filiação divina é segundo o beneplácito da vontade do Pai e para o louvor da sua glória (1:3-14), de modo que a nossa integridade como crentes selados com o Espírito Santo tem um propósito eterno, que se tornará completo na glória. Este é o objetivo da nossa perfeição como Igreja, a noiva do Senhor: sermos apresentados santos e imaculados perante Ele, que a lavou e purificou “para a apresentar a si mesmo uma igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” (5:27; cf. 2 Co 11:2; Cl 1:22-28; Jd 24; Ap 14:4,5).
            A santificação é um processo que se inicia no momento em que somos convertidos pelo Espírito Santo e prossegue num processo contínuo até alcançarmos a perfeição. Neste processo, o homem pode de certa forma cooperar com o Espírito no aperfeiçoamento do seu caráter. Embora seja uma obra divina, o crente é chamado a santificar-se por meio da prática da justiça, da obediência à Palavra de Deus e da abstinência total das obras da carne e dos prazeres do mundo. Tanto a vontade quanto a capacidade para responder a este chamado só são possíveis pelo Espírito Santo que nele habita. O desejo de Deus é que sejamos íntegros em nossa fé e em nosso caráter, refletindo a sua própria glória neste mundo enquanto esperamos a entrada na Israel celestial. Uma questão, todavia, deve ser discutida: os crentes atualmente possuem essa concepção de eternidade? Eles entendem que são forasteiros neste mundo e que a sua pátria está nos céus? Eles anelam por isso?
            Infelizmente, a busca por uma vida reta não tem sido numa perspectiva de eternidade, mas a tentativa de agradar a Deus para viver bem neste mundo. Quando lemos o relato do autor de Hebreus a respeito de grandes homens e mulheres que sofreram toda espécie de males por causa da sua fé, percebemos que, a despeito das suas limitações e falhas, foram pessoas íntegras, que jamais abriram mão dos propósitos de Deus nem negaram a sua fé. Ao contrário do que muitos pregadores afirmam e muitos crentes acreditam, o seu objetivo de vida não era alcançar grandes bênçãos nesta vida, mas elas aguardavam a concretização de uma promessa maior, superior e eterna. Hebreus 11:39 afirma: “Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé, não obtiveram, contudo, a concretização da promessa” (v. 39). Neste ponto podemos perguntar espantados: como não? Então quer dizer que mesmo com seu bom testemunho, sua fé e todo o sofrimento que enfrentaram, eles não obtiveram a promessa?
Até onde sabemos, Abraão foi pai de uma grande nação e Moisés libertou o povo do Egito. Como assim não obtiveram a promessa? O autor de Hebreus prossegue: “por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados” (v. 40). Para entendermos melhor ainda a questão, vamos retornar ao v. 13: “Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas, vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra”. Abraão saiu da sua terra e morreu sem enxergar a terra prometida, mas cria nas promessas de Deus. Mas o autor deixa bastante claro que, tanto Abraão quando todos os heróis da fé não aspiravam um espaço geográfico neste mundo, mas uma pátria superior, celestial. É o que lemos nos versículos 10: “porque aguardava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e o edificador”; e 16: “Mas agora, aspiram a uma pátria superior, isto é, celestial. Por isso Deus não se envergonha deles, de ser chamado o seu Deus, porquanto lhes proveu uma cidade”.
Não podemos abrir mão do propósito eterno da nossa integridade. O que somos começa nesta vida, mas não se limita a ela; começa neste mundo, mas não faz parte dele. A salvação que Cristo nos dá deve nos levar a desejar o céu, o que refletirá na retidão do nosso caráter, nas nossas boas obras, no desapego das coisas deste mundo e na pregação do Evangelho. Se não tivermos esse sentimento, dificilmente seremos íntegros. Devemos nos fazer algumas perguntas: (1) Onde está o seu coração? O Senhor nos diz: “Porque onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6:21). (2) O que temos buscado nesta terra? O Senhor nos exorta: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6:33). (3) Qual o seu verdadeiro anseio? O nosso anseio deve ser o mesmo do apóstolo Paulo: estar com Jesus no céu (Fp 1:21-23).


CONCLUSÃO

Como vimos neste estudo o cristão não deve buscar uma doutrina equilibrada a respeito de nenhum ponto da sua fé, mas a verdade única e absoluta em cada doutrina que a Bíblia apresenta. Da mesma forma, o seu estilo de vida precisa ser íntegro, de acordo com a verdade que ele professa crer, por isso a necessidade de uma verdade que seja absoluta e conduza à integridade. A Palavra de Deus é o prumo seguro da verdade, da fé e da moral. O que ela afirma é verdadeiro e digno de confiança. Não estamos livres para escolher fazer ou não fazer algo: ou podemos ou não podemos. E quando escolhemos um, o outro é excluído. Um exemplo está em Deuteronômio 30:19, onde Deus declara: “Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te propus a vida e a morte, e bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência”. Está explícito que escolher a morte não traria vida, como escolher a maldição não traria bênção. Não é possível, também, crer ou não em Deus. Aquele que se aproxima dele, segundo escreve o autor de Hebreus, deve crer que Ele existe e que se torna galardoador daqueles que o buscam (11:6).
O jovem rico descobriu que não poderia haver qualquer equilíbrio entre seguir a Deus e continuar apegado aos seus bens materiais. Ele, na verdade, buscava fazer as duas coisas: cumprir os mandamentos de Deus, mas com o coração voltado para este mundo e para as suas riquezas que, no final das contas, se mostraram muito mais importantes que a sua fé (Mt 19:16-22). Após o jovem se retirar triste, o Senhor declarou que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus, de modo que os discípulos se maravilharam, dizendo: “Sendo assim, quem pode ser salvo” (vs. 23-25), ao que Jesus respondeu: “Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível” (v. 26). De fato, o que Jesus demonstra nesse episódio é que a salvação não é por aquilo que fazemos (seguir os mandamentos, abrir mão de tudo), pois assim é impossível alcançar o céu. A salvação é pela graça de Deus, não pelos nossos próprios esforços ou nossa vã religiosidade. Desse modo, até o rico avarento pode ser salvo, porque quem operará na vida dele é o Espírito Santo. Não há um equilíbrio entre a nossa busca por Deus e a busca de Deus por nós. É Ele e somente Ele quem trabalha em todo o processo da salvação (cf. Os 11:1-5).
Não devemos abrir mão da verdade absoluta em nenhuma circunstância. É ela que configura a nossa fé em Deus e determina a prática desta fé. Quando tentamos buscar um equilíbrio entre crenças e práticas, fatalmente estamos desprezando a verdade revelada de Deus e a sua própria natureza santa e perfeita. Escolher este ou aquele elemento para compor a nossa fé significa abrir mão de outros igualmente importantes. Mais que isso, essa tentativa de equilibrar doutrinas e práticas nos conduz à mentira, porque o produto que teremos em mãos não será a fé verdadeira, mas uma versão distorcida engendrada pelo nosso pecado. A Teologia da Prosperidade é expert em utilizar apenas os versículos que, de acordo com a sua interpretação, demonstram que o cristão deve viver uma vida isenta de sofrimento e financeiramente próspera, que isso é um direito seu, afirmando, inclusive, que o fiel de Deus não adoece. Por outro lado, eles rejeitam e não pregam a respeito de textos que demonstram claramente como os homens de Deus sofreram enquanto estavam na terra, como o capítulo onze de Hebreus, os sofrimentos de Paulo pelo Evangelho e até o exemplo de Jesus Cristo. A busca pelo equilíbrio teológico culmina na criação de falsos ensinos e heresias. O que Deus espera de nós não é o equilíbrio, como dissemos, mas uma teologia genuinamente bíblica, forjada na correta exegese da sua Palavra, isenta de pressupostos humanos tendenciosos (Tt 2:7,8; 1 Tm 4;1-3). Ele também deseja a integridade do caráter, uma vida reta e santa baseada na sua Palavra, totalmente isenta das inclinações da nossa carne e impregnada com a ação poderosa do Espírito Santo. Em todas as coisas, seja Deus verdadeiro, e mentiroso, todo homem (Rm 3:4).



