quinta-feira, 4 de maio de 2017

BÍBLIA: ENCONTRAR O EQUILÍBRIO OU BUSCAR A VERDADE?




A palavra “equilíbrio” é um substantivo masculino que expressa harmonia, estabilidade e solidez. Relacionado às leis da física, o equilíbrio se mostra como o estado do sistema cujas forças que sobre ele agem se contrabalançam e se anulam de maneira mútua. Um corpo que se encontra estável é desprovido de oscilação ou desvio. Ele é, também, uma força que age de maneira igual entre duas ou mais coisas (ou pessoas). No meio financeiro existe equilíbrio entre os lucros e os gastos. Em sentido figurado, o equilíbrio pode ser a propriedade ou estado daquilo que permanece estável (constante); também está relacionado ao equilíbrio de oportunidades de trabalho. Não somente os corpos e os sistemas possuem equilíbrio, mas também as pessoas:  comedimento emocional, estado mental estável e autocontrolado. Todavia, aos dicionários não compete explicar como se dá esse equilíbrio, que forças são necessárias para que algo ou alguém encontre a sua harmonia, estabilidade e solidez. O que precisa ser acrescentado? O que precisa ser tirado? É possível manter-se todos os elementos igualmente equilibrados para que haja essa harmonia? Quem ou o que decidirá isso? Diferentemente dos objetos sólidos inanimados, os seres humanos agem sobre o seu meio, não apenas sofrem a ação dele. Eles reagem às tentativas de manter-se ou tirar-se o seu equilíbrio. Embora o seu corpo possa estar estável, não se pode afirmar o mesmo da sua mente e do seu coração. Definir um indivíduo mentalmente equilibrado pode significar afirmar que a sua loucura e a sua lucidez estão sob controle e que ele é capaz de manter-se firme com ambas as forças atuando dentro de si. Novamente a pergunta: quem decidirá o ponto de equilíbrio? O que para uns pode parecer loucura ou extremismo, para outros pode significar seu modo natural de agir, muitas vezes respaldado pela sua própria cultura, suas crenças e valores.
No campo do conhecimento humano, quando falamos em buscar um equilíbrio a respeito de determinado assunto, estamos nos referindo a encontrar um ponto que não se situe em nenhum extremo. Pensemos em um tema qualquer como sendo uma balança: o equilíbrio só pode ser mantido quando os dois lados da balança estão iguais, isto é, não existe uma tendência de se pesar um lado em detrimento de outro. O que se busca é equilibrar os pontos de vista e as práticas a respeito desse tema sem que nada se perca no processo, mas que tudo seja validado para ambos os lados e assim se mantenha o equilíbrio. Tomando como exemplo o amor, pode-se afirmar que ele não deve ser ofertado de maneira exagerada nem em porções mínimas, mas de forma equilibrada. Contudo, não há quem possa nos dar a certeza onde se encontra esse ponto de equilíbrio. O que é amar demais? O que é amar de menos? Quando podemos saber que exageramos ou que nos doamos insuficientemente? Qual será o fiel da balança? O mesmo pode-se dizer do ódio. Não existe ódio com uma pitada de amor ou vice-versa. Os dois não comungam, não compactuam, não se completam. O ódio é a ausência do amor, como a mentira é a ausência da verdade e o mal é a ausência do bem.
Mas será mesmo que existe algum equilíbrio ou pelo menos que em tudo este equilíbrio deve ser buscado? Pode ser que a nossa busca por equilibrar alguns conhecimentos e práticas esteja ligada à filosofia reinante no mundo pós-moderno de que não existe uma verdade absoluta ou um conceito final a respeito de qualquer coisa, mas tudo é relativo e isento de uma concepção totalmente acabada. Aquilo que é verdade para alguns, pode não ser para outros; aquilo que para uns é certo, para outros pode ser errado; e o que é considerado como bem aqui, mais adiante pode se revelar um grande mal. De acordo com MacArthur (2008, p. 39), “o pós-modernismo é marcado por uma tendência de repudiar a possibilidade de qualquer conhecimento seguro e sólido acerca da verdade” (itálicos do autor). Se a verdade objetiva existe, ela jamais poderá ser conhecida verdadeiramente, porque a objetividade é uma ilusão. Aquele que pretende proclamar um conhecimento suficiente a respeito de alguma verdade é reputado como arrogante e ingênuo. A verdade de cada um é que irá decidir, e esse é um direito que não pode ser suprimido. Isto envolve a moralidade. Não existe uma ética, mas diversas éticas que variam de acordo com os valores e as crenças relativistas de cada pessoa. Mentir, matar, adulterar, furtar, ludibriar, corromper são conceitos subjetivos que irão se adequar às circunstâncias sem jamais se configurarem como bons ou maus hábitos.
