sábado, 1 de outubro de 2016

REFORMADOS E SEMPRE REFORMANDO CONTRA O CONFORMISMO TEOLÓGICO




O cristão moderno carece enormemente de pensamento crítico, da capacidade bereiana de confirmar nas Escrituras se aquilo que se prega é de fato aquilo que a Bíblia ensina. A autoridade interpretativa da revelação de Deus migrou da Bíblia para os líderes religiosos e as letras das músicas que são cantadas na Igreja. Como os "ungidos do Senhor", os pastores parecem falar ex cathedra, com uma infalibilidade quase papal ou com a autoridade de um Isaías ou de um Jeremias. A Bíblia não interpreta mais ela mesma, como seria o correto de acordo com as regras da Hermenêutica, mas está sujeita aos usos que se faz dela e às revelações e profecias que a aplicam da maneira como bem entende o místico evangélico.
Assim como ocorria na Idade das Trevas, muitos crentes entendem que a palavra do seu líder é definitiva, que aquilo que ele está pregando é o conteúdo da verdade de Deus e por isso não cabem questionamentos. Questionar significa pôr em dúvida a autoridade do guia espiritual e correr o risco de ser excomungado, tratado como herege. De fato, o pastor possui autoridade espiritual sobre a congregação como quem há de prestar contas dela um dia. Ele deve ser respeitado e honrado. Porém, o que ele não possui é o múnus da infalibilidade como pretendem os católicos em relação aos "sucessores de são Pedro". Qualquer pessoa que pregue a Palavra de Deus está sujeita a errar, ou por má fé ou por falta de conhecimento. Em ambos os casos o resultado pode ser desastroso quando a Igreja não exerce a sua capacidade crítica e questionadora, engolindo de bom grado tudo aquilo que ouve e dizendo amém para qualquer heresia sem se perguntar se as coisas são de fato assim. O que um crente consciente e crítico diria da seguinte declaração postada em uma rede social: “Ser pastor não é apenas usar uma gravata, mas é arrancar almas do inferno”?
Essa falta de capacidade crítica parece ser fruto de um investimento em longo prazo de certos pregadores e denominações que aos poucos foram retirando dos seus fiéis não somente o poder e o direito de pensar e questionar, como também a destreza espiritual de ler a Bíblia e compreendê-la. Aliado a isso, os anseios do cristão moderno são imediatistas e individualistas demais para permitirem que tenham vontade, tempo e paciência de ler e estudar a Palavra de Deus. Quando as ovelhas não conhecem o seu pastor, atendem ao chamado de qualquer lobo devorador. Surge, então, outra questão ainda mais séria: aqueles que são de Deus, que pertencem a Cristo conhecem e ouvem a sua voz. Isto significa que o fato de muitos crentes não darem ouvidos a Palavra de Deus e preferirem aquilo que aplaca a coceira dos seus ouvidos e satisfaça aos desejos do seu coração, pode denunciar que não façam parte do rebanho do Senhor.
Por que, diante de uma pregação de conteúdo duvidoso, alguns crentes se indignam e conseguem provar por meio das Escrituras que o pregador se equivocou, enquanto outros simplesmente dizem o habitual amém e saem sentindo-se abençoados? Por que a Confissão Positiva é nitidamente uma heresia para alguns e para outros é a vontade de Deus? Por que objetos mágicos, mantras e unções são para alguns o poder de Deus e para outros, grandes aberrações? A diferença pode estar no tipo de espírito que opera dentro de cada lado ou, numa visão mais amena, no uso que cada um faz da Bíblia. Alguns seguimentos do protestantismo há muito abandonaram a Bíblia como referencial. Ou melhor dizendo: deixaram de ser influenciados por ela. Não se deixam usar pela Palavra de Deus, mas usam-na para seus próprios fins espúrios. O crente sincero nem sempre consegue discernir entre verdade e heresia, pois a sua capacidade de pensar criticamente não foi despertada. Poderíamos dizer, também: ainda não perceberam que possuem o Espírito Santo que os capacita a discernir as coisas espirituais.
