segunda-feira, 8 de maio de 2017

MITOS SOBRE O EVANGELISMO




Antes de aprendermos mais a respeito da missão evangelizadora da Igreja, é importante desfazermos alguns mitos sobre o evangelismo. Não é novidade que a Palavra de Deus tem sido pregada de forma totalmente deturpada em muitas denominações, até mesmo em cruzadas evangelísticas. Algumas vezes por total falta de conhecimento da Bíblia por parte de pregadores despreparados, mas a maioria das vezes por má fé. Existem muitos falsos mestres entre nós; é preciso que fiquemos atentos.
Vamos estudar os principais mitos:

Ganhar almas para Jesus. Isto é um equívoco, pois ninguém ganha ninguém. O Evangelho é o instrumento utilizado por Deus para acessar a mente e a alma do pecador, para mostrar-lhe a redenção e chamá-lo ao arrependimento. Esse processo começa e termina com o Espírito Santo (Jo 16:7-11). Escrevendo aos efésios (cap. 1), Paulo apresenta a adesão do pecador à fé em Cristo como iniciativa da graça de Deus (cf. 2:8,9). Em Cristo, Ele nos abençoou com toda sorte de bênçãos espirituais (v. 3), elegeu-nos (v. 4), predestinou-nos segundo a sua vontade (v. 5) e nos selou com o Espírito Santo da promessa como penhor da nossa redenção e possessão sua (vs. 13,14). Assim como ninguém é capaz de “ganhar almas para Jesus”, nenhuma alma pecadora se aproxima de Deus se Ele não o atrair. A obra é de Deus, é a sua poderosa graça que opera em nós, não os mecanismos humanos ou o poder da retórica. A tarefa do evangelista é tão somente pregar o Evangelho ao perdido.

Para ser evangelista é preciso falar em “línguas estranhas”. Este mito está geralmente ligado a algumas denominações pentecostais, que exigem que seus obreiros sejam “batizados com/no o Espírito Santo”, tendo como evidência o dom de línguas estranhas. Todavia, em parte alguma da Bíblia existe tal exigência. A exigência é o selo do Espírito Santo, que autentica que somos convertidos, salvos e, portanto, capacitados com poder e autoridade para pregar o Evangelho (Ef 1:13; Ez 36:26,27; 1 Co 3:16). E a evidência deste selo é o fruto do Espírito (Gl 5:22,23).

Evangelizar é só para quem tem o dom e foi consagrado. Como já vimos, evangelizar é uma obrigação de todo cristão, mesmo que ele não possua o dom de evangelismo nem tenha sido consagrado na sua igreja como evangelista. A sua consagração como ministro do Evangelho ocorreu no momento da sua conversão (1 Pe 2:9,10; Ef 2:10). Isso não impede que a Igreja consagre evangelistas oficialmente, acima de tudo os vocacionados especialmente para este ministério e que possuam o dom de evangelista.

Não é preciso estudar a Bíblia, pois é o Espírito Santo quem falará por nós. Este mito está baseado em Mateus 10:19, que diz: “E, quando vos entregarem, não cuideis com o que haveis de falar, porque, naquela hora, vos será concedido o que haveis de dizer, visto que não sois vós que falais, mas o Espírito de vosso Pai é quem fala em vós”. Todavia, o contexto não é de evangelismo, mas de perseguição e prisão por causa do Evangelho. O crente precisa ler e estudar a Bíblia constantemente para a sua tarefa evangelizadora, como ainda estudaremos. Quando isso falta, começam a surgir os falsos ensinos e as heresias.

É possível evangelizar apenas com o testemunho pessoal. O testemunho pessoal é importante, tanto de uma vida reta diante dos homens como das maravilhas que Cristo operou em nós quando nos convertemos. Mas até mesmo os ateus podem possuir uma vida reta, bem como membros de outras religiões que não conduzem à salvação podem falar de milagres e maravilhas. O cerne do evangelismo deve ser a proclamação do Evangelho de Cristo antes e acima de tudo. O testemunho pessoal funciona apenas como um exemplo daquilo que Cristo operou. Salientando que o testemunho de bênçãos e vitórias não conduz o pecador à conversão, mas a adesão a uma fé que, em sua mente, resolverá todos os seus problemas. Sobre isso ainda falaremos mais profundamente. No módulo três, aprenderemos mais sobre evangelismo e testemunho pessoal.

Não é preciso evangelizar, pois Deus já determinou quem irá para o céu. Embora desde a eternidade Deus saiba quem são os seus, a Palavra deve ser ministrada a todas as pessoas, pois, como já vimos, não podemos saber quem são aqueles que o Espírito Santo converterá. Deus não nos revelou. O evangelista deve pregar a todos sem questionar, pois o mesmo Deus que escolheu quem será salvo, também escolheu a pregação da sua Palavra como o meio de conduzir o pecador à fé em Cristo (Rm 10:9-15). Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas!

A questão do “politicamente correto”. A filosofia reinante no mundo é que devemos respeitar todas as crenças e que nenhuma delas pode se firmar como única e verdadeira. Também se ensina que não existe uma verdade absoluta e que cada um vive da maneira que desejar, de modo que não se pode falar em pecado, céu ou inferno. Embora devamos respeitar as pessoas e suas crenças, a Palavra deve ser pregada, a verdade deve ser ensinada e defendida. Não podemos temer o mundo e suas vãs filosofias, mas pregar com intrepidez a mensagem que o Senhor nos confiou (2 Tm 4:1-5). Outra questão importante: não devemos adequar a mensagem evangélica para que ela fique “politicamente correta” de um ponto de vista mundano. O conteúdo da nossa pregação deve ser sempre “cristologicamente correto”.

Todos os caminhos conduzem a Deus. Como resultado do mito anterior, existe a crença equivocada de que todos os caminhos conduzem a Deus. Isto é: todas as religiões são legítimas, pois pretendem ligar o homem a Deus, cada qual do seu modo, mas o fim é o mesmo. Veja, por exemplo, o que diz o conteúdo de uma foto encontrada na Internet: “A minha religião não arrebanha fiéis porque não acredita que é melhor que a sua religião, respeita sua livre vontade de escolha, tem a plena convicção de que todas as religiões levam ao mesmo destino, ao mesmo Deus, embora por caminhos diferentes...” (Fabinho Ishio, Dos Samurais aos Orixás). Isso é uma terrível mentira que o evangelista não pode comprar. Existe apenas um Deus e Salvador (Is 43:11; 45:21), um único caminho que conduz a Ele, Jesus (Jo 14:6); e uma única fé (Ef 4:5). Não é arrogância dizer que somente a fé cristã é a verdadeira, legitimada pela Palavra infalível de Deus.

A missão do evangelista é saquear o inferno. Uma expressão que está se tornando muito comum atualmente no mundo evangélico é “saquear o inferno”. Apesar de pretender demonstrar uma aparente fé poderosa em Deus, essa expressão mais demonstra arrogância e ignorância com relação à missão da Igreja e às Escrituras. Esse pretenso saque se dá, muitas vezes, por meio do desrespeito e da intolerância religiosa, contando até mesmo com a invasão de locais de culto de outras religiões. Todavia não é isso que a Bíblia ensina. Em primeiro lugar, evangelizar é uma atitude de amor e misericórdia, com a mesma mansidão que o Senhor pregou o Evangelho. Isso envolve respeito para com os fiéis de outras crenças e atitudes condizentes com o caráter santo do povo de Deus. Em segundo lugar, a missão da Igreja não é “saquear o inferno”, mas pregar as boas-novas que impedem que o pecador penitente vá para lá.  Em terceiro lugar, aqueles que são de Deus já estão destinados ao céu, de modo que ninguém está tirando ninguém do inferno. Em quarto lugar, aqueles que estão destinados para a Ira não terão outro destino que não o inferno, não havendo nada que possamos fazer para mudar isso, pois o Senhor já o decretou. A nossa missão é só uma: pregar o Evangelho, apenas isso. Leia Romanos 9 e Efésios 1.