Buscar o equilíbrio pode ser a ideia disfarçada de que não existe uma verdade absoluta. O que se está afirmando na verdade é que podemos ficar com os dois lados da balança, sem desprezar nenhum. Isto é, podemos suportar opiniões contrárias às nossas para que mantenhamos o equilíbrio e não pendamos para nenhum dos lados, sob o risco de sermos taxados de “extremistas”. Ou ainda pior: um conhecimento ou prática pode comportar diversas verdades e ainda assim se manter íntegro, sem que em algum momento essas verdades se choquem, ainda que contrárias umas às outras. Logo, na justiça poderá haver um grau de injustiça, na verdade poderá haver um pouco de mentira, a legalidade poderá conter uma certa ilegalidade. O equilíbrio entre ideias e forças não comporta a verdade bíblica, onde, por exemplo, o bem e o mal são excludentes, assim como o certo exclui o errado e a verdade exclui a mentira. Do ponto de vista de Deus, não apenas existe a verdade absoluta, como ela é eterna e imutável. E esta verdade é Ele mesmo, como afirmou o Senhor Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14:6). Ou como João declarou a respeito de Cristo: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1:14).
Se cremos em Deus e na sua Palavra, não estamos buscando algum equilíbrio, mas a verdade existente em todas as coisas. Não há como equilibrar ideias e ações, tornando todos os lados da balança aceitáveis. Existe apenas uma maneira verdadeiramente correta de entender tudo. A busca pelo equilíbrio pertence àqueles que não aceitam a verdade absoluta de Deus e da sua Revelação. Em Deus, o certo sempre será certo, o bem sempre será bem e a verdade sempre será verdade. Do mesmo modo, o errado, o mal e a mentira também serão absolutos. Aqueles que buscam o dualismo ou o equilíbrio por trás de todas as coisas, negam a autoridade de Deus e da sua Palavra e admitem que as Escrituras possam conter erros ou estão sujeitas à diversas interpretações. Este é o primeiro passo para a formação de heresias e o caminho seguro para a apostasia. Negar a verdade absoluta de Deus é negar o próprio Deus. Aceitar que haja interpretações diversas e “equilibradas” na sua revelação é ir contra a sua soberania e sua sabedoria eterna. A Palavra de Deus é viva e eficaz e nada deixa às escondidas (Hb 4:12,13). Essa Palavra deve ser anunciada em sua integralidade (2 Co 2:17). A ministração da verdade exclui as coisas que de tão vergonhosas ficam em oculto, de forma plena, jamais adulterada, de modo que haja boa consciência diante de Deus (2 Co 4:2). Os dualismos e os relativismos pertencem aos perdidos, àqueles que não obedecem à verdade, que têm cego o seu entendimento e são impedidos de conhecer plenamente o Evangelho da glória de Cristo (2 Co 4:3-5).
O apóstolo Paulo escreveu aos crentes de Corinto que nada podemos contra a verdade, senão em favor da própria verdade (1 Co 13:8). A crença correta sempre levará a práticas igualmente corretas. Se as crenças forem relativas, que tipo de práticas produzirão? Tiago escreveu: “Quem entre vós é sábio e inteligente? Mostre em mansidão de sabedoria, mediante condigno proceder, as suas obras” (Tg 3:13). A verdade está em guardar os mandamentos (1 Jo 2:4). Todavia, como guardar os mandamentos de Deus se ao invés de buscarmos a verdade que há neles buscarmos o equilíbrio? Se o conhecimento da verdade traz libertação, como afirmou o Senhor Jesus, em João 8:32, como poderemos ser libertos se não cremos numa verdade única e absoluta, mas no equilíbrio entre verdades? Conforme escreveu o salmista, as palavras de Deus são verdade desde o princípio (Sl 119:160). Não alguma verdade ou o equilíbrio de ideias e conhecimentos a respeito de Deus e do mundo, mas a verdade em seu sentido pleno e absoluto, que comporta criações, revelações, decretos, mandamentos e promessas divinos. Tudo o que foi escrito a respeito de Deus e tudo o que Deus quis nos revelar faz parte de uma verdade eterna e irrevogável, que não pode ser diminuída, acrescida ou relativizada. As coisas ou são ou não são, ou podem ou não podem. Não há equilíbrio, apenas a boa, perfeita e agradável vontade de Deus (Rm 12:2).
