quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

OS DESIGREJADOS



TRECHO DO LIVRO “IDE E PREGAI: CURSO DE FORMAÇÃO DE EVANGELISTAS”, DE MIZAEL DE SOUZA XAVIER.


Existe um movimento que tem surgido no meio cristão denominado “os desigrejados” ou “os sem-igreja”. São pessoas que rejeitam o modelo atual de igreja, com seus templos, líderes, placas, sistemas de governo, convenções, estatutos e regras. Esses indivíduos querem seguir a Cristo, mas sem depender da igreja institucional. Eles geralmente se reúnem nas casas e se posicionam contra as igrejas convencionais. Pressupõe-se que nas reuniões desses grupos não existam líderes nem regras; que não há um espaço físico (troca-se o templo pela casa) nem obrigações a serem cumpridas pelos seus adeptos, o que com certeza não é verdade. O que queremos debater aqui ao falar a respeito dos desigrejados, é algumas das razões que levam muitas pessoas a saírem da Igreja, a abandonarem as suas congregações e enveredarem por esse tipo de caminho. Alguns estão decepcionados com igrejas neopentecostais, que lhes prometeram bênçãos que acabaram não recebendo. Outros saíram de suas igrejas porque, como vimos no ponto “d”, deixaram-se influenciar negativamente pelo mau testemunho dos outros e não foram maduros o suficiente para se manterem firmes na fé. Alguns migram de igreja em igreja na busca por um lugar perfeito, onde não haja pecado de espécie alguma, o que subtende-se que tais indivíduos sejam pessoas incapazes de pecar ou se sintam espirituais e perfeitas demais para conviverem com aqueles que julgam inferiores.
            A tarefa do evangelista, neste caso, é mostrar aos desigrejados e àqueles que vivem a migrar entre igrejas que não existe uma igreja perfeita aqui na terra, mas que em todas haverá pecadores e os problemas consequentes desta realidade. Se a igreja primitiva é proposta como modelo para o cristianismo atual, é preciso estudar a Bíblia e ver que ela nunca foi uma igreja perfeita, muito pelo contrário. Todos os problemas que hoje condenamos nas diversas denominações espalhadas pelo mundo, existiam nas igrejas fundadas pelos próprios apóstolos. Vejamos alguns exemplos:

·         Igreja de Corinto: era uma igreja que, assim como nos dias de hoje, possuía “grupinhos” (1 Co 1.12), tinha muitos crentes invejosos e também contendas (1 Co 3.3), além de brigas entre irmãos na justiça secular (1 Co 6), e fornicação (1 Co 5). A Igreja de Corinto possuía muitos dons espirituais, mas mesmo assim era reputada por Paulo como uma igreja carnal (1 Co 3:1), onde parecia não haver a presença do amor.
·         Igreja de Éfeso: apesar de ter sido alicerçada sobre a Palavra, era uma igreja que demonstrava pouco amor (Ap 2:4). Após a saída do apóstolo Paulo, aquela igreja experimentaria a presença de lobos vorazes e falsos mestres (At 20:29,30).
·         Igreja de Tessalônica: alguns crentes desta igreja andavam desordenadamente e não gostavam de trabalhar (2 Ts 3:11).
·         Igreja de Filipos: na igreja de Filipos havia desentendimento entre os irmãos. Duas irmãs, inclusive, não tinham pensamentos tão divergentes que foram citadas na carta escrita por Paulo (Evódia e Sínteque, Fp 4:2).
·         Igreja de Colossos: esta igreja enfrentava um terrível problema de heresias. Alguns estavam querendo colocar em dúvida a divindade de Cristo. Além disso, nela havia até mesmo culto aos anjos praticado por pessoas de mente carnal (Cl 2:18). Nesta igreja havia, inclusive, visões trazidas por pessoas que não eram crentes, porque não tinha Cristo como sua cabeça (v. 19).
·         Igreja da Galácia: além de estarem decaindo da graça e dando atenção aos hereges judaizantes, naquela igreja havia crentes que estavam devorando uns aos outros (Gl 5:2-4,15).
·         Igreja de Tiatira: esta igreja tolerava uma mulher que se dizia profetiza, mas que ensinava os irmãos a se prostituírem e a comer sacrifícios de idolatria (Ap 2:20).
·         Igreja de Laodicéia: ela era uma igreja que enfrentava dois problemas espirituais: era uma igreja morna que causava náuseas em Deus; e também uma igreja que se achava autossuficiente. O Senhor afirma que ela era infeliz, miserável, pobre, cega e nua (Ap 3:15-17).
·         Igreja de Pérgamo: a igreja de Pérgamo tinha sérios problemas doutrinários, permitindo que no meio dela se ensinasse a doutrina da Balaão e dos nicolaítas (Ap 2:14,15).
·         Igreja de Jerusalém: esta igreja sede deveria ter tudo para ser perfeita, pois contava com a presença dos apóstolos. Todavia, foi um deles – Pedro – que demonstrou preconceito contra os crentes gentios e agiu de maneira dissimulada, temendo os crentes judeus (Gl 2:12,13). Além disso, já havia ocorrido murmuração entre seus membros (At 6:1) e crentes que mentiam descaradamente (At 5:1-11).


Não vemos os apóstolos abandonando essas igrejas, mas os encontramos amando os irmãos, orando por eles e com eles, aconselhando, exortando, admoestando (Tg 1:22; 1 Ts 5:14-22; 1 Jo 1:9; Ef 4:1-3; Cl 3:17; 1 Co 6:18-20; 15:33; 2 Co 13:11; Fp 2:1-4;  1 Tm 5:21; 1 Ts 4:1,2; 2 Ts 3:11-13; Hb 13:22). O que precisa estar claro para o evangelista e ele deve passar para os crentes adeptos dessa nova teologia, dessa forma equivocada de pensar e viver a Igreja, é que o corpo de Cristo na terra é composto de pessoas que erram, de pecadores redimidos, mas que são imperfeitos, sendo santificados e aperfeiçoados diariamente em Cristo, pelo Espírito Santo. Os crentes amadurecem todos os dias no convívio com as suas próprias imperfeições e as imperfeições dos seus irmãos, amando-se uns aos outros, exortando-se e aconselhando-se mutuamente (1 Ts 5:10,11). Se não suportarmos as debilidades dos fracos, como poderemos fortalecê-los que a nossa fé que julgamos madura? O conselho do apóstolo Paulo aos desigrejados é: “Ora, nós que somos fortes devemos suportar as debilidades dos fracos e não agradar-nos a nós mesmos. Portanto, cada um de nós agrade ao próximo no que é bom para a edificação. Porque também Cristo não se agradou a si mesmo; antes, como está escrito: As injúrias dos que te ultrajavam caíram sobre mim” (Rm 15:1-3). A Igreja perfeita será aquela que estará na glória com o Senhor, sem pecado algum (Ef 2:27) e que consta de todos os que possuem os seus nomes escritos no Livro da Vida e fazem parte da grande Assembleia universal de Deus nos céus (Hb 12:23).