A culpa é nossa! Alguns apelos para o envolvimento evangelístico visam comover os crentes e fazê-los se sentirem culpados pelas pessoas que diariamente morrem sem ouvir o Evangelho. Uma situação parecida com o apelo católico romano na época da Reforma, culpando os fiéis pelos tormentos das almas dos seus parentes e amigos que sofriam no purgatório. Em suma, a mensagem transmitida culpa os crentes pelas almas que vão para o inferno, afirmando que elas poderiam ter ido para o céu se tivessem sido evangelizadas; portanto a culpa é da Igreja, do crente que não evangelizou. Embora este estudo ressalte a importância de pregar o Evangelho para que o perdido conheça a Cristo e seja reconciliado com Deus, acusar os crentes pela danação eterna dos perdidos é mentiroso e antibíblico. Um dos textos utilizados para este mito é Ezequiel 3:17-19, onde o Senhor diz ao profeta: “Filho do homem, eu te dei por atalaia sobre a casa de Israel; da minha boca ouvirás a palavra e os avisarás da minha parte. Quando eu disser ao perverso: Certamente, morrerás, e tu não o avisares e nada disseres para advertir do seu mau caminho, para lhe salvar a vida, este perverso morrerá na sua iniquidade, mas o seu sangue da tua mão o requererei. Mas se avisares o perverso, e ele não se converter da sua maldade e do seu caminho perverso, ele morrerá na sua iniquidade, mas tu salvaste a tua alma”.

            Entretanto, existem algumas observações importantes que devem ser feitas. Primeira: o contexto de Ezequiel não é um contexto evangelístico, mas do ministério do profeta, responsável por transmitir ao povo as palavras de Deus. Como atalaia de Deus, ele deveria pregar para que o perverso se convertesse e o justo não se desviasse. Entretanto, a punição do profeta não seria pelo pecado cometido pelo povo, mas por sua omissão em não exercer a sua vocação profética e ocultar do povo a vontade de Deus que poderia libertá-lo. Segunda: a Palavra de Deus afirma que todos pecaram e carecem da glória de Deus, de modo que são indesculpáveis e prestarão contas do seu próprio pecado (Rm 3:23; 14:12; 2 Co 5:10; 1 Pe 4:5). A palavra que pode salvar ou condenar já foi transmitida e está escrita na Bíblia (1 Co 1:18; Jo 3:16,36). Terceira: Deus conhece os que são seus, e estes de modo algum morrerão sem que o Espírito Santo os convença do pecado e os converta (Jo 6:37-39,65; 17:6-9,24; 10:28,29). Se eu não pregar, outro pregará. De alguma forma o Evangelho o alcançará, o que só ressalta a importância da evangelização. Quarta: aqueles que não possuem seus nomes escritos no Livro da Vida, de modo algum se converterão, mas morrerão na incredulidade, negando a Cristo, seja por suas palavras ou por suas ações. Quando o perdido morre sem Jesus, a culpa não é de quem não evangelizou, mas apenas sua. Como veremos no capítulo 10, nem todos crerão. A salvação é individual; a condenação, também. A fé em Cristo livra o pecador da ira de Deus (1 Ts 1:10); a rejeição a Cristo faz com que ele permaneça sobre esta ira (Jo 3:36).

Mizael  Xavier

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quinta-feira, 4 de maio de 2017

BÍBLIA: ENCONTRAR O EQUILÍBRIO OU BUSCAR A VERDADE?