BIBLIOGRAFIA


MACARTHUR, John. A guerra pela verdade. São Paulo: Fiel Editora, 2014.




AUTOR:

Mizael de Souza Xavier, natural do Rio de Janeiro. Moro atualmente em São Paulo. Sou poeta, teólogo e escritor. Exerço o ministério pastoral na Igreja Cristão Nova Aliança do Senhor, em São Paulo/SP.

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O CRISTÃO E A INTEGRIDADE - PARTE 5




Suas recompensas: O que ganhamos sendo íntegros?

            Quando falamos em recompensas por uma vida íntegra, com certeza não estamos nos referindo a prêmios que o Senhor nos dar pela retidão do nosso caráter e pela santidade do nosso comportamento. Assim como em tudo na vida cristã, não amamos e servimos a Deus para ganhar prêmios por isso, mas porque Ele é Deus e devotarmos nossa vida inteiramente a Ele é um dever e um prazer. Falar em recompensas significa afirmar que a integridade sempre nos trará consequências positivas, ainda que venhamos a sofrer por isso. A maior dessas consequências é a paz que experimentamos diante de Deus e a segurança que esta paz nos proporciona por sempre estarmos fazendo a coisa certa, o que promove uma vida segura (Pv 10:9; 28:18). A santidade de Deus nos conduz à integridade moral como condição para nos parecermos com Ele. Sem esta santidade que o Senhor nos dá por meio do seu Santo Espírito, é impossível desenvolvermos a nossa salvação até o alcance da perfeição; e é improvável que não teremos do que nos envergonhar e temer por causa das nossas ações.
A integridade que temos em nós é fruto dos méritos de Cristo conquistados na cruz e da sua justiça que nos é imputada e que nos torna agradáveis a Deus. Deus se mostra íntegro para com aqueles que são íntegros, embora a integridade de Deus jamais mude, mesmo para com os que não são íntegros (Sl 18:25). A retidão de Deus pode ser vista na distribuição da sua justiça, quando Ele retribui cada um conforme as suas obras (Jó 34:11). Logo, praticar a justiça e rejeitar a iniquidade é a atitude de quem deseja provar das consequências positivas da justiça de Deus. Paulo escreveu a respeito daqueles que praticam o que condenam: “Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade contra os que praticam tais coisas” (Rm 2:2); e afirmou que Ele retribuía a cada um segundo o seu procedimento (v. 6). A forma de nos mantermos livres de más consequências e agradarmos a Deus é sendo íntegros. Ele abençoe aqueles que vivem em integridade (Sl 41:12; 84:11).
A integridade também produz bom testemunho do crente diante do mundo e a glorificação do Nome de Deus. Ela gera uma boa consciência capaz de manter o crente reto em seus caminhos, de modo que não há nada que se possa falar de mal dele e ao mesmo tempo ele contradiga aqueles que o acusam injusta e falsamente (1 Pe 3:16). Somos filhos da luz, e na luz não existem trevas. Ao discursar perante o rei Agripa, o apóstolo Paulo descreve a sua conversão quando chamado pelo Senhor para servi-lo (At 26:1-23). A natureza da sua missão era a evangelização dos gentios, para “abrir-lhes os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus” (v. 18). Vemos aí a consequente mudança na vida daquele que é convertido pelo Senhor. Existe uma mudança radical efetuada em sua vida: do pecado para a integridade. Como filhos da luz, devemos refletir no nosso caráter as obras da luz, andando como filhos da luz (1 Ts 5:4-11; Ef 5:8).
            O homem reto é guiado pela integridade e guardado pela justiça (Pv 11:3; 13:6). Para entendermos as consequências positivas que seguem a vida daquele que a integridade o guia, basta nos resultados das ações dos pérfidos: a sua mesma falsidade os destrói. Aqueles que andam desordenadamente, encontram cedo ou tarde com o fruto daquilo que semearam. O seu fim é trágico (Sl 37). Quem anda integramente, não teme o mal e colhe os frutos da sua própria justiça. Aqueles que são íntegros encontram nos caminhos do Senhor a sua fortaleza, estão seguros. Os ímpios, porém, vivem na ruína (Pv 10:29). A justiça do íntegro endireita o seu caminho, conduz seus passos pelas veredas da justiça e impede que ele tropece, que tenha comportamentos errados e venha a cair (Pv 11:6; 28:18). Logo, vale a pena andar de maneira íntegra. O futuro do homem íntegro é um futuro de paz, enquanto o dos transgressores é a destruição (Sl 37:37,38).Os retos e íntegros habitarão a terra e permanecerão nela (Pv 2:20,21), ao contrário dos ímpios, que serão exterminados (v. 22). A terra é a herança eterna dos que andam retamente (Mt 5:5; Sl 37:29).
            A integridade na prática da vontade de Deus traz consequências positivas ao crente (Nm 14:24; 32:12). Se coisas muito ruins têm nos acontecido, pode ser que a nossa falta de integridade seja uma das razões. Muitas pessoas se perguntam por que nada dá certo na sua vida, porque vivem atribuladas e até mesmo no ministério da igreja não obtêm êxito. Pode ser que não estejam sendo sinceras o suficiente consigo mesmas a respeito das suas atitudes. O livro de Juízes retrata o ciclo espiritual em que vivia a nação de Israel. Temos um claro exemplo no capítulo seis. Se levarmos em conta a história daquele povo desde a sua saída do Egito, podemos ver que Deus enviou um libertador para tirá-los de um estado de escravidão e dar-lhes uma terra onde pudesse habitar livres. Eles, porém, pecaram e Deus lhes enviou castigos. Em Juízes, este ciclo está bastante explícito: o povo peca (6:1), Deus envia um castigo (vs. 1-5), o povo clama a Deus (vs. 6,7) e Deus envia um libertador (vs. 11-16). Nesta ocasião, o Senhor convoca Gideão para restaurar a nação. Ao ser saudado pelo Anjo do Senhor, que lhe disse: “O Senhor é contigo, homem valente” (v. 12), Gideão responde com indignação contra o Senhor, porque não entendia porque ele e seu povo vinha sofrendo nas mãos dos midianitas (v. 13). Entretanto, lendo o v. 10, a resposta ao questionamento daquele homem valente está clara: “não destes ouvidos à minha voz”.
            Andar de maneira íntegra em tudo favorece o nosso relacionamento com Deus e o nosso comportamento no mundo. Além do que já foi dito a respeito das consequências positivas, vivemos em paz com as leis de Deus e do nosso país, não tendo do que nos envergonhar diante do mundo e de Deus. Nós nos tornamos pessoas melhores, maduras e sábias quando agimos com integridade, e isso reflete nos nossos relacionamentos. A integridade do caráter se estende, inclusive, aos nossos próprios filhos, que lucram com as nossas ações íntegras (Pv 20:7). Essa integridade também tem valor para o reino de Deus: por meio de uma vida íntegra, tornamo-nos testemunhas do Evangelho de Cristo e testificamos do Reino de Deus em um mundo corrompido. Num mundo materialista e individualista, que clama por valores monetários, diante de Deus, é preferível ser íntegro e pobre que rico e perverso (Pv 28:6).


Sua ausência: O que acontece quando não somos íntegros?

