segunda-feira, 30 de abril de 2018

CONVERSÃO: O QUE É? COMO ACONTECE? QUEM VAI PARA O CÉU?





Consciência da verdadeira conversão
Mateus 18:3

Criou-se uma ilusão de que Deus está atrás de números. Por isso se investe tanto em estratégias – algumas santas, outras nem tanto – para lotar templos. O resultado é a invasão do curral santo por ovelhas que não fazem parte do rebanho de Jesus, que não reconhecem e por isso não ouvem a sua voz. Entre as poucas ovelhas preocupadas em se identificar com o Pastor por meio da obediência à sua Palavra, estão dezenas que acreditam que podem ser ovelhas vivendo como se fossem bodes ou lobos. Mas é possível declarar-se cristão, afirmar-se convertido sem haver alguma mudança de posição diante de Deus e, consequentemente, de comportamento? Quando olhamos para algumas igrejas e vemos as intrigas, arrumadinhos, fofocas, mentiras, adultérios, jogos de poder, soberba, corrupção, nepotismo, arrogância, estrelismo e tantas outras mazelas, ficamos a nos perguntar se algumas pessoas são de fato convertidas ou se apenas foram convencidas por si próprias de que seguem a Jesus, mas sem qualquer compromisso moral com ele. Não podemos esquecer que o joio cresce no meio do trigo.
            Quando falamos em conversão, outros temas nos vêm à mente e implicam em algumas dificuldades para entendermos a genuína adesão a Cristo. Se pensarmos em ternos de arminianismo, entenderemos que o ser humano não é corrompido totalmente e por isso ainda possui uma capacidade dada pela “graça preveniente” de Deus de responder positivamente ao chamado à conversão. Logo, esta partiria de um entendimento humano da sua condição pecaminosa e a sua resposta ao chamado gracioso de Deus para abraçar a salvação oferecida a todos por Cristo. Pensando sob o ponto de vista calvinista e a depravação total do ser humano, a conversão parte de um chamado eficaz do Senhor aos seus eleitos, que não veem outra opção senão se converterem a Ele. A isso se chama “graça irresistível”. Não há como resistir ao chamado de Deus.  Este chamado é “especial” ou “eficaz”. Embora o arminianismo creia que a salvação é em Cristo somente, por meio da graça, o fato de o pecador escolher ou não ser salvo, afeta negativamente a soberania de Deus e torna o homem participante da sua salvação (sinergismo), uma vez que cabe a ele dizer sim ou não a Deus. Na doutrina calvinista, a obra da conversão, inclusive a própria fé que salva (Ef 2:8,9), é exclusivamente de Deus e não há participação alguma do pecador nesse processo (monergismo).
            Aqueles que se convertem genuinamente a Cristo são objetos do chamado especial de Deus. Embora haja um chamado geral à conversão (p. ex. Mt 11:28 e 22:14), somente nos eleitos  a conversão ocorre de fato. De acordo com Millard J. Erickson a respeito do chamado especial (1992, p. 362): “Deus atua de forma particularmente eficaz com os eleitos, dando-lhes condições de reagirem com arrependimento e fé, e fazendo com que de fato assim reajam”. Ainda segundo o mesmo autor, “O chamado especial é, em grande medida, a obra da Iluminação do Espírito Santo, dando ao receptor a capacidade de compreender o verdadeiro significado do evangelho. Essa obra do Espírito é necessária porque a depravação que caracteriza todos os homens os impede de captar a verdade revelada de Deus”. Somente iluminado pelo Espírito Santo o pecador pode compreender a loucura de Deus na cruz (2 Co 5:19; 1 Co 1:18-25; 12:3). Ao haver experimentado essa iluminação, a sua resposta sempre será positiva, isto é: a conversão. A vontade soberana e o poder de Deus para salvar o pecador são preservados e estão sempre em evidência. Mas o que de fato significa “conversão” no que diz respeito a essa busca pelo Deus que dele nos aproxima por meio de Cristo?