A palavra “equilíbrio” é um substantivo masculino que expressa harmonia, estabilidade e solidez. Relacionado às leis da física, o equilíbrio se mostra como o estado do sistema cujas forças que sobre ele agem se contrabalançam e se anulam de maneira mútua. Um corpo que se encontra estável é desprovido de oscilação ou desvio. Ele é, também, uma força que age de maneira igual entre duas ou mais coisas (ou pessoas). No meio financeiro existe equilíbrio entre os lucros e os gastos. Em sentido figurado, o equilíbrio pode ser a propriedade ou estado daquilo que permanece estável (constante); também está relacionado ao equilíbrio de oportunidades de trabalho. Não somente os corpos e os sistemas possuem equilíbrio, mas também as pessoas:  comedimento emocional, estado mental estável e autocontrolado. Todavia, aos dicionários não compete explicar como se dá esse equilíbrio, que forças são necessárias para que algo ou alguém encontre a sua harmonia, estabilidade e solidez. O que precisa ser acrescentado? O que precisa ser tirado? É possível manter-se todos os elementos igualmente equilibrados para que haja essa harmonia? Quem ou o que decidirá isso? Diferentemente dos objetos sólidos inanimados, os seres humanos agem sobre o seu meio, não apenas sofrem a ação dele. Eles reagem às tentativas de manter-se ou tirar-se o seu equilíbrio. Embora o seu corpo possa estar estável, não se pode afirmar o mesmo da sua mente e do seu coração. Definir um indivíduo mentalmente equilibrado pode significar afirmar que a sua loucura e a sua lucidez estão sob controle e que ele é capaz de manter-se firme com ambas as forças atuando dentro de si. Novamente a pergunta: quem decidirá o ponto de equilíbrio? O que para uns pode parecer loucura ou extremismo, para outros pode significar seu modo natural de agir, muitas vezes respaldado pela sua própria cultura, suas crenças e valores.
No campo do conhecimento humano, quando falamos em buscar um equilíbrio a respeito de determinado assunto, estamos nos referindo a encontrar um ponto que não se situe em nenhum extremo. Pensemos em um tema qualquer como sendo uma balança: o equilíbrio só pode ser mantido quando os dois lados da balança estão iguais, isto é, não existe uma tendência de se pesar um lado em detrimento de outro. O que se busca é equilibrar os pontos de vista e as práticas a respeito desse tema sem que nada se perca no processo, mas que tudo seja validado para ambos os lados e assim se mantenha o equilíbrio. Tomando como exemplo o amor, pode-se afirmar que ele não deve ser ofertado de maneira exagerada nem em porções mínimas, mas de forma equilibrada. Contudo, não há quem possa nos dar a certeza onde se encontra esse ponto de equilíbrio. O que é amar demais? O que é amar de menos? Quando podemos saber que exageramos ou que nos doamos insuficientemente? Qual será o fiel da balança? O mesmo pode-se dizer do ódio. Não existe ódio com uma pitada de amor ou vice-versa. Os dois não comungam, não compactuam, não se completam. O ódio é a ausência do amor, como a mentira é a ausência da verdade e o mal é a ausência do bem.
Mas será mesmo que existe algum equilíbrio ou pelo menos que em tudo este equilíbrio deve ser buscado? Pode ser que a nossa busca por equilibrar alguns conhecimentos e práticas esteja ligada à filosofia reinante no mundo pós-moderno de que não existe uma verdade absoluta ou um conceito final a respeito de qualquer coisa, mas tudo é relativo e isento de uma concepção totalmente acabada. Aquilo que é verdade para alguns, pode não ser para outros; aquilo que para uns é certo, para outros pode ser errado; e o que é considerado como bem aqui, mais adiante pode se revelar um grande mal. De acordo com MacArthur (2008, p. 39), “o pós-modernismo é marcado por uma tendência de repudiar a possibilidade de qualquer conhecimento seguro e sólido acerca da verdade” (itálicos do autor). Se a verdade objetiva existe, ela jamais poderá ser conhecida verdadeiramente, porque a objetividade é uma ilusão. Aquele que pretende proclamar um conhecimento suficiente a respeito de alguma verdade é reputado como arrogante e ingênuo. A verdade de cada um é que irá decidir, e esse é um direito que não pode ser suprimido. Isto envolve a moralidade. Não existe uma ética, mas diversas éticas que variam de acordo com os valores e as crenças relativistas de cada pessoa. Mentir, matar, adulterar, furtar, ludibriar, corromper são conceitos subjetivos que irão se adequar às circunstâncias sem jamais se configurarem como bons ou maus hábitos.
Buscar o equilíbrio pode ser a ideia disfarçada de que não existe uma verdade absoluta. O que se está afirmando na verdade é que podemos ficar com os dois lados da balança, sem desprezar nenhum. Isto é, podemos suportar opiniões contrárias às nossas para que mantenhamos o equilíbrio e não pendamos para nenhum dos lados, sob o risco de sermos taxados de “extremistas”. Ou ainda pior: um conhecimento ou prática pode comportar diversas verdades e ainda assim se manter íntegro, sem que em algum momento essas verdades se choquem, ainda que contrárias umas às outras. Logo, na justiça poderá haver um grau de injustiça, na verdade poderá haver um pouco de mentira, a legalidade poderá conter uma certa ilegalidade. O equilíbrio entre ideias e forças não comporta a verdade bíblica, onde, por exemplo, o bem e o mal são excludentes, assim como o certo exclui o errado e a verdade exclui a mentira. Do ponto de vista de Deus, não apenas existe a verdade absoluta, como ela é eterna e imutável. E esta verdade é Ele mesmo, como afirmou o Senhor Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14:6). Ou como João declarou a respeito de Cristo: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1:14).
Se cremos em Deus e na sua Palavra, não estamos buscando algum equilíbrio, mas a verdade existente em todas as coisas. Não há como equilibrar ideias e ações, tornando todos os lados da balança aceitáveis. Existe apenas uma maneira verdadeiramente correta de entender tudo. A busca pelo equilíbrio pertence àqueles que não aceitam a verdade absoluta de Deus e da sua Revelação. Em Deus, o certo sempre será certo, o bem sempre será bem e a verdade sempre será verdade. Do mesmo modo, o errado, o mal e a mentira também serão absolutos. Aqueles que buscam o dualismo ou o equilíbrio por trás de todas as coisas, negam a autoridade de Deus e da sua Palavra e admitem que as Escrituras possam conter erros ou estão sujeitas à diversas interpretações. Este é o primeiro passo para a formação de heresias e o caminho seguro para a apostasia. Negar a verdade absoluta de Deus é negar o próprio Deus. Aceitar que haja interpretações diversas e “equilibradas” na sua revelação é ir contra a sua soberania e sua sabedoria eterna. A Palavra de Deus é viva e eficaz e nada deixa às escondidas (Hb 4:12,13). Essa Palavra deve ser anunciada em sua integralidade (2 Co 2:17). A ministração da verdade exclui as coisas que de tão vergonhosas ficam em oculto, de forma plena, jamais adulterada, de modo que haja boa consciência diante de Deus (2 Co 4:2). Os dualismos e os relativismos pertencem aos perdidos, àqueles que não obedecem à verdade, que têm cego o seu entendimento e são impedidos de conhecer plenamente o Evangelho da glória de Cristo (2 Co 4:3-5).
O apóstolo Paulo escreveu aos crentes de Corinto que nada podemos contra a verdade, senão em favor da própria verdade (1 Co 13:8). A crença correta sempre levará a práticas igualmente corretas. Se as crenças forem relativas, que tipo de práticas produzirão? Tiago escreveu: “Quem entre vós é sábio e inteligente? Mostre em mansidão de sabedoria, mediante condigno proceder, as suas obras” (Tg 3:13). A verdade está em guardar os mandamentos (1 Jo 2:4). Todavia, como guardar os mandamentos de Deus se ao invés de buscarmos a verdade que há neles buscarmos o equilíbrio? Se o conhecimento da verdade traz libertação, como afirmou o Senhor Jesus, em João 8:32, como poderemos ser libertos se não cremos numa verdade única e absoluta, mas no equilíbrio entre verdades? Conforme escreveu o salmista, as palavras de Deus são verdade desde o princípio (Sl 119:160). Não alguma verdade ou o equilíbrio de ideias e conhecimentos a respeito de Deus e do mundo, mas a verdade em seu sentido pleno e absoluto, que comporta criações, revelações, decretos, mandamentos e promessas divinos. Tudo o que foi escrito a respeito de Deus e tudo o que Deus quis nos revelar faz parte de uma verdade eterna e irrevogável, que não pode ser diminuída, acrescida ou relativizada. As coisas ou são ou não são, ou podem ou não podem. Não há equilíbrio, apenas a boa, perfeita e agradável vontade de Deus (Rm 12:2).