            Para responder a esta pergunta, bastaria que afirmássemos o contrário de tudo o que foi dito no ponto anterior. Por exemplo: “A falta de integridade na prática da vontade de Deus traz consequências negativas ao crente”. Ou: “A ausência de integridade produz mau testemunho do crente diante do mundo e a não glorifica o Nome de Deus”. Se é certo que um viver íntegro atrai bênçãos para a vida do homem reto, também é certo que uma vida ímpia resulta em maldição. A vida do rei Saul é o retrato de alguém que decide viver em rebeldia contra Deus e ainda assim espera obter sucesso naquilo que faz. Vemos no primeiro livro de Samuel, duas repreensões a Saul (13:13,14 e 15:23,28). Em ambos os casos a acusação que pesava sobre ele era a desobediência aos mandamentos do Senhor: “Procedeste nesciamente em não guardar o mandamento que o Senhor, teu Deus, te ordenou” (13:13); “Visto que rejeitaste a palavra do Senhor”. O resultado dessa falta de retidão de Saul foi a rejeição divina e a perda do seu reinado. O seu sucessor, o rei Davi, apesar de ser considerado um homem segundo o coração de Deus (1 Sm 13:14; 16:12; Sl 89:20; At 13:22), também teve seus momentos de fraqueza, vindo a colher os resultados do seu pecado.
            A falta de integridade dos seus reis apenas reflete o estado espiritual em que a nação de Israel se encontrava. Como vimos anteriormente, o livro de Juízes relata o ciclo de quedas daquele povo. Todos os profetas exortaram o povo de Deus sobre o seu mau procedimento e as consequencias que ele lhes trazia. O livro do profeta Isaías inicia com uma terrível repreensão: “Ai desta nação pecaminosa, povo carregado de iniquidade, raça de malignos, filhos corruptores; abandonaram o Senhor, blasfemaram do Santo de Israel, voltaram para trás” (Is 1:4). Jeremias declarou que Jerusalém era uma cidade pecaminosa, onde não havia integridade (Jr 5:1). Ezequiel profetizou a respeito das abominações que Israel estava praticando (Ez 8:6), onde até mesmo os falsos profetas falavam pretensamente em nome de Deus para enganar o povo (13:8,9). Amós profetizou sobre a cegueira espiritual de Israel (4:4-13). Miquéias falou a respeito da corrupção moral em que aquela nação se encontrava (Mq 7:1-7). Malaquias denunciou a pecaminosidade no roubo nos dízimos e nas ofertas (Mq 3:7,8), o que trazia maldição sobre o povo (v. 9).
            Salomão escreveu em seus provérbios que aquele que não é íntegro não terá o bem, mas somente a maldade (Pv 17:20; Pv 20:19). Essa maldade que tal homem experimenta está ligada às consequências da sua língua dobre. O uso da língua determina o caráter de uma pessoa e o seu destino. Numa língua dobre não existe verdade, apenas mentira e hipocrisia. A integridade pertence àquele que não tropeça no falar, porque é capaz de frear todo o seu corpo (Tg 3:2). A língua, porém, é somente mais um órgão do corpo humano que não possui consciência nem vontade própria. Ela apenas serve para articular as palavras que saem da garganta e reverberam nas cordas vocais. E essas palavras são produzidas pela mente humana. Logo, a língua é um instrumento humano de bênção ou de destruição. Isto nos leva à realidade de que a boca fala daquilo que o coração está cheio e pode revelar o verdadeiro caráter de alguém: “como podeis falar coisas boas, sendo maus?” (Mt 12:33,34). Sobre isso, Tiago faz várias comparações mostrando a impossibilidade de haver compatibilidade entre um caráter íntegro e a maldade, e entre um caráter ímpio e a bondade (Tg 3:7-12). O resultado de um caráter mortífero é o inferno.
A falta de integridade conduz à hipocrisia, e esta é capaz de corromper outras pessoas, como afirmou Jesus a respeito dos fariseus: “Acautelai-vos do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia” (Lc 12:1,2; Mt 16:6,12). Jesus estava falando a respeito da doutrina daqueles homens, que ensinavam o que não praticavam: “Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles vos disserem, porém não os imiteis nas suas ações; porque dizem e não fazem” (Mt 23:3). A falta de integridade pode induzir outras pessoas ao erro, influenciá-las a comportamentos nocivos, afastá-las da verdade. Mesmo grandes homens de Deus, como o apóstolo Pedro, pode se deixar levar por atitudes que não condizem com o caráter santo de Deus (Gl 2:13,14). O que pode acontecer quando a hipocrisia vier à tona? Quantos ministérios são destruídos por líderes religiosos mentirosos que se utilizam da fé para praticar crimes. Quantos crentes se afastam da verdade porque são ensinados com base em mentiras. Quantos relacionamentos são desfeitos porque têm por base a falsidade. O mesmo Deus que não rejeita o homem íntegro, também não toma pela mão os malfeitores (Jó 8:20).


CONTINUA...


AUTOR:

Mizael de Souza Xavier, natural do Rio de Janeiro. Moro atualmente em São Paulo. Sou poeta, teólogo e escritor. Exerço o ministério pastoral na Igreja Cristão Nova Aliança do Senhor, em São Paulo/SP.

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O CRISTÃO E A INTEGRIDADE - PARTE 4



Seu motivo: Por que devemos ser íntegros?

A integridade nos diferencia dos homens ímpios (Sl 26:9-12). Ela é consequência da nossa conversão e ao mesmo tempo um mandamento do Senhor: devemos ser santos porque Deus é Santo (1 Pe 1:15; 1 Ts 5:23). Fomos escolhidos por Deus para sermos santos e irrepreensíveis na sua presença (Ef 1:4; Cl 1:22; Sl 15:1-5). É impossível que sejamos aceitáveis diante de Deus por causa dos nossos pecados que fazem separação entre nós e Ele. A justificação pela fé em Cristo nos reconcilia com Deus e nos torna dignos de servi-lo. Não habitamos na sua casa, mas somos a sua casa por meio do seu Santo Espírito. Essa integridade que nos é dada na conversão e na santificação diária, permite que sejamos crentes além da aparência, diferentemente daqueles que, como o apóstolo Paulo escreveu, se gloriam na aparência e não no coração (2 Co 5:12). O crente íntegro tem uma nova razão de existir e uma motivação santa em seus pensamentos e ações. Ele não vive mais para si mesmo, mas para aquele que por ele morreu e ressuscitou (v. 15). Ele não anda mais segundo a corrupção que há na sua carne, mas segundo Cristo. E assim, “se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (v. 17). A integridade só é possível em um coração que não vive mais de si para si, mas de Deus para Deus. Servir a Deus envolve uma vida íntegra e uma alma voluntária, onde não há espaço para o velho homem e as suas práticas pecaminosas (1 Cr 28:9; Js 24:14).
            Como mandamento, a integridade é aquilo que Deus pede de nós, e envolve a prática da justiça, o amor pela misericórdia e a humildade (Mq 6:8). A nossa atitude para com as pessoas reflete a integridade que temos em Deus. Se somos íntegros, a justiça, a misericórdia e a humildade farão parte das nossas relações. Ao contrário, se o nosso caráter não for reto, dificilmente desenvolveremos essas virtudes. A Igreja evangélica tem experimentado uma avalanche de problemas envolvendo a qualidade moral dos seus membros e das suas lideranças. Algumas já nascem como fruto de um caráter deturpado, interessado apenas em satisfazer a sua sede de dinheiro e de poder. Muitos crentes que caem em pecado em suas denominações e não querem se arrepender, acabam migrando com seus pecados para outras denominações, espalhando o seu mal e contaminando outros irmãos. Outros vão além e abrem as suas próprias igrejas, que já nascem como fruto de um pecado. Que tipo de pregação e que ética farão parte dessas novas igrejas?
Devemos ser íntegros porque a nossa integridade atrai a justiça de Deus. Se pedirmos a Deus que nos faça justiça quando não estamos andando integramente, devemos estar certos que esta justiça virá sobre nós em forma de juízo (Sl 7:8; 26:1,11). Então ser íntegro tem a ver com a nossa consciência diante de Deus. Paulo era alguém que podia defender a si próprio com base na sua integridade como servo de Deus. Se antes ele era um judeu radical que perseguia aqueles que pregavam uma fé diferente da sua, logo ele se colocou do outro lado da frente de batalha, respondendo pelo crime de pregar a fé que outrora procurava exterminar. Paulo, enquanto fariseu, acreditava que a fé em Jesus Cristo era uma afronta às Escrituras; depois da sua conversão, porém, passou a defendê-la de acordo com a lei e os escritos dos profetas (At 24:14). A sua nova fé lhe permitia, finalmente, ter consciência pura diante de Deus e dos homens (v. 16). A esperança em Deus é que nos faz viver de maneira íntegra. Aqueles que não esperam em Deus, mas vivem segundo seus próprios caminhos, jamais poderão ser íntegros nem ter segurança naquilo que fazem (Sl 25:21).
Uma consciência íntegra é aquela que não tem do que se condenar, que está absolutamente certa quanto àquilo em que acredita e às práticas resultantes da sua fé. Esta consciência não é produzida pela capacidade humana de obedecer a Deus e fazer o que é certo, mas é resultado da obra vicária de Cristo na cruz, como escreveu o autor de Hebreus: “muito mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas, para servimos ao Deus vivo!”. A consciência imaculada impede que sirvamos a Deus, mas a nova natureza que nos é dada por Cristo nos permite sermos aceitáveis a Ele. Desta forma, estaremos seguros quanto ao nosso procedimento diante dos homens, podendo estar tranquilos quanto ao nosso caráter e procedimento, mesmo quando somos acusados de praticar o que é errado. Quando nos abstemos se fazer o que não agrada a Deus, mantemos o nosso procedimento exemplar, de modo que aqueles que falam contra nós se contradizem e dão glórias a Deus (2 Pe 2:11,12). Pedro ainda escreve que devemos nos santificar a Cristo em nosso coração, para darmos resposta àqueles que questionam a nossa esperança no Senhor, “fazendo-o, todavia, com mansidão e temor, com boa consciência, de modo que, naquilo que falam contra vós outros, fiquem envergonhados os que difamam o vosso bom procedimento em Cristo” (3:15,16). A integridade leva a uma boa consciência, e esta boa consciência confirma a nossa integridade, não deixando espaço para o que de mal possam nos acusar.
Alguns crentes acreditam que a sua vida nova não é resultado da fé em Cristo, mas um artifício para obter o favor de Deus. Isto é: não buscam acertar porque nasceram de novo, mas porque creem que ganharão o favor de Deus com isso e atrairão as suas bênçãos. Entretanto, O cumprimento das promessas de Deus envolve andarmos em integridade de coração. Não podemos esperar receber de Deus as suas bênçãos se não agimos conforme o seu caráter, praticando a sua vontade revelada nas Escrituras (1 Rs 9:4,5).  Devemos ser íntegros pelo que Deus é, não pelo que Ele faz. Abraão creu na promessa de Deus de que viria a ser pai de uma grande nação (Gn 12:2; Rm 4:11; Hb 11:8-19). Mas terá ele visto essa grande nação? Independente de não tê-la avistado, ele permaneceu na fé, jamais se desviou dela, nem mesmo quando Deus lhe pediu que sacrificasse o seu filho, Isaque (Gn 22). Jó, quanto posto a prova, não perdeu a sua fé, que era muito mais que a sua confiança inabalável em Deus, mas envolvia também a integridade do seu caráter como fruto dessa confiança. Isto é exercitar a fé: ser íntegro.
Muitos abandonam a sua integridade tão logo as tribulações os alcancem. Sempre haverá tribulação, perseguição, barreiras, principalmente no início da caminhada cristã. Para Deus não importa tanto como começamos, mas como iremos terminar. O que decidirá o nosso sucesso será o nível de compromisso com a obra de Deus e a nossa integridade. Assim como Neemias, José enfrentou duras penas até chegar ao ponto planejado por Deus. Mesmo diante de todas as circunstâncias adversas, ele não se dobrou, não negociou os seus valores. Temos uma reação natural de pagar o mal com o mal, entretanto Deus nos convoca a uma resignação santa, fruto de uma fé confiante e íntegra, tendo a certeza de que Ele está no controle de todas as coisas (Rm 8:28).