            Geralmente, quando nos referimos àquele momento do nosso encontro pessoal com Jesus, o nosso primeiro passo na caminhada cristã, começamos o relato dizendo “Quando eu me converti a Jesus”. Assim, referimo-nos ao momento em que erguemos nossa mão respondendo a um apelo após o culto ou que nos sentimos tocados por Deus em algum lugar onde estávamos sós e vimos que aquele era o momento de “nos convertermos” a Ele. A nossa atitude sempre está no foco da questão. A conversão é um ato de Deus, uma mudança que nos tira de uma direção e nos coloca em outra: o abandono do pecado e a volta para Cristo. Tanto no Antigo Testamento (p. ex. Ez 18:30-32), quanto no Novo (p. ex. Ef 5:14; At 3:19), a conversão se mostra como o despertar espiritual que desvia o homem da transgressão. A conversão envolve dois aspectos ou movimentos: negativo, que inclui o arrependimento e o abandono do pecado; e positivo, que significa voltar-se pela fé a Jesus Cristo. Ainda segundo Erickson (idem, p. 394), é um ato único que possui dois aspectos distintos e inseparáveis: a fé e o arrependimento.
O arrependimento, como vimos, é o aspecto negativo da conversão e mostra a necessidade de abandonar o pecado para ter comunhão com Deus. O hebraico utiliza duas palavras para referir-se ao arrependimento. A primeira é nachan, como em Gênesis 6:6, sempre ligada a um aspecto de Deus; a outra é shûv, expressando a necessidade do homem de voltar-se para o seu Criador e abandonar suas práticas pecaminosas. No Novo Testamento, encontramos também duas palavras gregas para arrependimento: metamelomai, que demonstra o aspecto emocional do arrependimento, como um pesar ou remorso por um ato cometido (cf. Mt 21:30); e metanoeo, que significa pensar de forma diferente sobre algo, mudar de ideia. O momento do arrependimento é apenas o início de um processo; uma disposição que não ocorre necessariamente pelas razões corretas. Podemos nos arrepender de haver pecado não porque entendemos que ofendemos a Deus, mas por medo dos efeitos que nosso pecado poderá nos trazer. É preciso julgar as nossas intenções. Judas foi acometido de um grande remorso após trair Jesus e ver no que seu ato resultou. Esse remorso, todavia, não gerou nele transformação, mas o conduziu ao desespero, levando-o ao suicídio (Mt 27:3). O verdadeiro arrependimento implica em mudança real de comportamento, como ocorreu com Pedro em contraste com Judas (Jo 21:15-19).
Outro aspecto da conversão é a fé. Quando nós cremos em Jesus Cristo, podemos reconhecer a nossa condição de pecadores, arrependermo-nos e nos converter – ou ser convertidos. Não é possível haver a genuína conversão se o arrependimento não for seguido pela fé em Jesus. Sentir-se culpado pelos próprios pecados e pedir perdão a Deus não resolve a questão da conversão. Sem aceitar a Cristo como Senhor e Salvador, ninguém pode se considerar convertido. Em Romanos, Paulo fala acerca da rejeição dos judeus e expressa a sua vontade: “Irmãos, a boa vontade do meu coração e a minha súplica a Deus a favor deles são para que sejam salvos” (10:1). Falando a respeito da autojustiça dos judeus que zelam por Deus sem entendimento, ele afirma que “o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê” (v. 4). Esta justiça é decorrente da fé (v. 6), fruto da palavra da fé que é pregada (v. 8): “Se, com a tua boca confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentro os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação” (vs. 9,10). Esta fé não deixa o homem confundido, porque “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (vs. 12,13). A salvação é fruto da fé. Através da fé em Cristo o homem é justificado e muda de posição diante de Deus. Antes dessa mudança ele não passa de um cadáver, um morto-vivo, como afirma Paulo em Efésios 2:1: “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados”. Se não houve a fé salvadora, se o pecador não foi tocado pelo Espírito Santo, a sua conversão não é genuína. Ninguém pode converter a si mesmo ou declarar-se salvo se a sua conversão não foi uma obra do Espírito.
Outra questão é: como ocorre a conversão? Ela é instantânea, no momento em que o pecador ouve o apelo do Evangelho e decide radicalmente atender ao chamado de Deus, ou é um processo no qual o pecador se converte aos poucos? Essas duas linhas de pensamento são possíveis. Algumas pessoas, a exemplo de Nicodemos (cf. Jo 19:39) parecem experimentar uma conversão gradativa a partir do momento em que ouvem a mensagem de Cristo. Outros passam por um momento de crise em que se convertem em um instante, como o exemplo do carcereiro (At 16:30). O importante é sabermos que em ambos está a ação do Espírito Santo, quer mostrando aos poucos a verdade da salvação, quer impactando com essa verdade a vida de alguém ao ponto de num único instante levá-la ao arrependimento e à conversão. Muitas pessoas se convertem após um longo período de tempo sentindo o coração arder com a mensagem do Evangelho. Esse sentimento já é o despertar do Espírito promovendo a conversão.