Está bastante claro na Bíblia que devemos buscar a verdade, não o equilíbrio. Se isso é verdade para um tipo de conhecimento ou prática, o será para todos os conhecimentos e práticas. Não existem uma crença ou uma doutrina equilibradas. Existem uma crença e uma doutrina verdadeiras. Com relação ao alimento que fortalece o corpo é possível mantermos uma dieta equilibrada, onde mesmo os alimentos que engordam podem ser consumidos em pequenas porções diárias. Todavia, com relação ao alimento que fortalece a nossa alma não existe uma dieta balanceada: é preciso consumir tudo, com todas as suas vitaminas, em grandes porções, sem menosprezar absolutamente nada. A Palavra de Deus deve ser crida, compreendida, aceita, pregada e vivida na íntegra, como está na Bíblia. E só existe uma única verdade para cada uma das suas verdades. Não há uma visão “equilibrada” a respeito da salvação: ela é exclusivamente pela graça e não comporta outro elemento (Ef 2:8,9); da divindade de Cristo: Ele é o verdadeiro Deus e a vida eterna (1 Jo 5:20); da Trindade: ela está claramente expressa na Bíblia (p. ex. 1 Jo 5:7); da soberania de Deus: somente Ele é soberano, não há outro (Dt 10:17; Dn 7:27; Sl 72:1-7); da eleição: ela é de acordo com o conselho da vontade de Deus (Rm 9; Ef 1:4-12). Também da fé, da oração, das últimas coisas, da santidade, da natureza da Igreja, de missões, do inferno, do bem, do mal, do pecado, dos dons do Espírito ou qualquer outra doutrina bíblica. Existe apenas uma “única” verdade para cada uma delas. E esta verdade está na Bíblia, esperando ser lida e conhecida.
Assim como a nossa crença deve ser ortodoxa, fundamentada totalmente na Palavra de Deus, aliada à verdade absoluta e jamais relativista, também a nossa prática de vida não pode comportar o dualismo, o relativismo. Uma vida santa, por exemplo, só pode ser vivida de acordo com a santidade de Deus e nela não existe um meio termo, não há o “equilíbrio”, há o “absoluto”. Ou a pessoa está em trevas ou está na luz, pois ela não pode servir às duas circunstâncias, não pode comportar um aspecto de cada uma. O Senhor Jesus declarou: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mt 6:24). Não existe uma forma de equilibrar nosso amor por Deus com o amor pelas riquezas: quando escolhemos um, estamos automaticamente desprezando o outro. Da mesma forma não existe equilíbrio entre andar no Espírito e andar na carne. Quem anda no Espírito, não satisfaz os desejos da carne; quem anda na carne, não poderá ser cheio do Espírito (Gl 5:16-26). Não é possível buscar um ponto de equilíbrio entre os feitos pecaminosos carnais e os frutos do Espírito: ambos são excludentes (Gl 5:19-24).
Embora a maioria dos cristãos não-protestantes busque o equilíbrio entre crer e servir a um único Deus e adorar as imagens de escultura, aplicando a essa atitude o termo “veneração”, está claro que quando optamos por crer e adorar ao único e verdadeiro Deus, todos os demais tipos de crenças e adoração são destruídos. A idolatria está como a causa principal do cativeiro babilônico do povo de Israel. Além de desprezarem os estatutos e as alianças de Deus com seus pais, eles enveredaram pelas práticas das outras nações, fazendo aquilo que era abominável perante o Senhor. Em 2 Reis 17:16 lemos: “Desprezaram todos os mandamentos do Senhor, seu Deus, e fizeram para si imagens de fundição, dois bezerros; fizeram um poste-ídolo, e adoraram todo exército do céu, e serviram a Baal”. O povo de Deus feriu o primeiro e maior mandamento de amar e adorar a um único Deus, Jeová (Dt 5:6-10). O princípio do erro está em desprezar os mandamentos de Deus. A partir daí, todos os demais pecados eclodem. Não há um ponto de equilíbrio na fé: ou ela está totalmente em Deus ou está totalmente fora dele. Não podemos comer na mesa de Deus e na mesa dos demônios. Quando tomamos um cálice, jogamos fora o outro (1 Co 10:20-22). Ou seguimos o conselho dos ímpios e sentamos na roda dos escarnecedores ou temos prazer e meditamos na Lei do Senhor (Sl 1). Deus nos chama a fazer uma escolha: temer ao Senhor e servi-lo com integridade e com fidelidade, jogando fora tudo que nos conduz à idolatria ou permanecer servindo a outros deuses. A escolha sensata nos levará a afirmar como Josué: “Eu e a minha casa serviremos ao Senhor” (Js 24:14,15), ou a declarar como o povo: “Longe de nós abandonarmos o Senhor para servirmos a outros deuses” (v. 16).
Também não é possível buscar um equilíbrio na manifestação da nossa espiritualidade diante dos homens. A quem devemos agradar? A quem devemos dar a verdadeira satisfação? Os fariseus buscavam o louvor dos homens, oravam, davam esmolas e jejuavam publicamente com o fim de serem apreciados e aclamados pelos homens. Fazendo isso, eles não estavam rendendo glórias a Deus e as suas atitudes eram reprováveis, como afirmou o próprio Senhor Jesus no Sermão do Monte (Mt 6:2-4,5-8,16-18). Ou recebemos a recompensa dos homens ou de Deus, não existe equilíbrio (cf. 6:1). O apóstolo Paulo escreveu aos gálatas: “Porventura, procuro eu, agora, favor dos homens ou de Deus? Ou procuro agradar a homens? Se agradasse ainda a homens, não seria servo de Cristo” (Gl 1:10). O Evangelho que Paulo pregava não era segundo o homem, mas mediante a revelação de Jesus Cristo (vs. 11,12). Atualmente, todavia, muitos pregadores têm buscado um equilíbrio entre o que Deus fala nos evangelhos e o que as pessoas esperam ouvir; entre as doutrinas bíblicas e os desejos do homem. Isto é: uma “visão equilibrada” da Palavra de Deus permite que ela se adéque aos anseios e projetos humanos, sem que ambos deixem de lado as suas prerrogativas, o que não somente é impossível como também é uma heresia demoníaca. Contra tais pregadores, o próprio Paulo lavra a sentença: anátemas, isto é, malditos, amaldiçoados (1:6-9).
O apóstolo João não conseguia encontrar equilíbrio entre dois inimigos declarados: Deus e o mundo. Quem ama um, despreza o outro (1 Jo 2:15,16). O liberalismo teológico busca uma forma de adequar a verdade bíblica às demandas modernas, buscando uma teologia que consiga responder aos anseios mundanos, conformando-se aos padrões de um mundo corrompido pelo pecado. Para isso ser possível, é preciso abraçar a filosofia pós-moderna relativista e abrir mão da veracidade das Escrituras Sagradas como Palavra inspirada de Deus suficiente, inerrante e infalível. O objetivo claro é absorver apenas aquilo que for do interesse do indivíduo, desprezando todo o resto, como fazem os ativistas gays, que retiram das Escrituras os textos que não compactuam com sua prática homossexual. Tiago, então, declara: “Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4:4). Portanto, um equilíbrio entre o mundo e Deus não é possível: o mundo precisa ser impregnado por Deus para abandonar-se a si próprio. De igual modo, o crente não deve equilibrar a sua vida entre à escravidão ao diabo e a sujeição a Deus. Quando nos sujeitamos a Deus, o diabo foge de nós (Tg 4:7).