Está bastante claro na Bíblia que devemos buscar a verdade, não o equilíbrio. Se isso é verdade para um tipo de conhecimento ou prática, o será para todos os conhecimentos e práticas. Não existem uma crença ou uma doutrina equilibradas. Existem uma crença e uma doutrina verdadeiras. Com relação ao alimento que fortalece o corpo é possível mantermos uma dieta equilibrada, onde mesmo os alimentos que engordam podem ser consumidos em pequenas porções diárias. Todavia, com relação ao alimento que fortalece a nossa alma não existe uma dieta balanceada: é preciso consumir tudo, com todas as suas vitaminas, em grandes porções, sem menosprezar absolutamente nada. A Palavra de Deus deve ser crida, compreendida, aceita, pregada e vivida na íntegra, como está na Bíblia. E só existe uma única verdade para cada uma das suas verdades. Não há uma visão “equilibrada” a respeito da salvação: ela é exclusivamente pela graça e não comporta outro elemento (Ef 2:8,9); da divindade de Cristo: Ele é o verdadeiro Deus e a vida eterna (1 Jo 5:20); da Trindade: ela está claramente expressa na Bíblia (p. ex. 1 Jo 5:7); da soberania de Deus: somente Ele é soberano, não há outro (Dt 10:17; Dn 7:27; Sl 72:1-7); da eleição: ela é de acordo com o conselho da vontade de Deus (Rm 9; Ef 1:4-12). Também da fé, da oração, das últimas coisas, da santidade, da natureza da Igreja, de missões, do inferno, do bem, do mal, do pecado, dos dons do Espírito ou qualquer outra doutrina bíblica. Existe apenas uma “única” verdade para cada uma delas. E esta verdade está na Bíblia, esperando ser lida e conhecida.
Assim como a nossa crença deve ser ortodoxa, fundamentada totalmente na Palavra de Deus, aliada à verdade absoluta e jamais relativista, também a nossa prática de vida não pode comportar o dualismo, o relativismo. Uma vida santa, por exemplo, só pode ser vivida de acordo com a santidade de Deus e nela não existe um meio termo, não há o “equilíbrio”, há o “absoluto”. Ou a pessoa está em trevas ou está na luz, pois ela não pode servir às duas circunstâncias, não pode comportar um aspecto de cada uma. O Senhor Jesus declarou: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mt 6:24). Não existe uma forma de equilibrar nosso amor por Deus com o amor pelas riquezas: quando escolhemos um, estamos automaticamente desprezando o outro. Da mesma forma não existe equilíbrio entre andar no Espírito e andar na carne. Quem anda no Espírito, não satisfaz os desejos da carne; quem anda na carne, não poderá ser cheio do Espírito (Gl 5:16-26). Não é possível buscar um ponto de equilíbrio entre os feitos pecaminosos carnais e os frutos do Espírito: ambos são excludentes (Gl 5:19-24).
Embora a maioria dos cristãos não-protestantes busque o equilíbrio entre crer e servir a um único Deus e adorar as imagens de escultura, aplicando a essa atitude o termo “veneração”, está claro que quando optamos por crer e adorar ao único e verdadeiro Deus, todos os demais tipos de crenças e adoração são destruídos. A idolatria está como a causa principal do cativeiro babilônico do povo de Israel. Além de desprezarem os estatutos e as alianças de Deus com seus pais, eles enveredaram pelas práticas das outras nações, fazendo aquilo que era abominável perante o Senhor. Em 2 Reis 17:16 lemos: “Desprezaram todos os mandamentos do Senhor, seu Deus, e fizeram para si imagens de fundição, dois bezerros; fizeram um poste-ídolo, e adoraram todo exército do céu, e serviram a Baal”. O povo de Deus feriu o primeiro e maior mandamento de amar e adorar a um único Deus, Jeová (Dt 5:6-10). O princípio do erro está em desprezar os mandamentos de Deus. A partir daí, todos os demais pecados eclodem. Não há um ponto de equilíbrio na fé: ou ela está totalmente em Deus ou está totalmente fora dele. Não podemos comer na mesa de Deus e na mesa dos demônios. Quando tomamos um cálice, jogamos fora o outro (1 Co 10:20-22). Ou seguimos o conselho dos ímpios e sentamos na roda dos escarnecedores ou temos prazer e meditamos na Lei do Senhor (Sl 1). Deus nos chama a fazer uma escolha: temer ao Senhor e servi-lo com integridade e com fidelidade, jogando fora tudo que nos conduz à idolatria ou permanecer servindo a outros deuses. A escolha sensata nos levará a afirmar como Josué: “Eu e a minha casa serviremos ao Senhor” (Js 24:14,15), ou a declarar como o povo: “Longe de nós abandonarmos o Senhor para servirmos a outros deuses” (v. 16).