Erickson (ibdem) também nos chama a atenção para a diferença entre “conversão” e “conversões”. A primeira é um ato único e inicial de volta para Cristo, onde o pecador arrependido é selado com o Espírito Santo, justificado, redimido e adotado como filho de Deus. Este momento jamais se repetirá, uma vez que a salvação não pode ser perdida e o Espírito Santo jamais é retirado do cristão. Se houver uma “nova” conversão, significa claramente que a primeira não foi verdadeira. A segunda é fruto do trabalhar do Espírito Santo na vida do convertido, onde ele vai, imediatamente ou aos poucos, convertendo áreas da sua vida que precisam ser reparadas. Esse é o processo da santificação. O evento principal, a primeira conversão, é que lhe fornece os meios para as conversões secundárias. Se em momento algum da vida do indivíduo houve essas “conversões”, pode ser que a primeira jamais tenha acontecido.
Uma explicação para definir o sentido de conversão é aquela dada por Jesus a Nicodemos: “Importa-vos nascer de novo” (Jo 3:7). Todavia, existem muitas implicações neste novo nascimento que devemos estudar. Afinal, como Nicodemos bem sabia, todos já nascemos uma vez, já estamos vivos e atuantes no mundo. Por que deveríamos nascer novamente? E como se dá este novo nascimento? Qual a sua finalidade? Certamente este “nascer de novo” nos identifica com Cristo, o qual nos dá uma nova identidade como filhos de Deus. Antes do novo nascimento existe algo imprescindível: a fé (Ef 2:8,9). Essa fé vem pelo ouvir a Palavra de Cristo (Rm 10:17). Está implícito neste versículo que a palavra que gera fé não é outra senão a de Cristo. Não estamos falando da fé que atrai bênçãos, mas da fé salvadora. Outra palavra e outro evangelho não geram a fé necessária à conversão. Deste modo, a fé está intrinsecamente ligada ao caráter do verdadeiro seguidor de Jesus e é uma marca indelével da Igreja. Um problema pode estar naquilo que entendemos por fé. E esta é uma questão muito importante, porque “sem fé é impossível agradar a Deus” (Hb 11:6). Em um estudo adiante definiremos o que é a fé, e já estaremos cientes da sua realidade.
Um dos grandes problemas da Igreja atual é a falta de uma compreensão bíblica do que é a conversão. Isto se dá porque os pregadores têm perdido de vista a necessidade da conversão para a filiação divina. O tema do pecado já não é tão enfocado, de modo que as pessoas não têm consciência de que estão agindo contra a Lei de Deus e por isso estão sob condenação. Se não existe a consciência de estar ofendendo a Deus e, portanto, caminhando para a morte eterna, não há a percepção da necessidade de arrependimento, e sem arrependimento não há salvação (Mt 3:2; 4:17; At 17:30). Então, o que dizer dos milhares de pessoas que abraçam o Evangelho todos os dias e lotam os templos evangélicos? Em primeiro lugar, é preciso esclarecer se o que está sendo pregado é de fato o Evangelho de Cristo, a mensagem da cruz. Se o ouvinte não está sendo informado da sua condição de pecador nem levado ao conhecimento de Cristo como a Rocha da sua salvação, não é o verdadeiro Evangelho que está sendo transmitido. De fato, tantas numerosas conversões se devem, em não poucas vezes, a pregações que não apresentam Deus como o Soberano sobre a humanidade, mas como um Pai complacente e permissivo, interessado no sucesso e na felicidade dos seus filhos. A fé em Deus que é gerada não produz arrependimento de pecados, mas expectativa de bênçãos.
Então é possível que muitos seguidores de Jesus não sejam verdadeiramente seus discípulos. Estar dentro de uma igreja não é o suficiente para nos garantir a salvação, porque ser cristão não é estar na igreja, mas “ser” Igreja. Aquilo que geralmente se entende como igreja onde podemos entrar e de onde podemos sair, é simplesmente um prédio. A espiritualidade do cristão acaba sendo medida pela sua frequência nos cultos e por aquilo que ele realiza dentro das suas quatro paredes. Então, abandonar a Cristo não é simplesmente deixar de ir à igreja, assim como aceitá-lo não é simplesmente passar a frequentá-la. Dentro de um contexto bíblico, igreja está além do templo. A igreja somos nós, os cristãos, reunidos em torno de Cristo, unidos pelo Espírito Santo, compartilhando da mesma fé, do mesmo batismo, do mesmo Deus.  Então, é preciso entender o que é ser um verdadeiro convertido ao Senhor Jesus antes de declarar que todos os frequentadores das igrejas são cristãos. Muitos dos que seguiam a Jesus não o faziam por uma conversão genuína, mas interessados naquilo que poderiam obter dele. Tão logo o discurso os desagradou, pararam se segui-lo. Não deixaram de ser discípulos, porque na verdade nunca foram (cf. Jo 6:60-71).