Suas formas: Como podemos ser íntegros?

            Este ponto envolve duas questões. A primeira é o que podemos fazer para nos tornarmos pessoas íntegras, o que já foi exposto: pela graça de Deus que nos justifica e nos santifica. A segunda diz respeito ao caráter que essa integridade produz em nós e o seu comportamento consequente. Ou seja: como agem as pessoas íntegras? E: como elas podem desenvolver e aperfeiçoar a sua integridade? A integridade tem a ver com o nosso novo nascimento e a renovação da nossa mente, que retira de nós o padrão mundano e nos faz conforme o próprio Deus (Rm 12:1,2). Este novo padrão produzirá uma integridade baseada na santidade de Deus, não nas nossas práticas antigas. Se o padrão é novo e não está baseado nas paixões que anteriormente militavam na nossa carne (Rm 6:6-12; 11:30; 1 Co 6:11; Cl 3:5-11; 1 Pe 1:14,15), ele precisa estar baseado no novo, que é produzido em nós pela prática da Palavra de Deus, onde existe integridade plena.
A nossa forma de crer serve de base para nosso modo de agir. Portanto, a nossa integridade precisa estar baseada na crença correta, onde os nossos valores serão formados a partir das Sagradas Escrituras, ditando como deve ser o nosso comportamento. A partir do momento que sabemos o que fazer e como fazê-lo, o nosso caráter é alicerçado firmemente. Não existe espiritualidade cristã e vida íntegra sem coerência entre aquilo que cremos (ortodoxia) e aquilo que praticamos como fruto dessa crença (ortodoxia).  O Senhor Jesus nos ensinou: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13:35). A mensagem do Evangelho é uma mensagem de amor, de fé, de perdão, de restauração, de reconciliação, de esperança, de abandono do pecado, de obediência, de adoração e de serviço a Deus. Como viveremos e pregaremos este Evangelho se as nossas atitudes forem incoerentes com esses valores? Como o mundo enxergará em nós o Cristo que anunciamos se todas as nossas ações são contrárias ao que Ele pregou e viveu? Escrevendo a Tito sobre os falsos mestres e as suas falsas doutrinas, Paulo diz a respeito dos insubordinados: “No tocante a Deus, professam conhecê-lo; entretanto, o negam por suas obras; é por isso que são abomináveis, desobedientes e reprovados para toda boa obra” (Tt 1:16) O servo do Senhor, no entanto, deve ser padrão de boas obras (2:7), “dando prova de toda fidelidade, a fim de ornarem, em todas as coisas, a doutrina de Deus, nosso Salvador” (2:10).
Aos Tessalonicenses ele escreveu: “Pois esta é a vontade de Deus, a vossa santificação: que vos abstenhais da prostituição, que cada um saiba possuir o seu corpo, em santificação e honra” (1 Ts 4:3,4). Se o nosso ser (corpo, alma e espírito) não carrega a santidade de Cristo, não haverá integridade nas nossas ações. Só podemos ser íntegros se aliarmos a prática às nossas crenças. Salomão escreveu em seus Provérbios: “A integridade dos retos os guia, mas aos pérfidos a sua mesma falsidade os destrói” (11:3). Tiago escreveu que aquele que se acha sábio e inteligente, deve mostrar isso em mansidão e sabedoria, mediante obras condizentes com essas qualidades (Tg 3:13). O contrário disso é mentir contra a verdade (v. 14). A integridade da prática, todavia, provém da integridade com a crença. Isto significa que é preciso crer da maneira correta, ser coerente com o ensino apostólico. Boas práticas que não provenham de boa doutrina são desprezíveis. Paulo escreveu aos gálatas a respeito da questão judaizante, envolvendo a prática da Lei mosaica e a graça libertadora de Deus em Cristo. Ele afirma que paz e misericórdia seriam multiplicadas a “todos quantos andarem de conformidade com esta regra” (6:16); isto é: a crença correta na salvação pela graça.
Só podemos alcançar essa integridade com o nosso coração transformado. As nossas ações são consequências daquilo que está no nosso coração. Assim como acontecia com os fariseus, as igrejas estão lotadas de pessoas que vivem uma fé de aparência, baseada nas suas manifestações religiosas nos templos onde vão cultuar a Deus. Seus dízimos e ofertas, a sua participação em ministérios e eventos de suas denominações escondem o orgulho e o pecado no oculto do coração e do lar, onde somente Deus pode sondar. Mas Deus julgará as intenções do coração, se foram íntegras ou não (Mt 10:26; Lc 16:15; 1 Co 4:5; 1 Cr 28:9; 29:17). A integridade é fruto de um coração arrependido, que reconhece a sua necessidade de Deus e anda em justiça. A estes, Deus recompensa com a sua presença e a sua glória (Is 33:13-16).
O caráter íntegro não é revelado na religiosidade insípida vivida hoje, mas se mostra através das boas obras, bem como a falta de integridade se desmascara por meio das más obras (1 Tm 24,25; Pv 10:9;  26:26). É Deus quem produz a integridade a aperfeiçoa. Não podemos ser homens íntegros mediante nossos próprios esforços, mas segundo a graça de Deus que opera em nós por meio do seu Santo Espírito (2 Co 1:12; Fp 1:6; Hb 10:22). A integridade se evidencia por meio de relacionamentos saudáveis (2 Co 1:12; 1 Co 8:7-12), pela valorização das coisas que são do alto, pela busca constante do Reino de Deus em primeiro lugar e pela glorificação do Nome do Senhor (1 Co 10:31). O homem íntegro é honesto em tudo o que faz (Pv 11:1; 16:11; 20:10,23). Se não existe honestidade, não há integridade, a começar pela nossa própria casa, onde primeiro ela deve se evidenciar (Sl 101:2). Não podemos ser íntegros apenas aos olhos das pessoas. A integridade não tem a ver com o que fazemos, mas com quem somos (Lc 16:15). Se não somos bons pais, bons filhos, bons amigos, bons patrões, bons empregados, não adianta manter as aparências na Igreja.
             O mundo é o ambiente de onde fomos tirados por Deus para servi-lo, mas é no mundo que devemos desenvolver e manifestar a nossa integridade, separando-nos moralmente dele e influenciando-o com os novos valores que Cristo nos dá. Somos sal da terra e luz do mundo (Mt 5:13-16). Se nos falta sabedoria de como agirmos em determinadas situações, devemos pedi-la a Deus e buscá-la na sua Palavra. A prática da sabedoria que vem de Deus permite que os nossos caminhos sejam retos para que não venhamos a tropeçar (Pv 2:6-8; 3:19-23). A sabedoria nos dá um conceito correto acerca das coisas (1 Co 10:23; Tt 1:15), ensinando-nos a como agir em todas as circunstâncias para que sempre façamos o que é certo. Uma forma de andarmos assim e mantermos a nossa integridade é falar e agir como Jesus, imitando-o em seu caráter (Ef 5:1). Se não agirmos com integridade, até mesmo a qualidade do nosso amor sofrerá interferências negativas. O amor correto procede de um coração puro, uma consciência boa e uma fé sem hipocrisia (1 Tm 1:5). Assim, o agir do crente íntegro é puro, bom e verdadeiro.