A Bíblia não nos chama a uma vida equilibrada, mas íntegra. O Senhor Jesus deixa isso bastante claro ao afirmar: “Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco também é injusto no muito” (Lc 16:10). Não existe equilíbrio algum entre fidelidade e injustiça, mas a possibilidade de haver uma exclui a outra. O cristão que vive retamente pende para o lado da fidelidade e da justiça, não deixando espaço para sentimentos contrários, de modo a buscar um equilíbrio nas suas ações, como fizeram Ananias e Safira ao mentirem para o Espírito Santo (At 5:1-11). A integridade promove segurança (Pv 10:9) e mantém o cristão firme diante das investidas do mundo, da carne e do diabo. O ponto crucial é não se dobrar àquilo que Deus desaprova crendo que poderá arranjar alguma brecha para justificar pecados. Ao enviar Tito para cuidar da arrecadação da oferta dos coríntios aos crentes pobres de Jerusalém, o apóstolo Paulo desejava manter a integridade do seu ministério e da verdade, não cedendo espaço para quaisquer dúvidas e desconfianças (2 Co 8:16-24). Paulo não buscava equilíbrio entre as suas ações diante de Deus e aquilo que era feito na frente dos homens, como se fosse possível usar dois pesos e duas medidas e mentir para Deus (Pv 20:10). Ele escreveu: “pois o que nos preocupa é procedermos honestamente, não só perante o Senhor, como também diante dos homens” (v. 21). A honestidade não pode ser negociada nem estar aberta a “deslizes justificáveis”. A própria natureza da palavra “íntegro” (inteiro) já demonstra o tipo de caráter que o cristão deve manifestar em todas as suas ações, evitando o mal testemunho e as calúnias (1 Pe 3:16).
Nas recomendações finais de sua epístola, o autor de Hebreus pede aos irmãos oração, pois se sentia persuadido a ter boa consciência, desejando em todas as coisas viver condignamente (13:18; “portar-se honestamente”, ARC). A honestidade não pode comportar outra coisa senão a honestidade. Aquele que é honesto não promove a injustiça, não se apropria de nada alheio, fala a verdade e é confiável. Escrevendo aos crentes de Filipos, o apóstolo Paulo apresenta uma lista de valores absolutos que deveriam fazer parte do pensar e do agir daqueles irmãos: verdade, respeitabilidade, justiça, pureza, amabilidade, honradez, virtude e louvor (Fp 4:8). Ele admoesta: “O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso praticais; e o Deus de paz será convosco” (v. 9). Paulo conclama os irmãos a agirem de maneira íntegra, cultivando os valores e virtudes que conduzem à paz com Deus. São valores absolutos. Aquele que anda na verdade, não compactua com a mentira. Quem é respeitável, não pode viver de outra forma. Uma pessoa justa não age com iniquidade. Uma vida equilibrada seria pesar de um lado da balança a impureza e do outro a pureza, buscando o equilíbrio entre ambas. Uma vida reta, íntegra, retira da balança a desonra e permite que somente a honra se faça presente. O que foi aprendido, recebido, ouvido e visto deve compor de forma plena o caráter do cristão, deve fazer parte do seu estilo de vida, jamais cedendo qualquer espaço para atitudes contrárias. Não é um pouco disso e um pouco daquilo, mas os valores eternos e imutáveis da Palavra de Deus em sua integralidade.
A maneira como cremos e a forma que vivemos revelarão quem de fato somos. Jesus afirmou que a árvore se conhece por seus frutos (Lc 6:43-45; Mt 7:22-27). Embora muitos se afirmem cristãos, seguidores de Jesus, alguns demonstram, por suas crenças e suas práticas, que não são quem dizem ser. Isso está claro na Bíblia ao se referir a respeito dos falsos mestres, falsos profetas, falsos apóstolos e o anticristo (cf. Mt 7:15-23; 24:4,5, 24:23-26; Gl 1:6-8; 2 Co 11:3,4,13-15; 2 Ts 2:3,4,8-10; 2 Pe 2:1-22; Jd 1:1-23). Podemos perceber em todos esses textos que a crença incorreta produz práticas igualmente incorretas. Aqueles que não acreditam nem pregam a verdade, mas buscam equilibrar seus próprios pontos de vista com a Revelação de Deus, geralmente incorrem em erros doutrinários e desvios morais. Para manter esses desvios morais e não permitir que sejam chamados de “desvios”, os pensadores pós-modernos decidiram abrir mão da verdade absoluta ou de qualquer tipo de verdade. Quem poderá dizer que seus atos são imorais se não existe uma moral real? Quem poderá afirmar que as suas práticas são pecaminosas se não existe pecado nem mandamento divino a ser obedecido, pois, a priori, não há Deus? Essa disposição mental para equilibrar as forças e justificar pecados está corroendo como um câncer a doutrina cristã. Em breve alguns adorarão a Besta, outros não. Aqueles que se mantiverem fiéis serão decapitados “por causa do testemunho de Jesus, bem como por causa da Palavra de Deus” (Ap 20:4). Eles não buscaram equilíbrio, não se dobraram diante da Besta, mas viveram a verdade absoluta de Deus até as últimas consequências. Quanto aos outros, a parte que lhes coube foi o lago que arde com fogo e enxofre, a segunda morte (Ap 21:8).
Como vimos nestes poucos exemplos, o cristão não deve buscar uma doutrina equilibrada a respeito de nenhum ponto da sua fé, mas a verdade única e absoluta em cada doutrina que a Bíblia apresenta. Da mesma forma, o seu estilo de vida precisa ser íntegro, de acordo com a verdade que ele professa crer. A Palavra de Deus é o prumo seguro da verdade, da fé e da moral. O que ela afirma é verdadeiro e digno de confiança. Não podemos ou não fazer algo: ou podemos ou não podemos. E quando escolhemos um, o outro é excluído. Um exemplo está em Deuteronômio 30:19, onde Deus declara: “Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te propus a vida e a morte, e bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência”. Está explícito que escolher a morte não traria vida, como escolher a maldição não traria bênção. Não é possível, também, crer ou não em Deus. Aquele que se aproxima dele, segundo escreve o autor de Hebreus, deve crer que Ele existe e que se torna galardoador daqueles que o buscam (11:6).
O jovem rico descobriu que não poderia haver qualquer equilíbrio entre seguir a Deus e continuar apegado aos seus bens materiais. Ele, na verdade, buscava fazer as duas coisas: cumprir os mandamentos de Deus, mas com o coração voltado para este mundo e para as suas riquezas que, no final das contas, se mostraram muito mais importantes que a sua fé (Mt 19:16-22). Após o jovem se retirar triste, o Senhor declarou que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus, de modo que os discípulos se maravilharam, dizendo: “Sendo assim, quem pode ser salvo” (vs. 23-25), ao que Jesus respondeu: “Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível” (v. 26). De fato, o que Jesus demonstra nesse episódio é que a salvação não é por aquilo que fazemos (seguir os mandamentos, abrir mão de tudo), pois assim é impossível alcançar o céu. A salvação é pela graça de Deus, não pelos nossos próprios esforços ou nossa vã religiosidade. Desse modo, até o rico avarento pode ser salvo, porque quem operará na vida dele é o Espírito Santo. Não há um equilíbrio entre a nossa busca por Deus e a busca de Deus por nós. É ele e somente Ele quem trabalha em todo o processo da salvação (cf. Os 11:1-5).
Não devemos abrir mão da verdade absoluta em nenhuma circunstância. É ela que configura a nossa fé em Deus e determina a prática dessa fé. Quando tentamos buscar um equilíbrio entre crenças e práticas, fatalmente estamos desprezando a verdade revelada de Deus e a sua própria natureza santa e perfeita. Escolher este ou aquele elemento para compor a nossa fé significa abrir mão de outros igualmente importantes. Mais que isso, essa tentativa de equilibrar doutrinas e práticas nos conduz à mentira, porque o produto que teremos em mãos não será a fé verdadeira, mas uma versão distorcida engendrada pelo nosso pecado. A Teologia da Prosperidade é expert em utilizar apenas os versículos que, de acordo com a sua interpretação, demonstram que o cristão deve viver uma vida isenta de sofrimento e financeiramente próspera, que isso é um direito seu, afirmando, inclusive, que o fiel de Deus não adoece. Por outro lado, eles rejeitam e não pregam a respeito de textos que demonstram claramente como os homens de Deus sofreram enquanto estavam na terra, como o capítulo onze de Hebreus, os sofrimentos de Paulo pelo Evangelho e até o exemplo de Jesus Cristo. A busca pelo equilíbrio teológico culmina na criação de falsos ensinos e heresias. O que Deus espera de nós não é o equilíbrio, como dissemos, mas uma teologia genuinamente bíblica, forjada na correta exegese da sua Palavra, isenta de pressupostos humanos tendenciosos. Ele também deseja a integridade do caráter, uma vida reta e santa baseada na sua Palavra, totalmente isenta das inclinações da nossa carne e impregnada com a ação poderosa do Espírito Santo. Em todas as coisas, seja Deus verdadeiro, e mentiroso, todo homem (Rm 3:4).