Também não é possível buscar um equilíbrio na manifestação da nossa espiritualidade diante dos homens. A quem devemos agradar? A quem devemos dar a verdadeira satisfação? Os fariseus buscavam o louvor dos homens, oravam, davam esmolas e jejuavam publicamente com o fim de serem apreciados e aclamados pelos homens. Fazendo isso, eles não estavam rendendo glórias a Deus e as suas atitudes eram reprováveis, como afirmou o próprio Senhor Jesus no Sermão do Monte (Mt 6:2-4,5-8,16-18). Ou recebemos a recompensa dos homens ou de Deus, não existe equilíbrio (cf. 6:1). O apóstolo Paulo escreveu aos gálatas: “Porventura, procuro eu, agora, favor dos homens ou de Deus? Ou procuro agradar a homens? Se agradasse ainda a homens, não seria servo de Cristo” (Gl 1:10). O Evangelho que Paulo pregava não era segundo o homem, mas mediante a revelação de Jesus Cristo (vs. 11,12). Atualmente, todavia, muitos pregadores têm buscado um equilíbrio entre o que Deus fala nos evangelhos e o que as pessoas esperam ouvir; entre as doutrinas bíblicas e os desejos do homem. Isto é: uma “visão equilibrada” da Palavra de Deus permite que ela se adéque aos anseios e projetos humanos, sem que ambos deixem de lado as suas prerrogativas, o que não somente é impossível como também é uma heresia demoníaca. Contra tais pregadores, o próprio Paulo lavra a sentença: anátemas, isto é, malditos, amaldiçoados (1:6-9).
O apóstolo João não conseguia encontrar equilíbrio entre dois inimigos declarados: Deus e o mundo. Quem ama um, despreza o outro (1 Jo 2:15,16). O liberalismo teológico busca uma forma de adequar a verdade bíblica às demandas modernas, buscando uma teologia que consiga responder aos anseios mundanos, conformando-se aos padrões de um mundo corrompido pelo pecado. Para isso ser possível, é preciso abraçar a filosofia pós-moderna relativista e abrir mão da veracidade das Escrituras Sagradas como Palavra inspirada de Deus suficiente, inerrante e infalível. O objetivo claro é absorver apenas aquilo que for do interesse do indivíduo, desprezando todo o resto, como fazem os ativistas gays, que retiram das Escrituras os textos que não compactuam com sua prática homossexual. Tiago, então, declara: “Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4:4). Portanto, um equilíbrio entre o mundo e Deus não é possível: o mundo precisa ser impregnado por Deus para abandonar-se a si próprio. De igual modo, o crente não deve equilibrar a sua vida entre à escravidão ao diabo e a sujeição a Deus. Quando nos sujeitamos a Deus, o diabo foge de nós (Tg 4:7).