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AUTOR:

Mizael de Souza Xavier, natural do Rio de Janeiro. Moro atualmente em São Paulo. Sou poeta, teólogo e escritor. Exerço o ministério pastoral na Igreja Cristão Nova Aliança do Senhor, em São Paulo/SP.

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O CRISTÃO E A INTEGRIDADE - PARTE 3




A INTEGRIDADE COMO IDEAL DIVINO

A Bíblia não nos chama a uma vida equilibrada, mas íntegra. O Senhor Jesus deixa isso bastante claro ao afirmar: “Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco também é injusto no muito” (Lc 16:10). Não existe equilíbrio algum entre fidelidade e injustiça, mas a possibilidade de haver uma exclui a outra. O cristão que vive retamente pende para o lado da fidelidade e da justiça, não deixando espaço para sentimentos contrários, de modo a buscar um equilíbrio nas suas ações, como fizeram Ananias e Safira ao mentirem para o Espírito Santo (At 5:1-11). A integridade promove segurança (Pv 10:9) e mantém o cristão firme diante das investidas do mundo, da carne e do diabo. O ponto crucial é não se dobrar àquilo que Deus desaprova crendo que se poderá arranjar alguma brecha para justificar pecados. Ao enviar Tito para cuidar da arrecadação da oferta dos coríntios aos crentes pobres de Jerusalém, o apóstolo Paulo desejava manter a integridade do seu ministério e da verdade, não cedendo espaço para quaisquer dúvidas e desconfianças (2 Co 8:16-24). Paulo não buscava equilíbrio entre as suas ações diante de Deus e aquilo que era feito na frente dos homens, como se fosse possível usar dois pesos e duas medidas e mentir para Deus (Pv 20:10). Ele escreveu: “pois o que nos preocupa é procedermos honestamente, não só perante o Senhor, como também diante dos homens” (v. 21). Honestidade é integridade e não equilíbrio. A honestidade não pode ser negociada nem estar aberta a “deslizes justificáveis”. A própria natureza da palavra “íntegro” (inteiro) já demonstra o tipo de caráter que o cristão deve manifestar em todas as suas ações, evitando o mal testemunho e as calúnias (1 Pe 3:16).
Nas recomendações finais de sua epístola, o autor de Hebreus pede aos irmãos oração, pois se sentia persuadido a ter boa consciência, desejando em todas as coisas viver condignamente (13:18; “portar-se honestamente”, ARC). A honestidade não pode comportar outra coisa senão a honestidade. Aquele que é honesto não promove a injustiça, não se apropria de nada alheio, fala a verdade e é confiável. Escrevendo aos crentes de Filipos, o apóstolo Paulo apresenta uma lista de valores absolutos que deveriam fazer parte do pensar e do agir daqueles irmãos: verdade, respeitabilidade, justiça, pureza, amabilidade, honradez, virtude e louvor (Fp 4:8). Ele admoesta: “O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso praticais; e o Deus de paz será convosco” (v. 9). Paulo conclama os irmãos a agirem de maneira íntegra, cultivando os valores e virtudes que conduzem à paz com Deus. São valores absolutos. Aquele que anda na verdade, não compactua com a mentira. Quem é respeitável, não pode viver de outra forma. Uma pessoa justa não age com iniquidade. Uma vida equilibrada seria pesar de um lado da balança a impureza e do outro a pureza, buscando o equilíbrio entre ambas. Uma vida reta, íntegra, retira da balança a desonra e permite que somente a honra se faça presente. O que foi aprendido, recebido, ouvido e visto deve compor de forma plena o caráter do cristão, deve fazer parte do seu estilo de vida, jamais cedendo qualquer espaço para atitudes contrárias. Não é um pouco disso e um pouco daquilo, mas os valores eternos e imutáveis da Palavra de Deus em sua integralidade.
A maneira como cremos e a forma que vivemos revelarão quem de fato somos. Jesus afirmou que a árvore se conhece por seus frutos (Lc 6:43-45; Mt 7:22-27). Embora muitos se afirmem cristãos, seguidores de Jesus, alguns demonstram, por suas crenças e suas práticas, que não são quem dizem ser. Isso está claro na Bíblia ao se referir a respeito dos falsos mestres, falsos profetas, falsos apóstolos e o anticristo (cf. Mt 7:15-23; 24:4,5, 24:23-26; Gl 1:6-8; 2 Co 11:3,4,13-15; 2 Ts 2:3,4,8-10; 2 Pe 2:1-22; Jd 1:1-23). Podemos perceber em todos esses textos que a crença incorreta produz práticas igualmente incorretas. Aqueles que não acreditam nem pregam a verdade, mas buscam equilibrar seus próprios pontos de vista com a Revelação de Deus, geralmente incorrem em erros doutrinários e desvios morais. Para manter esses desvios morais e não permitir que sejam chamados de “desvios”, os pensadores pós-modernos decidiram abrir mão da verdade absoluta ou de qualquer tipo de verdade. Quem poderá dizer que seus atos são imorais se não existe uma moral real? Quem poderá afirmar que as suas práticas são pecaminosas se não existe pecado nem mandamento divino a ser obedecido, pois, a priori, não há Deus? Essa disposição mental para equilibrar as forças e justificar pecados está corroendo como um câncer a doutrina cristã. Em breve, alguns adorarão a Besta, outros não. Aqueles que se mantiverem fiéis serão decapitados “por causa do testemunho de Jesus, bem como por causa da Palavra de Deus” (Ap 20:4). Eles não buscaram equilíbrio, não se dobraram diante da Besta, mas viveram a verdade absoluta de Deus até as últimas consequências. Quanto aos outros, a parte que lhes coube foi o lago que arde com fogo e enxofre, a segunda morte (Ap 21:8).


Sua natureza: O que é a integridade?