04.07.2017

Mizael  Xavier

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sábado, 15 de abril de 2017

JOÃO 3:16 - POR QUE DEUS AMOU O MUNDO?

JOÃO 3:16: POR QUE DEUS AMOU O MUNDO? (Texto revisado)
Mizael de Souza Xavier

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16).


INTRODUÇÃO

João 3:16 é o versículo mais decorado pelos cristãos. Todavia, poucos pregam sobre ele e menos pessoas ainda compreendem seu real significado. A bem da verdade, João 3:16 é um resumo fiel de toda a Escritura, da Revelação de Deus para a redenção do pecador. É preciso analisar melhor todo o conteúdo desse versículo para apreendermos a profundidade das verdades que Deus tem para nos ensinar. Para compreendermos melhor João 3:16 temos que transformar a sua afirmação em uma interrogação: Por que Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna? O que motivou esse amor sacrificial de Jesus?

A falta de compreensão este versículo pode levar a inúmeras ideias equivocadas a respeito de Deus e do seu amor, bem como a respeito daqueles que são alvos deste amor. Na teologia contemporânea, encontramos um Deus cujo atributo divino "amor" está totalmente desvinculado de seus demais atributos, como Santidade e Justiça. Isso torna o amor de Deus permissivo, complacente e tolerante em relação ao pecador e ao seu pecado. Por outro lado, o ser humano é apresentado como aquele coitadinho, a vítima dos males do mundo, que precisa do amor do Pai para ser feliz. Como veremos, essas teologias equivocadas escondem a verdade e impedem que começamos o verdadeiro Deus e o verdadeiro amor de Deus, que vem acompanhado de justiça e de juízo.

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O ESPÍRITO SANTO E A GRAÇA

Quando lemos qualquer texto bíblico, não podemos tomá-lo de maneira isolada, mas devemos levar em conta o seu contexto imediato e o que ele significa no contexto de toda a Escritura e seu ensino geral. Como se diz: texto fora do contexo é pretexto para uma heresia. O texto de João 3:16 está dentro de um contexto específico: a visita de Nicodemos e a declaração inicial de Jesus: “se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (v. 3). A conversa entre Jesus e Nicodemos é a mais importante e reveladora do Novo Testamento. Jesus está falando de novo nascimento, de regeneração, que somente o Espírito Santo pode efetuar na vida do pecador. Nascer de novo (gr. anothen, oriundo do alto, de cima), significa literalmente “nascer do alto”, indicando o caráter estritamente divino do novo nascimento, da regeneração.

A graça de Deus está presente nesse diálogo, retirando do homem toda possibilidade de cooperação com a obra da salvação, que se dá exclusivamente pela atuação do Espírito Santo (Efésios 2:8,9; João 16:7-11). Existem aqui duas situações apresentadas pelo Senhor: aquele que nasceu da carne e aquele que nasceu do Espírito. Além de uma referência ao nascimento natural, quando todos nascem mortos em seus delitos e pecados, carentes da glória de Deus (Romanos 3:23; Efésios 2:1), podemos ver uma referência à lei e à graça (Romanos 5:21; 6:18:22; 7; 8:1-3; 1 Coríntios 15:45; Gl 2:19; 5:25; João 6:62,63; 2 Coríntios 3:6; 1 Pedro 3:18). Em Romanos 8:1,2, o apóstolo Paulo diz: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte”.

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Nos vs. 5 a 7, o Senhor Jesus fala a respeito do novo nascimento, que é a regeneração. Se não houver conversão a Deus pela fé em Jesus Cristo, não há novo nascimento e, consequentemente, não há salvação e a alma perecerá (1 Coríntios 13:11; 2 Coríntios 5:17; Romanos 6:4-6; 7:6; 8:9,10; Gálatas  6:15; Efésios 2:10; 4:22-24; Hebreus  8:13; Filipenses 3:1-10). No v. 8, Ele diz: "O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito". Logo, o novo nascimento é uma obra do Espírito Santo, que salva quem Ele quer, porque não está sujeito ao nosso controle. Aquele que é nascido do Espírito Santo não salvou a si próprio, não convenceu a si mesmo dos seus pecados, não produziu sua própria fé, não abriu seu próprio túmulo espiritual. A obra da regeneração é de total responsabilidade do Espírito Santo, da graça de Deus que, de forma soberana, atua na mente e no coração do incrédulo para salvá-lo.

A confusão de Nicodemos e a explicação de Jesus (vs. 9-12) traduz bastante o que o apóstolo Paulo escreveu aos crentes de Corinto: "Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente" (1 Coríntios 2:14). Ainda hoje, a mensagem da cruz é loucura para aqueles que se perdem, mas poder de Deus para os que são salvos (1 Coríntios 1:18-25). E é sobre a cruz e o seu sacrifício vicário que o Senhor fala a Nicodemos: "E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna" (vs. 14,15). A serpente levantada por ordem de Deus, curava aqueles que tinham sido picados por cobras venenosas no deserto. Não o objeto em si, mas a confiança na promessa de Deus. Ela era um tipo de Cristo (João 8:28; 12:32) e apontava para a centralidade da cruz de Cristo na pregação e na vida da Igreja.

Não existe salvação nem cristianismo sem cruz. A mensagem dos apóstolos era baseada no Deus crucificado, o que para o mundo era um escândalo (1 Coríntios 1:22-24). Quem não crê na mensagem da cruz não pode ser salvo (1 Coríntios 1:18-21). Então o Senhor chega ao ápice da sua conversa com Nicodemos ao mostrar a sua morte vicária na cruz como a única esperança para os pecadores: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (v. 16). Para a maioria das pessoas que conhecem este versículo e se fiam na esperança que ele nos traz, parece não existir um sentido que está implícito neste versículo e que se revelará nos versículos seguintes: o que será daqueles que não crerem? Quando conseguimos ir além do versículo 16, descobrimos a verdade completa, como veremos a seguir.

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LIÇÕES IMPORTANTES DE JOÃO 3:16

Tendo em vista essa introdução e o contexto, podemos começar a responder a nossa pergunta inicial: “Por que Deus amou o mundo?” João 3:16 nos apresenta importantes lições a respeito do amor de Deus pelo mundo pecador e da nossa salvação.


LIÇÃO 1: Deus não tolera o pecado

João 3:16 não mostra apenas o amor de Deus, mas revela a sua intolerância com relação ao pecado do mundo. Deus amou o mundo e não o pecado do mundo, com seus sistemas de valores que geram morte. O pecado diz respeito à transgressão, rebelião e insubordinação, violação da Lei, hostilidade contra Deus e a sua Palavra, traição e abominação. Deus não tolera o pecado. O amor de Deus não o torna um ser complacente e permissivo. Este amor é regido por princípios morais eternos e imutáveis expressos na sua Palavra. E se Deus não tolera o pecado, também não tolera aquele que pratica o pecado, chamado de ímpio na Bíblia, que não tem lugar na presença de Deus.

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LIÇÃO 2: Precisamos ser regenerados

A resposta à nossa pergunta inicial é: “Todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3:23). Deus enviou o seu Filho ao mundo porque somos pecadores, porque tínhamos uma dívida impagável para com Ele e porque somente a morte do Cordeiro de Deus poderia pagar essa dívida e nos tornar de novo agradáveis a Deus, reconciliando-nos com Ele. Conforme vemos em Romanos 8, todos somos pecadores, totalmente depravados, seduzidos pelo mal, inclinados ao erro e sem Deus neste mundo. Paulo escreveu aos Efésios que Deus nos deu vida quando estávamos mortos em nossos delitos e pecados (Efésios 2:1). Aos romanos, ele escreveu: "Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores" (Romanos 5:8). Com tudo isso concorda o apóstolo João: "Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” (1 Jo 4:10). 