Embora pareça incoerente, é triste ver certas conversões que ocorrem nas igrejas. O pastor prega sobre um tema ligado à prosperidade, diz que o ser humano é um miserável, não por ser pecador, mas porque é um sofredor num mundo mau. Ele indica o caminho da prosperidade, do sucesso e da felicidade total: Jesus Cristo. “Quem quer receber a Jesus para parar de sofrer?”, o pregador pergunta. Então, muitas pessoas endividadas, desempregadas, solteiras, desesperadas e cheias de crises existenciais levantam as suas mãos e se aproximam do púlpito afogadas em lágrimas para receberem a oração da cura e da libertação. Outras são movidas mesmo por sua ganância em arrancar de Deus as bênçãos prometidas pelo pregador. Isso se assemelha muito à Teologia da Libertação e a sua tentativa de salvar o ser humano por meio da libertação das injustiças sociais através de movimentos revolucionários de tomada do poder. No caso do discurso neopentecostal, essa revolução se dá por meio da tomada de posse das bênçãos. O pecador precisa se libertar da sua condição social degradante, mas por métodos espirituais de batalhas e conquistas de riquezas.
É muito preocupante esse tipo de conversão. Em primeiro lugar porque é produto de uma pregação mentirosa. Não que as nossas dores não sejam do interesse de Deus, mas pelo fato de que a conversão deve partir da compreensão que o homem tem de si como pecador miserável e carente de uma salvação que somente a graça de Deus tem para lhe dar, por meio da fé e do arrependimento. Esses “convertidos” não estão ali crendo que Cristo salva dos pecados e dá a vida eterna a todo o que nele crê, mas acreditando que Ele resolverá todos os seus problemas pessoais. E é este o compromisso que eles terão com Jesus, nada mais. Qual é o fruto dessas conversões? Igrejas lotadas de pessoas totalmente descomprometidas com o Evangelho, que não oram, não leem a Bíblia, não nasceram de novo e por isso não possuem o caráter transformado nem vida santa diante de Deus. Portanto, se não nasceram de novo, não foram lavadas e remidas no sangue de Cristo e, como resultado, não possuem a salvação, não tardará a abandonarem a igreja, deixando o Evangelho de lado para retornarem às suas antigas práticas, se é que em algum momento as abandonaram. Neste ponto podemos afirmar que o cão tornou ao próprio vômito e a porca ao lamaçal (2 Pe 2:22). Jamais deixaram de ser cães ou porcos; jamais se tornaram ovelhas. Então percebemos que tais indivíduos não possuíam a marca de Cristo, não eram de fato Igreja do Senhor. Compreender corretamente a conversão é essencial para nos firmarmos como corpo de Cristo: se não há conversão, não há enxerto neste corpo santo. Quem não é marcado pela conversão operada pelo Espírito Santo, não é seu templo.
            Por fim, a conversão não é apenas a inserção de um indivíduo na vida da comunidade cristã, da Igreja como instituição, mas uma mudança de posicionamento diante de Deus que redunda em transformação de vida, onde uma mudança sensível e necessária se faz real. Essa mudança é operada exclusivamente pela graça de Deus e nos leva a uma vontade diferente daquela que tínhamos quando ainda estávamos mortos, gerando compromisso com a Palavra de Deus e uma consequente mudança de comportamento. Dever (2007, p. 123) escreve que a mudança que necessitamos é “uma mudança de vida de pecado, que incorre em culpas, para uma vida perdoada, de confiança em Cristo”. E acrescenta: “Para fazermos isso, temos que arrepender-nos de nosso pecado e crer em Cristo. E isto só pode acontecer pela graça de Deus, mediante a pregação do evangelho” (idem). A conversão é evidenciada, não apenas afirmada. Ela é prática, não apenas proclamada. Não é um levantar da mão após o apelo fervoroso do pastor, mas um entregar total de vida e coração nas mãos do supremo Pastor da nossa alma. Além de um preço que já foi pago na cruz, a conversão tem consequências atuais e eternas.


ESTE TEXTO FAZ PARTE DO LIVRO "OS SETE BARCOS DE DEUS", DE MINHA AUTORIA. AINDA A PUBLICA. PROIBIDA TODA E QUALQUER REPRODUÇÃO.

Mizael de Souza Xavier

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