Integridade é o resultado positivo da equação das nossas crenças com as nossas atitudes. Ela bem pode ser resumida na seguinte sentença: “Você é aquilo que você faz quando ninguém está olhando”. Numa outra forma, diz Epicuro: “Caráter é aquilo que você é quando ninguém está olhando”. Ainda uma citação de Oscar Wilde afirma: “Chamamos de ética o conjunto de coisas que as pessoas fazem quando todos estão olhando. O conjunto de coisas que as pessoas fazem quando ninguém está olhando chamamos de caráter”. Muitos dos nossos comportamentos na sociedade não dizem respeito àquilo que realmente somos, mas àquilo que as pessoas esperam que sejamos e façamos. Assim, enquanto estamos no meio delas, agimos como determina o seu padrão de comportamento, mas tão logo nos encontramos a sós ou em outro ambiente, reproduzimos outro tipo de comportamento. No meio cristão, esse tipo de atitude conduz a uma religiosidade vazia e hipócrita. Na igreja, os irmãos agem como crentes; fora dela, agem como pessoas carnais e mundanas. Aquilo que fazemos em oculto, longe dos olhares do pastor e dos irmãos é que determinará quem realmente somos.
Logo, a integridade está ligada ao nosso caráter, à nossa verdadeira essência, que se manifesta quando estamos distantes dos olhares das outras pessoas. Quando somos na nossa intimidade aquilo que somos em sociedade, podemos afirmar que somos íntegros, para o bem ou para o mal. Como filhos de Deus, somos chamados a desenvolver um caráter parecido com o de Cristo, o que nos conduz a uma vida íntegra, coerente com o modo de se e de pensar do nosso Modelo supremo de integridade. Quando estudamos a Bíblia, vemos que o termo “integridade” está ligado a diversas qualidades que podem ser desenvolvidas pelo crente cheio do Espírito Santo. Integridade, no Antigo Testamento, vem do termo hebraico tôm, da raiz tãmam, que significa perfeição, geralmente perfeição moral, ser pronto, completo, acabar. Significa, também, inocência, comportamento justo, a qualidade de ser impecável. Está ligado à plenitude, sinceridade, reto, toda força, em cheio.
Outro termo utilizado para referir-se à integridade é tãm, que significa completo, piedoso, gentil, caro, pacato, imaculado, reto, sincero, íntegro. Não significa isenção de falha, pois era usado com respeito a pessoas cheias de falhas. Esta palavra descreve a atitude suave de Jacó em contraste com seu irmão Esaú, que se caracterizava pelo derramamento de sangue (Gn 25:27). Na língua portuguesa, integridade é um substantivo feminino originado do latim integritate, significando qualidade ou estado do que é íntegro ou completo. É sinônimo de honestidade, retidão, imparcialidade. Em seu sentido figurado a integridade pode ser descrita como honradez, pureza ou inocência, podendo indicar uma atitude de plenitude moral, sendo a característica de uma pessoa incorruptível, isto é, que não se corrompe.
Vemos, na Bíblia, que há variedade nas traduções do termo “integridade”, que dependerá do seu contexto, mas que sempre trarão o mesmo significado. Em muitos casos onde a tradução Revista e Atualizada de João Ferreira de Almeida utiliza a palavra “integridade”, a Revista e Corrigida assinala outros termos. Eis as principais ocorrências: sinceridade (2 Sm 22:26; 1 Cr 29:17-19; Jó 1:1; 31:6; Jó 2:3; Sl 18:23; 101:2; Pv 11:5; Tt 2:7), justiça (Is 45:23), verdade (Is 59:4), retidão (Gn 6:9; Sl 37:18; Pv 28:10), irrepreensibilidade (1 Ts 5:23), perfeição (2 Cr 16:9; Ap 3:2), consciência limpa (Gn 20:5,6), simplicidade (Gn 25:27; Pv 29:10), qualidade moral elevada (Sl 37:37). Através da utilização de termos diferentes para designar a integridade, podemos observar as qualidades do caráter daquele que é íntegro. Ele é sincero, justo, verdadeiro, reto, irrepreensível, perfeito, limpo de consciência, simples e possui uma qualidade moral elevada.
No Novo Testamento, o termo amemptos é utilizado para designar alguém irrepreensível, inocente, impecável e inculpável (Lc 1:6; Fp 2:15; 3:6; 1 Ts 3:13; Hb 8:7). É derivado de amemptōs (inculpavelmente). Seus sinônimos dizem respeito a: imaculado, sem manchas, sem culpa, largamente irrepreensível, pessoa que não pode ser apanhada ou acusada, sem ser mau por si mesmo, sem mistura de fora, inofensivo, único, sem duplicidade. Como veremos neste estudo, essas qualidades não são inerentes do ser humano natural, no seu estado pecaminoso, mas são estimuladas no crente pelo Espírito Santo. Muito embora o perdido possa desenvolver um caráter moral elevado do ponto de vista da ética secular, a sua integridade jamais será ideal, porque não está baseada nas Escrituras, não é provém de uma vida no Espírito nem tem como finalidade principal a glória de Deus.
Uma pessoa íntegra não maquia os defeitos do seu caráter, mas eles ficam patentes a todos, pois a integridade não comporta a hipocrisia. Ela é sincera quanto a quem realmente é; não mascara a sua personalidade nem se esconde detrás da religiosidade. Ele é sincera quanto aos seus erros e acertos, suas qualidades e defeitos. Conta-se que a palavra “sincera” derivou-se de uma prática oriunda dos artesãos do mármore, na Roma antiga. Ao esculpir as suas obras, acidentalmente eles faziam talhos muito profundos no mármore. Para disfarçar e esconder essas falhas acidentais, eles preenchiam os buracos com cera da mesma cor, mascarando os defeitos em suas peças. Estas, porém, eram vendidas ao público como perfeitas. Aqueles escultores que agiam honestamente, anunciavam as suas obras como sendo sine cera (sem cera). Esta prática ainda está presente no caráter de muitas pessoas, que procuram vender uma imagem falsa de si mesmas, mascarando seus defeitos com atitudes insinceras, práticas religiosas vazias e palavras lisonjeiras. Como veremos mais adiante, essas pessoas são chamadas de hipócritas, porque suas palavras não são compatíveis com a sua prática de vida.
Neste estudo, aprenderemos como é possível para seres humanos falhos serem crentes íntegros, mesmo possuindo defeitos. Parece um paradoxo afirmar que retidão e perfeição estão ligadas a indivíduos que não somente não são perfeitos, como também declaram isso abertamente, e por isso são íntegros. Um crente insincero dirá: eu não tenho pecados; mas um crente íntegro reconhecerá: sou pecador. A verdade, que é um sinônimo para integridade (cf. Is 59:4), está do lado de quem se reconhece pecador. Ao contrário, aquele que requer para si a qualidade de alguém que não peca, é tido como mentiroso, ou seja, não é íntegro (1 Jo 1:8-10).


CONTINUA...


AUTOR:

Mizael de Souza Xavier, natural do Rio de Janeiro. Moro atualmente em São Paulo. Sou poeta, teólogo e escritor. Exerço o ministério pastoral na Igreja Cristão Nova Aliança do Senhor, em São Paulo/SP.