O que é a regeneração? A regeneração é outro termo utilizado para nos referirmos a esse novo nascimento. Ela parte da necessidade que o homem caído tem de voltar a viver, de reverter o quadro de morte causado pela Queda. Essa regeneração é operada por Deus e pode ser vista já no Antigo Testamento: "Dar-lhes-ei um só coração, espírito novo porei dentro deles; tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei coração de carne; para que andem nos meus estatutos, e guardem os meus juízos, e os executem; eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus" (Ezequiel 11:19,20). O conceito de regeneração retira dos pecadores toda a sua autojustiça, uma vez que mortos não podem prover vida para si próprios. É necessário que a vida lhes seja dada, que eles, como Lázaro, sejam ressuscitados: "Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente. Crês isto?" (João 11:25,26).

Comparemos o ensino sobre o novo nascimento presente neste texto com João 1:11-13, onde João diz a respeito de Jesus: "Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus". Percebamos que o que concorre para o novo nascimento é a vontade soberana de Deus. Tudo acontece de acordo com seus próprios eternos. Paulo escreve: "Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum! Pois ele diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia" (Romanos 9:14-16).

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LIÇÃO 3: A nossa fé é um dom de Deus

João 3:16 nos remete à eleição para a salvação: Deus nos escolheu e nos predestinou para a salvação de acordo com o “beneplácito da sua vontade”: "assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado, no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça" (Efésios 1:4-7). Para não perecermos, para sermos regenerados, precisamos crer. Mas como um morto pode vir a crer para a salvação? Precisamos entender a natureza dessa fé como um dom de Deus: "Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie" (Efésios 2:8,9).

A redenção é o resultado da busca de Deus pelo pecador, e não o contrário. Jesus afirmou após a conversão de Zaqueu: “Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido” (Lc 19:10). Estamos mortos em nossos delitos e pecados e é impossível que um morto seja capaz de buscar vida para si próprio (Efésios 2:1). Não somente não podemos, como também não queremos (João 5:40).É Deus quem nos chama, quem nos envia até Jesus e quem nos dá a vida. João repete, em sua epístola, o que aprendeu com o próprio Jesus: "Nisto se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele. Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” (1 João 4:9,10).


LIÇÃO 4: Deus nos dá a certeza da nossa salvação

João 3:16 descortina uma grande verdade: o cristão pode ter certeza da sua salvação e a garantia de jamais perdê-la. Quem nele crê "tem a vida eterna". Podemos ver esta certeza em outras partes do Evangelho de João:

"Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus" (3:36).

"Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida" (5:24).

"E a vontade de quem me enviou é esta: que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia. De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia" (6:39,40).

"As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar" (10:27-29).

"Tendo Jesus falado estas coisas, levantou os olhos ao céu e disse: Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que o Filho te glorifique a ti, assim como lhe conferiste autoridade sobre toda a carne, a fim de que ele conceda a vida eterna a todos os que lhe deste. E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste" (17:1-3).

"Quando eu estava com eles, guardava-os no teu nome, que me deste, e protegi-os, e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura" (17:12).

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LIÇÃO 5: Nem todos crerão

Aqui chegamos ao foi dito anteriormente sobre ir além do v. 16, embora o próprio texto de João 3:16 deixe explícito que, se existe um "nele crê", existe um "nele não crê"; se existe um "não pereça", existe um "pereça". Perecer, do termo grego apoletai, significa destruir por completo, perder, arruinar. Está ligado à danação eterna daqueles que morrem sem Cristo, a segunda morte descrita em Apocalipse 2:11; 20:6,14 e 21:8, uma total ausência de esperança e o afastamento eterno de Deus. O Evangelho não traz apenas uma mensagem de salvação, mas também de condenação para aqueles que não creem em Jesus. Paulo afirma em 1 Coríntios 1:18: “Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus”. Em Romanos 1:16, Paulo fala que o Evangelho é poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê. O que ele será para os que não creem?

Nos vs. 17e 18 do capítulo 3 do Evangelho segundo João, o Senhor Jesus diz que não veio para julgar o mundo, pois o mundo já se encontra sob julgamento por causa da Queda, estando sujeito à ira de Deus e ao Dia da sua vingança. Todos somos pecadores. Julgar (gr. krinó), é traduzido em outras versões como “condenar”, o que revela o caráter condenatório do julgamento de Deus sobre os ímpios. O juízo final não será um julgamento para decidir quem vai para o céu e quem vai para o inferno, mas a distribuição da justiça de Deus baseada num julgamento já presente (vs. 19-21). Aqueles que foram ovelhas de Jesus, selados com o Espírito Santo, comparecerão diante de Deus livres de condenação por sua fé (Romanos 8:1,2). Os que não creram em Cristo, comparecerão diante do trono de Deus para serem julgados por uma condenação na qual viveram e morreram. Estes perecerão, recebendo o castigo do inferno, como vimos: a segunda morte (Apocalipse 21:8).

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Por fim, temos o testemunho de João Batista acerca de Jesus e uma declaração bastante realista e que não deixa qualquer dúvida exegética sobre o assunto: "Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus" (João 3:36). Poderíamos até mesclar os dois versículos para resumirmos o conteúdo deste estudo:

"Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus."


CONCLUSÃO

O objetivo de Cristo ao se dar pelo mundo não foi outro senão a glória de Deus. João 3:16 retira o homem do centro e coloca o Senhor Jesus, a mensagem da cruz. A morte vicária de Cristo é a satisfação pelos nossos pecados, ao aplacar a ira de Deus e permitir que sejamos considerados justos diante dele, sendo com Ele reconciliados e glorificados. João 3:16 também nos traz 3 grandes bênçãos:


1. Alegria. João 3:16 traz em si uma fonte inesgotável de alegria para o pecador em saber que Deus o ama, mesmo sendo ele tão miserável e indigno (1 Coríntios 15:19).

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2. Esperança. A mensagem de João 3:16 é uma mensagem de esperança para um mundo desesperado, assegurando-nos que, em Cristo, o juízo da condenação é trocado pela justificação, o pecado é trocado pela justiça, a lei é trocada pela graça e a vida eterna se torna uma realidade para os que creem. Cristo é a esperança da glória (Colossenses 1:27), a certeza de que ressuscitaremos para a vida eterna nos céus (1 Coríntios 15:21,22,56; Romanos 5:1,2; 6:23; Efésios 1:18). Ele ressuscitou!

3. Confiança. Os decretos de Deus geram total confiança nos seus filhos. Eles são eternos de envolvem tudo o que irá acontecer, inclusive a nossa salvação. O sacrifício de Cristo na cruz é a concretização dos decretos eternos de Deus em um dado momento no espaço-tempo e se revelará finais na sua vinda gloriosa (cf. Mateus 25:34; Atos 2:23; Hebreus 1:2; 9:26-28; Romanos 3:25; 16;25,26; Colossenses 1:26; 2 Timóteo 1:9,10).

Se você ainda não aceitou a Jesus como Senhor e Salvador, procure uma igreja cristã, converse com pessoas que possam te orientar sobre essa decisão. Reconheça que é um pecador miserável, que a ira de Deus está sobre você e que seus pecados são uma ofensa a Ele. Arrependa-se e converta-se pela fé em Jesus Cristo. 