A Bíblia não nos chama a uma vida equilibrada, mas íntegra. O Senhor Jesus deixa isso bastante claro ao afirmar: “Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco também é injusto no muito” (Lc 16:10). Não existe equilíbrio algum entre fidelidade e injustiça, mas a possibilidade de haver uma exclui a outra. O cristão que vive retamente pende para o lado da fidelidade e da justiça, não deixando espaço para sentimentos contrários, de modo a buscar um equilíbrio nas suas ações, como fizeram Ananias e Safira ao mentirem para o Espírito Santo (At 5:1-11). A integridade promove segurança (Pv 10:9) e mantém o cristão firme diante das investidas do mundo, da carne e do diabo. O ponto crucial é não se dobrar àquilo que Deus desaprova crendo que poderá arranjar alguma brecha para justificar pecados. Ao enviar Tito para cuidar da arrecadação da oferta dos coríntios aos crentes pobres de Jerusalém, o apóstolo Paulo desejava manter a integridade do seu ministério e da verdade, não cedendo espaço para quaisquer dúvidas e desconfianças (2 Co 8:16-24). Paulo não buscava equilíbrio entre as suas ações diante de Deus e aquilo que era feito na frente dos homens, como se fosse possível usar dois pesos e duas medidas e mentir para Deus (Pv 20:10). Ele escreveu: “pois o que nos preocupa é procedermos honestamente, não só perante o Senhor, como também diante dos homens” (v. 21). A honestidade não pode ser negociada nem estar aberta a “deslizes justificáveis”. A própria natureza da palavra “íntegro” (inteiro) já demonstra o tipo de caráter que o cristão deve manifestar em todas as suas ações, evitando o mal testemunho e as calúnias (1 Pe 3:16).
Nas recomendações finais de sua epístola, o autor de Hebreus pede aos irmãos oração, pois se sentia persuadido a ter boa consciência, desejando em todas as coisas viver condignamente (13:18; “portar-se honestamente”, ARC). A honestidade não pode comportar outra coisa senão a honestidade. Aquele que é honesto não promove a injustiça, não se apropria de nada alheio, fala a verdade e é confiável. Escrevendo aos crentes de Filipos, o apóstolo Paulo apresenta uma lista de valores absolutos que deveriam fazer parte do pensar e do agir daqueles irmãos: verdade, respeitabilidade, justiça, pureza, amabilidade, honradez, virtude e louvor (Fp 4:8). Ele admoesta: “O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso praticais; e o Deus de paz será convosco” (v. 9). Paulo conclama os irmãos a agirem de maneira íntegra, cultivando os valores e virtudes que conduzem à paz com Deus. São valores absolutos. Aquele que anda na verdade, não compactua com a mentira. Quem é respeitável, não pode viver de outra forma. Uma pessoa justa não age com iniquidade. Uma vida equilibrada seria pesar de um lado da balança a impureza e do outro a pureza, buscando o equilíbrio entre ambas. Uma vida reta, íntegra, retira da balança a desonra e permite que somente a honra se faça presente. O que foi aprendido, recebido, ouvido e visto deve compor de forma plena o caráter do cristão, deve fazer parte do seu estilo de vida, jamais cedendo qualquer espaço para atitudes contrárias. Não é um pouco disso e um pouco daquilo, mas os valores eternos e imutáveis da Palavra de Deus em sua integralidade.
A maneira como cremos e a forma que vivemos revelarão quem de fato somos. Jesus afirmou que a árvore se conhece por seus frutos (Lc 6:43-45; Mt 7:22-27). Embora muitos se afirmem cristãos, seguidores de Jesus, alguns demonstram, por suas crenças e suas práticas, que não são quem dizem ser. Isso está claro na Bíblia ao se referir a respeito dos falsos mestres, falsos profetas, falsos apóstolos e o anticristo (cf. Mt 7:15-23; 24:4,5, 24:23-26; Gl 1:6-8; 2 Co 11:3,4,13-15; 2 Ts 2:3,4,8-10; 2 Pe 2:1-22; Jd 1:1-23). Podemos perceber em todos esses textos que a crença incorreta produz práticas igualmente incorretas. Aqueles que não acreditam nem pregam a verdade, mas buscam equilibrar seus próprios pontos de vista com a Revelação de Deus, geralmente incorrem em erros doutrinários e desvios morais. Para manter esses desvios morais e não permitir que sejam chamados de “desvios”, os pensadores pós-modernos decidiram abrir mão da verdade absoluta ou de qualquer tipo de verdade. Quem poderá dizer que seus atos são imorais se não existe uma moral real? Quem poderá afirmar que as suas práticas são pecaminosas se não existe pecado nem mandamento divino a ser obedecido, pois, a priori, não há Deus? Essa disposição mental para equilibrar as forças e justificar pecados está corroendo como um câncer a doutrina cristã. Em breve alguns adorarão a Besta, outros não. Aqueles que se mantiverem fiéis serão decapitados “por causa do testemunho de Jesus, bem como por causa da Palavra de Deus” (Ap 20:4). Eles não buscaram equilíbrio, não se dobraram diante da Besta, mas viveram a verdade absoluta de Deus até as últimas consequências. Quanto aos outros, a parte que lhes coube foi o lago que arde com fogo e enxofre, a segunda morte (Ap 21:8).