É preciso lembrar que a Reforma Protestante foi fruto dessa visão crítica da realidade e do estudo espiritual da Bíblia. Em 1517, as indulgências estavam em alta e cobravam-se altos preços pela salvação da alma e o alívio das suas dores num suposto purgatório. O monge católico Martinho Lutero, cuja capacidade questionadora incomodava a santa Sé, propôs uma drástica mudança na doutrina e nas práticas católicas romanas por meio das suas 95 teses fixadas na porta da catedral de Wittimberg, no dia 31 de outubro daquele ano. O que o levou a essa revolução reformatória? A leitura da Palavra de Deus, com a constatação de que o justo viverá por fé (cf. Rm 1:17; Gl 3:11; Hb 10:30). Lutero olhou para a realidade e comparou-a com a Bíblia. A tese de nº 90 afirma: “Refutar estes argumentos sagazes dos leigos pelo uso da força e não mediante argumentos da lógica, significa entregar a Igreja e o papa a zombaria dos inimigos e desgraçar os cristãos”. Em seu pensamento, os líderes da igreja romana deveriam considerar aquelas teses de maneira lógica, racional, buscando compreender as verdades que ele estava afirmando. O contrário disso seria entregar o povo à total ignorância e promover o mal testemunho da Igreja.
O resultado da tentativa de Lutero de reformar a teologia da Igreja que ele amava e servia foi a rejeição por parte do papa Leão X e do clero, a sua excomunhão, o Concílio tridentino anti-reforma e o acirramento da Inquisição. E os frutos foram: a Bíblia na linguagem do povo, o afastamento gradativo das heresias romanas, o livre pensamento cristão, que passou a ter o poder que pensar de forma crítica a sua fé e a questioná-la, o surgimento de grandes mestres na Igreja, o avanço do cristianismo e a alegria de amar e servir a Deus de forma racional. Se hoje temos um pluralismo muito grande se seitas e heresias protestantes, significa que aos poucos a cristandade perdeu a sua capacidade de questionamento, o seu interesse genuíno pela verdade bíblica. Uma das verdades da Reforma é: reformados e sempre reformando. A Igreja não está no auge do seu conhecimento teológico, mas ainda há muito que ser aprendido. Ela também não alcançou o ápice da sua santidade; até a glória existe um longo caminho. Estamos sempre crescendo e desenvolvendo a nossa salvação. Às vezes algo vai ficando pelo caminho e precisa ser recuperado. Em outras vezes são acrescentados elementos que devem ser abandonados.
O neoliberalismo teológico não é um caminho sem volta. O entorpecimento da mentalidade evangélica também não é algo irreversível. Reformados e sempre se reformando. Precisamos pensar, questionar, meditar com afinco na Palavra de Deus, de forma construtiva e com a intenção correta e santa de inculcar na nossa mente e na mente daqueles que estão sob os nossos cuidados a verdade de que o centro da nossa vida e da nossa fé precisa ser o Senhor Jesus e a sua Palavra. Não existe espaço para exaltações egocêntricas nem para lobos devoradores e as suas heresias. Se a Reforma Protestante colocou a Bíblia na mão dos crentes, devemos fazer com que ela saia da mão e penetre fundo no coração, com a graça de Deus, no poder do Espírito Santo. Temos a Palavra e o Espírito que a revelou e a interpreta. Qualquer ensino ou pregação que não aponte para a cruz de Cristo e que não anseie pela sua volta gloriosa precisa ser questionado. Qualquer canção, por mais bela que seja, que contenha elementos contrários à sã doutrina deve ser eliminada do culto público e do nosso louvor pessoal. Qualquer tentativa de acrescentar ou retirar um “i’ ou um “til” da Palavra de Deus deve ser considerada um atentado contra Deus. Reformados e sempre reformando em busca de uma teologia sadia, enquanto esperamos a volta do nosso Senhor Jesus. Amém.

Mizael de Souza Xavier


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