Se este estudo edificou a sua vida, compartilhe.

Mizael  Xavier

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sábado, 8 de abril de 2017

A OBEDIÊNCIA COMO RESULTADO DA NOSSA FÉ



OBSERVAÇÃO: Este estudo é parte integrante do meu livro “Os sete barcos de Deus”, no estudo sobre os elementos da fé cristã.

A fé também envolve obediência. Crendo, precisamos obedecer, não agindo como Adão (Rm 1:5). Jesus deixou bem claro que aqueles que o amam, guardam os seus mandamentos (Jo 14:15). Aqueles que foram libertos do pecado vivem para obedecer a Deus de coração (Rm 6:17) e não se deixam enredar pela mentira (Gl 5:7). Seguir a Jesus significa obedecer aquilo que Ele ordenou e guardar a sua Palavra, fazer a sua vontade, imitá-lo. Muitas pessoas estão com um pé na igreja e outro no mundo, orando nos cultos de domingo e frequentado bares durante a semana; louvando a Deus na igreja e ouvindo músicas do mundo em suas casas. Não estamos falando de pecados acidentais dos quais o cristão verdadeiro se arrepende amargamente no Senhor por ter sucumbido, mas de um estilo de vida pecaminoso que em nada lembra o caráter de Cristo, de vícios e manias que não deveriam fazer parte da vida cristã, incluindo palavrões. Se obedecemos a Deus, isso reflete na nossa relação com as pessoas. Honrar os pais e respeitá-los é uma atitude obediente. Ser um bom estudante e cumprir suas obrigações como tal, também demonstra obediência. Também na vida profissional, tanto na lida com os empregados como do empregado com o patrão, a obediência se faz presente. Ela também se encontra nas relações entre os membros da Igreja, inclusive na obediência aos líderes, como escreveu o autor de Hebreus: “Obedecei aos vossos guias e sede submissos a eles” (Hb 13:17; cf. v. 7; Fp 2:12,19; 1 Ts 5:12,13; 2 Ts 3:14; 1 Tm 5:17; 1 Co 16:16).
Obedecer não é uma concessão, mas um mandamento, uma ordem, e o seu cumprimento ou não mostra de que lado de fato nós estamos. É pertinente falar da separação de termos que muitos fazem na sua conversão: Jesus como “Salvador” e Jesus como “Senhor”. O primeiro está sendo pregado abundantemente, acima de tudo na Teologia da Prosperidade. Todavia, não é o Cristo que salva o ímpio da ira vindoura de Deus, mas de uma vida derrotada e financeiramente miserável. Esse Jesus pretende restaurar relacionamentos não pelo poder da obediência a Deus que gera santidade de vida e amor fraternal, mas por uma fé mágica que diz que “crente não pode sofrer”. Esse “Salvador” dá emprego, faz empresas alavancarem, destrói os espíritos de todas as enfermidades, inclusive o “espírito da morte”, e pode ser acessado através de amuletos e mantras evangélicos. Este Jesus fest food é vendido nas esquinas e nos templos suntuosos e, como um grande apresentador de realit show, oferece recompensas àqueles que cruzarem a linha de chegada da fé.
Mas e o Jesus Senhor? O Jesus Salvador – dos pecados – é também Senhor. Ele morreu na cruz para nos salvar dos nossos pecados, dar-nos uma vida abundante aqui na terra – afinal o Reino de Deus é justiça, paz e alegria no Espírito Santo – e nos levar em segurança para o seu lar celestial. Mas Ele não somente salva o pecador como também quer ser Senhor dele. É algo que não deveria ser desassociado: salvação e senhorio. Pelo fato de crermos em Cristo como nosso Salvador, Ele necessariamente precisa ser o Senhor da nossa vida, ditando as regras, assumindo o controle das nossas escolhas e decisões, com poder para nos repreender quando incorremos em alguma falta e amor para nos perdoar quando nos arrependemos. Ele deve estar com as mãos no leme da nossa embarcação, dirigindo o nosso coração, renovando a nossa mente. Quem tem este Jesus-Salvador-Senhor, não vive mais na prática do pecado, mas entende que precisa obedecer, não por constrangimento ou obrigação, mas por prazer e boa vontade. E será isto que decidirá se estamos ou não no caminho de Jesus. São poucos o que aceitam trilhá-lo quando encontram na entrada a necessidade de obedecer.
O motivo principal para a nação de Israel viver debaixo da ira de Deus, sofrendo diversas invasões de povos gentílicos e também cativeiro foi a sua desobediência. Desde a sua libertação da escravidão do Egito o povo demonstrou possuir um coração obstinado em fazer aquilo que Deus não aprovava, praticando toda sorte de males e entregando-se à idolatria. Deus fala a respeito do seu povo, em Deuteronômio 5:29: “Quem dera que eles tivessem tal coração, que me temessem e guardassem em todo tempo todos os meus mandamentos, para que bem lhes fosse a eles e a seus filhos, para sempre”. Muitos cristãos vivem em pecado obstinado como fazia o povo de Israel, cultuando a Deus de maneira religiosa, cumprindo rituais e liturgias, mas sem ter o coração realmente voltado para o Senhor. Samuel afirmou a Saul após a sua desobediência, quando não esperou pelo profeta e ofereceu sacrifícios a Deus antes que ele chegasse: “Tem, porventura, o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios quanto em que se obedeça à sua palavra? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, melhor que a gordura de carneiros” (1 Sm 15:22). Se a fé não gera obediência a Deus, ela é apenas uma credulidade, a crença em uma divindade impessoal que não se relaciona com o fiel nem lhe cobra compromisso moral algum.

A fé que Deus espera de nós se demonstra por meio de uma vida santa e submissa. Não seremos reconhecidos como discípulos de Jesus apenas no templo, nas nossas orações em oculto, nos nossos dízimos e ofertas, mas no nosso comportamento diante da Igreja e do mundo, demonstrando que de fato Cristo é o Senhor da nossa vida. O próprio Senhor Jesus declarou: “Por que me chamais Senhor, Senhor e não fazeis o que vos mando?” (Lc 6:46). Não basta declarar-se cristão, é preciso viver como tal. Não basta ter a Bíblia como regra de fé e prática, é preciso praticá-la (cf. Mt 5:19, Js 1:8; 1 Jo 5:3). Como escreveu Tiago: “Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tg 1:22). A vontade de Deus para os seus filhos é que eles o obedeçam e assim demonstrem que realmente fazem parte da sua família, que foram alcançados por sua graça e por isso sentem prazer em cumprir seus mandamentos. O apóstolo Pedro registrou em sua epístola aquilo que deve ser como um anseio para o coração do crente: “Como filhos da obediência, não vos moldeis às paixões que tínheis anteriormente na vossa ignorância; pelo contrário, segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento, porque está escrito: Sede santos, porque eu sou santo” (1 Pe 1:14-16). Quem nos éramos como filhos da desobediência deve ser deixado para trás, para que a nossa nova identidade em Cristo de filhos da obediência transforme diariamente o nosso caráter e nos santifique para que sejamos conforme a imagem daquele que chamamos de Senhor (Ef 2:1-3; 4;17; 5:6-8; Cl 3:7; 1 Co 6:11). Precisamos ter a mente renovada e assim não fazermos mais a nossa vontade, mas a vontade de Deus (Rm 12:2).



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