Como vimos nestes poucos exemplos, o cristão não deve buscar uma doutrina equilibrada a respeito de nenhum ponto da sua fé, mas a verdade única e absoluta em cada doutrina que a Bíblia apresenta. Da mesma forma, o seu estilo de vida precisa ser íntegro, de acordo com a verdade que ele professa crer. A Palavra de Deus é o prumo seguro da verdade, da fé e da moral. O que ela afirma é verdadeiro e digno de confiança. Não podemos ou não fazer algo: ou podemos ou não podemos. E quando escolhemos um, o outro é excluído. Um exemplo está em Deuteronômio 30:19, onde Deus declara: “Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te propus a vida e a morte, e bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência”. Está explícito que escolher a morte não traria vida, como escolher a maldição não traria bênção. Não é possível, também, crer ou não em Deus. Aquele que se aproxima dele, segundo escreve o autor de Hebreus, deve crer que Ele existe e que se torna galardoador daqueles que o buscam (11:6).
O jovem rico descobriu que não poderia haver qualquer equilíbrio entre seguir a Deus e continuar apegado aos seus bens materiais. Ele, na verdade, buscava fazer as duas coisas: cumprir os mandamentos de Deus, mas com o coração voltado para este mundo e para as suas riquezas que, no final das contas, se mostraram muito mais importantes que a sua fé (Mt 19:16-22). Após o jovem se retirar triste, o Senhor declarou que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus, de modo que os discípulos se maravilharam, dizendo: “Sendo assim, quem pode ser salvo” (vs. 23-25), ao que Jesus respondeu: “Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível” (v. 26). De fato, o que Jesus demonstra nesse episódio é que a salvação não é por aquilo que fazemos (seguir os mandamentos, abrir mão de tudo), pois assim é impossível alcançar o céu. A salvação é pela graça de Deus, não pelos nossos próprios esforços ou nossa vã religiosidade. Desse modo, até o rico avarento pode ser salvo, porque quem operará na vida dele é o Espírito Santo. Não há um equilíbrio entre a nossa busca por Deus e a busca de Deus por nós. É ele e somente Ele quem trabalha em todo o processo da salvação (cf. Os 11:1-5).
Não devemos abrir mão da verdade absoluta em nenhuma circunstância. É ela que configura a nossa fé em Deus e determina a prática dessa fé. Quando tentamos buscar um equilíbrio entre crenças e práticas, fatalmente estamos desprezando a verdade revelada de Deus e a sua própria natureza santa e perfeita. Escolher este ou aquele elemento para compor a nossa fé significa abrir mão de outros igualmente importantes. Mais que isso, essa tentativa de equilibrar doutrinas e práticas nos conduz à mentira, porque o produto que teremos em mãos não será a fé verdadeira, mas uma versão distorcida engendrada pelo nosso pecado. A Teologia da Prosperidade é expert em utilizar apenas os versículos que, de acordo com a sua interpretação, demonstram que o cristão deve viver uma vida isenta de sofrimento e financeiramente próspera, que isso é um direito seu, afirmando, inclusive, que o fiel de Deus não adoece. Por outro lado, eles rejeitam e não pregam a respeito de textos que demonstram claramente como os homens de Deus sofreram enquanto estavam na terra, como o capítulo onze de Hebreus, os sofrimentos de Paulo pelo Evangelho e até o exemplo de Jesus Cristo. A busca pelo equilíbrio teológico culmina na criação de falsos ensinos e heresias. O que Deus espera de nós não é o equilíbrio, como dissemos, mas uma teologia genuinamente bíblica, forjada na correta exegese da sua Palavra, isenta de pressupostos humanos tendenciosos. Ele também deseja a integridade do caráter, uma vida reta e santa baseada na sua Palavra, totalmente isenta das inclinações da nossa carne e impregnada com a ação poderosa do Espírito Santo. Em todas as coisas, seja Deus verdadeiro, e mentiroso, todo homem (Rm 3:4).


04.07.2017

Mizael de Souza Xavier







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