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O CRISTÃO E A INTEGRIDADE - PARTE 2




A IMPOSSIBILIDADE DO EQUILÍBRIO

A palavra “equilíbrio” é um substantivo masculino que expressa harmonia, estabilidade e solidez. Relacionado às leis da física, o equilíbrio se mostra como o estado do sistema cujas forças que sobre ele agem se contrabalançam e se anulam de maneira mútua. Um corpo que se encontra estável é desprovido de oscilação ou desvio. Ele é, também, uma força que age de maneira igual entre duas ou mais coisas (ou pessoas). No meio financeiro existe equilíbrio entre os lucros e os gastos. Em sentido figurado, o equilíbrio pode ser a propriedade ou estado daquilo que permanece estável (constante); também está relacionado ao equilíbrio de oportunidades de trabalho. Não somente os corpos e os sistemas possuem equilíbrio, mas também as pessoas:  comedimento emocional, estado mental estável e autocontrolado. Todavia, aos dicionários não compete explicar como se dá esse equilíbrio, que forças são necessárias para que algo ou alguém encontre a sua harmonia, estabilidade e solidez. O que precisa ser acrescentado? O que precisa ser tirado? É possível manter-se todos os elementos igualmente equilibrados para que haja essa harmonia? Quem ou o que decidirá isso? Diferentemente dos objetos sólidos inanimados, os seres humanos agem sobre o seu meio, não apenas sofrem a ação dele. Eles reagem às tentativas de manter-se ou tirar-se o seu equilíbrio. Embora o seu corpo possa estar estável, não se pode afirmar o mesmo da sua mente e do seu coração. Definir um indivíduo mentalmente equilibrado pode significar afirmar que a sua loucura e a sua lucidez estão sob controle e que ele é capaz de manter-se firme com ambas as forças atuando dentro de si, muitas vezes sob o efeito de medicamentos. Novamente a pergunta: quem decidirá o ponto de equilíbrio? O que para uns pode parecer loucura ou extremismo, para outros pode significar seu modo natural de agir, muitas vezes respaldado pela sua própria cultura, suas crenças e valores.
No campo do conhecimento humano, quando falamos em buscar um equilíbrio a respeito de determinado assunto, estamos nos referindo a encontrar um ponto que não se situe em nenhum extremo. Pensemos em um tema qualquer como sendo uma balança: o equilíbrio só pode ser mantido quando os dois lados da balança estão no mesmo nível, isto é, não existe uma tendência de se pesar um lado em detrimento de outro. O que se busca é equilibrar os pontos de vista e as práticas a respeito desse tema sem que nada se perca no processo, mas que tudo seja validado para ambos os lados e assim se mantenha o equilíbrio. Tomando como exemplo o amor, pode-se afirmar que ele não deve ser ofertado de maneira exagerada nem em porções mínimas, mas de forma equilibrada. Contudo, não há quem possa nos dar a certeza onde se encontra esse ponto de equilíbrio. O que é amar demais? O que é amar de menos? Quando podemos saber que exageramos ou que nos doamos insuficientemente? Qual será o fiel da balança? O mesmo pode-se dizer do ódio. Não existe ódio com uma pitada de amor ou vice-versa. Os dois não comungam, não compactuam, não se completam. O ódio é a ausência do amor, como a mentira é a ausência da verdade e o mal é a ausência do bem.
Mas será mesmo que existe algum equilíbrio ou pelo menos que em tudo este equilíbrio deve ser buscado? Pode ser que a nossa busca por equilibrar alguns conhecimentos e práticas esteja ligada à filosofia reinante no mundo pós-moderno de que não existe uma verdade absoluta ou um conceito final a respeito de qualquer coisa, mas tudo é relativo e isento de uma concepção totalmente acabada. Aquilo que é verdade para alguns, pode não ser para outros; aquilo que para uns é certo, para outros pode ser errado; e o que é considerado como bem aqui, mais adiante pode se revelar um grande mal. De acordo com MacArthur (2014, p. 39), “o pós-modernismo é marcado por uma tendência de repudiar a possibilidade de qualquer conhecimento seguro e sólido acerca da verdade” (itálicos do autor). Se a verdade objetiva existe, ela jamais poderá ser conhecida verdadeiramente, porque a objetividade é uma ilusão. Aquele que pretende proclamar um conhecimento suficiente a respeito de alguma verdade é reputado como arrogante e ingênuo. A verdade de cada um é que irá decidir, e esse é um direito que não pode ser suprimido. Isto envolve a moralidade. Não existe uma ética, mas diversas éticas que variam de acordo com os valores e as crenças relativistas de cada pessoa. Mentir, matar, adulterar, furtar, ludibriar, corromper são conceitos subjetivos que irão se adequar às circunstâncias sem jamais se configurarem como bons ou maus hábitos.
Buscar o equilíbrio pode ser a ideia disfarçada de que não existe uma verdade absoluta. O que se está afirmando, na verdade, é que podemos ficar com os dois lados da balança, sem desprezar nenhum. Isto é, podemos suportar opiniões contrárias às nossas para que mantenhamos o equilíbrio e não pendamos para nenhum dos lados, sob o risco de sermos taxados de “extremistas”, de modo que todos saiam ganhando. Ou ainda pior: um conhecimento ou prática pode comportar diversas verdades e ainda assim se manter íntegro, sem que em algum momento essas verdades se choquem, ainda que contrárias umas às outras. Logo, na justiça poderá haver um grau de injustiça, na verdade poderá haver um pouco de mentira, a legalidade poderá conter certa ilegalidade. O equilíbrio entre ideias e forças não comporta a verdade bíblica, onde, por exemplo, o bem e o mal são excludentes, assim como o certo exclui o errado e a verdade exclui a mentira. Do ponto de vista de Deus, não apenas existe a verdade absoluta, como ela é eterna e imutável. E esta verdade é Ele mesmo, como afirmou o Senhor Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14:6). Ou como João declarou a respeito de Cristo: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1:14). Cristo está “cheio” de graça e de verdade, completo. Ele não compactua com a mentira nem pode conter parte dela.


A necessidade da verdade

Se cremos em Deus e na sua Palavra, não estamos buscando algum equilíbrio de ideias ou doutrinas, mas a verdade existente em todas as coisas. Não há como equilibrar ideias e ações, tornando todos os lados da balança aceitáveis. Existe apenas uma maneira verdadeiramente correta de entender tudo. A busca pelo equilíbrio pertence àqueles que não aceitam a verdade absoluta de Deus e da sua Revelação. Em Deus, o certo sempre será certo, o bem sempre será bem e a verdade sempre será verdade. Do mesmo modo, o errado, o mal e a mentira também serão absolutos. Aqueles que buscam o dualismo ou o equilíbrio por trás de todas as coisas, negam a autoridade de Deus e da sua Palavra e admitem que as Escrituras possam conter erros ou estão sujeitas à diversas interpretações. Este é o primeiro passo para a formação de heresias e o caminho seguro para a apostasia. Negar a verdade absoluta de Deus é negar o próprio Deus. Aceitar que haja interpretações diversas e “equilibradas” na sua revelação é ir contra a sua soberania e sua sabedoria eterna. A Palavra de Deus é viva e eficaz e nada deixa às escondidas (Hb 4:12,13). Essa Palavra deve ser anunciada e vivida em sua integralidade (2 Co 2:17). A ministração da verdade exclui as coisas que de tão vergonhosas ficam em oculto, de forma plena, jamais adulterada, de modo que haja boa consciência diante de Deus (2 Co 4:2). Os dualismos e os relativismos pertencem aos perdidos, àqueles que não obedecem à verdade, que têm cego o seu entendimento e são impedidos de conhecer plenamente o Evangelho da glória de Cristo (2 Co 4:3-5).
O apóstolo Paulo escreveu aos crentes de Corinto que nada podemos contra a verdade, senão em favor da própria verdade (1 Co 13:8). A verdade contém e conduz à própria verdade. A crença correta sempre levará a práticas igualmente corretas. Se as crenças forem relativas, que tipo de práticas produzirão? Tiago escreveu: “Quem entre vós é sábio e inteligente? Mostre em mansidão de sabedoria, mediante condigno proceder, as suas obras” (Tg 3:13). A legitimidade da sabedoria se expressa através de obras coerentes. A verdade está em guardar os mandamentos (1 Jo 2:4). Todavia, como guardar os mandamentos de Deus se ao invés de buscarmos a verdade que há neles, buscarmos o equilíbrio? Se o conhecimento da verdade traz libertação, como afirmou o Senhor Jesus, em João 8:32, como poderemos ser libertos se não cremos numa verdade única e absoluta, mas no equilíbrio entre verdades? Conforme escreveu o salmista, as palavras de Deus são verdade desde o princípio (Sl 119:160). Não alguma verdade ou o equilíbrio de ideias e conhecimentos a respeito de Deus e do mundo, mas a verdade em seu sentido pleno e absoluto, que comporta criações, revelações, decretos, mandamentos e promessas divinos. Tudo o que foi escrito a respeito de Deus, ou seja: tudo o que Deus quis nos revelar faz parte de uma verdade eterna e irrevogável, que não pode ser diminuída, acrescida ou relativizada. As coisas ou são ou não são, ou podem ou não podem. Não há equilíbrio, apenas a boa, perfeita e agradável vontade de Deus (Rm 12:2).
Está bastante claro na Bíblia que devemos buscar a verdade, não o equilíbrio. Se isto é verdade para um tipo de conhecimento ou prática, o será para todos os conhecimentos e práticas. Não existem uma crença e uma doutrina equilibradas. Existem uma crença e uma doutrina verdadeiras. Com relação ao alimento que fortalece o corpo é possível mantermos uma dieta equilibrada, onde mesmo os alimentos que engordam podem ser consumidos em pequenas porções diárias sem prejuízo algum à nossa saúde. Todavia, com relação ao alimento que fortalece a nossa alma, não existe uma dieta balanceada: é preciso consumir tudo, com todas as suas vitaminas, em grandes porções, sem menosprezar absolutamente nada. A Palavra de Deus deve ser crida, compreendida, aceita, pregada e vivida na íntegra, como está na Bíblia. E só existe uma única verdade para cada uma das suas verdades. Não há uma visão “equilibrada” a respeito da salvação: ela é exclusivamente pela graça e não comporta outro elemento (Ef 2:8,9); da divindade de Cristo: Ele é o verdadeiro Deus e a vida eterna (1 Jo 5:20); da Trindade: ela está claramente expressa na Bíblia (p. ex. 1 Jo 5:7); da soberania de Deus: somente Ele é soberano, não há outro (Dt 10:17; Dn 7:27; Sl 72:1-7); da eleição: ela é de acordo com o conselho da vontade de Deus (Rm 9; Ef 1:4-12). Também da fé, da oração, das últimas coisas, da santidade, da natureza da Igreja, das missões, do inferno, do bem, do mal, do pecado, dos dons do Espírito ou qualquer outra doutrina bíblica. Existe apenas uma “única” verdade para cada uma delas. E esta verdade está na Bíblia, esperando ser lida e conhecida.


Somente a verdade produz integridade

Assim como a nossa crença deve ser ortodoxa, fundamentada totalmente na Palavra de Deus, aliada à verdade absoluta e jamais relativista, também a nossa prática de vida não pode comportar o dualismo, o relativismo. Uma vida santa, por exemplo, só pode ser vivida de acordo com a santidade de Deus e nela não existe um meio termo, não há o “equilíbrio”, há o “absoluto”. Ou o indivíduo está em trevas ou está na luz, pois ele não pode servir às duas circunstâncias, não pode comportar um aspecto de cada uma. O Senhor Jesus declarou: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mt 6:24). Não existe uma forma de equilibrar nosso amor por Deus com o amor pelas riquezas: quando escolhemos um, estamos automaticamente desprezando o outro. Da mesma forma, não existe equilíbrio entre andar no Espírito e andar na carne. Quem anda no Espírito, não satisfaz os desejos da carne; quem anda na carne, não poderá ser cheio do Espírito (Gl 5:16-26). Não é possível buscar um ponto de equilíbrio entre os feitos pecaminosos carnais e os frutos do Espírito: ambos são excludentes (Gl 5:19-24).
Embora a maioria dos cristãos não-protestantes busque o equilíbrio entre crer e servir a um único Deus e adorar as imagens de escultura, aplicando a essa atitude o termo “veneração”, está claro que quando optamos por crer e adorar ao único e verdadeiro Deus, todos os demais tipos de crenças e adoração são destruídos. A idolatria está como a causa principal do cativeiro babilônico do povo de Israel. Além de desprezarem os estatutos e as alianças de Deus com seus pais, eles enveredaram pelas práticas das outras nações, fazendo aquilo que era abominável perante o Senhor. Em 2 Reis 17:16 lemos: “Desprezaram todos os mandamentos do Senhor, seu Deus, e fizeram para si imagens de fundição, dois bezerros; fizeram um poste-ídolo, e adoraram todo exército do céu, e serviram a Baal”. O povo de Deus feriu o primeiro e maior mandamento de amar e adorar a um único Deus, Jeová (Dt 5:6-10). O princípio do erro está em desprezar os mandamentos de Deus. A partir daí, todos os demais pecados eclodem. Não há um ponto de equilíbrio na fé: ou ela está totalmente em Deus ou está totalmente fora dele. Não podemos comer na mesa de Deus e na mesa dos demônios. Quando tomamos um cálice, jogamos fora o outro (1 Co 10:20-22). Ou seguimos o conselho dos ímpios e sentamos na roda dos escarnecedores ou temos prazer e meditamos na Lei do Senhor (Sl 1). Deus nos chama a fazer uma escolha: temer ao Senhor e servi-lo com integridade e com fidelidade, jogando fora tudo que nos conduz à idolatria ou permanecer servindo a outros deuses. A escolha sensata nos levará a afirmar como Josué: “Eu e a minha casa serviremos ao Senhor” (Js 24:14,15), ou a declarar como o povo: “Longe de nós abandonarmos o Senhor para servirmos a outros deuses” (v. 16).
Também não é possível buscar um equilíbrio na manifestação da nossa espiritualidade diante dos homens. A quem devemos agradar? A quem devemos dar a verdadeira satisfação? Os fariseus buscavam o louvor dos homens, oravam, davam esmolas e jejuavam publicamente com o fim de serem apreciados e aclamados pelos homens. Fazendo isso, eles não estavam rendendo glórias a Deus e as suas atitudes eram reprováveis, como afirmou o próprio Senhor Jesus no Sermão do Monte (Mt 6:2-4,5-8,16-18). Ou recebemos a recompensa dos homens ou de Deus, não existe equilíbrio (cf. 6:1). O apóstolo Paulo escreveu aos gálatas: “Porventura, procuro eu, agora, favor dos homens ou de Deus? Ou procuro agradar a homens? Se agradasse ainda a homens, não seria servo de Cristo” (Gl 1:10). O Evangelho que Paulo pregava não era segundo o homem, mas mediante a revelação de Jesus Cristo (vs. 11,12). Atualmente, todavia, muitos pregadores têm buscado um equilíbrio entre o que Deus fala nos evangelhos e o que as pessoas esperam ouvir nas pregações; entre as doutrinas bíblicas e os desejos do homem. Isto é: uma “visão equilibrada” da Palavra de Deus permite que ela se adéque aos anseios e projetos humanos, sem que ambos deixem de lado as suas prerrogativas, o que não somente é impossível como também é uma heresia demoníaca. Contra tais pregadores, o próprio Paulo lavra a sentença: anátemas, isto é, malditos, amaldiçoados (1:6-9).
O apóstolo João não conseguia encontrar equilíbrio entre dois inimigos declarados: Deus e o mundo. Quem ama um, despreza o outro (1 Jo 2:15,16). O liberalismo teológico busca uma forma de adequar a verdade bíblica às demandas modernas, buscando uma teologia que consiga responder aos anseios mundanos, conformando-se aos padrões de um mundo corrompido pelo pecado. Para tornar isso possível, é preciso abraçar a filosofia pós-moderna relativista e abrir mão da veracidade das Escrituras Sagradas como Palavra inspirada de Deus suficiente, inerrante e infalível. O objetivo claro é absorver apenas aquilo que for do interesse do indivíduo, desprezando todo o resto, como fazem os ativistas gays, que retiram das Escrituras os textos que não compactuam com sua prática homossexual. Tiago, então, declara: “Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4:4). Portanto, um equilíbrio entre o mundo e Deus não é possível: o mundo precisa ser impregnado por Deus para abandonar-se a si próprio. De igual modo, o crente não deve equilibrar a sua vida entre à escravidão ao diabo e a sujeição a Deus. Quando nos sujeitamos a Deus, o diabo foge de nós (Tg 4:7).


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AUTOR:

Mizael de Souza Xavier, natural do Rio de Janeiro. Moro atualmente em São Paulo. Sou poeta, teólogo e escritor. Exerço o ministério pastoral na Igreja Cristão Nova Aliança do Senhor, em São Paulo/SP.

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