segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A LÂMPADA DE LED E A TEOLOGIA SEM GRAÇA



A grande redescoberta teológica que transformou a história do cristianismo e colocou a Igreja do Senhor de volta ao prumo certo foi a justificação pela graça. A graça que predominava desde o tempo eterno e que teve a sua expressão maior na obra redentora de Cristo, há muito havia sido esquecida e trocada por indulgências e ameaças de excomunhão e purgatório. Desde a Reforma Protestante, então, o homem pôde experimentar outra vez o quão amoroso e bom é o nosso Deus. Com o passar dos anos, porém, a graça foi perdendo novamente espaço dentro do movimento que se denomina evangélico. Se Armínio insistiu há alguns anos na salvação condicional, hoje em dia os meios de salvação são ainda mais diversos, incluindo desde a guarda do sábado até a fidelidade nos dízimos.
Muito mais que impor meios substitutivos para a graça, a teologia atual parece tirar do foco da pregação a própria necessidade da salvação. É um evangelho sem pecadores e sem cruz, baseado na ideia de que o homem é um ser sofredor, vítima da sua falta de fé, do sistema e do diabo, e que precisa do cuidado de Deus para ser feliz e prosperar. Ele merece essa felicidade, ela é seu direito conquistado por Cristo na cruz. Não há mais espaço nem necessidade para a graça salvadora de Deus. Como consequência natural, essa é uma teologia que não salva, não justifica,  não liberta, não sela com o Espírito Santo, não gera filhos para Deus,  não santifica e não produz crentes comprometidos como a Bíblia e os valores do Reino de Deus.
Um evangelho que não produz novo nascimento também não promove transformação de vida, não gera nas pessoas um caráter parecido com o de Cristo nem comportamentos comprometidos com a verdade. Se por um lado a falta de graça não produz conversão, por outro lado ela resulta em carnalidade. Muitas pessoas e igrejas quase inteiras tentam manter uma espécie de cristianismo sem Cristo e sem Bíblia, ou com um Cristo que não salva e uma Bíblia que só fala aquilo que todos esperam escutar. O resultado está não somente no tipo de pregação egocêntrica e gananciosa oferecida, mas também no padrão moral daqueles que se servem desta pregação.
Se a palavra graça significa "dom gratuito", na teologia sem graça nada é de graça, tudo é negociável: curas, libertações, exorcismo, a posse das promessas. A barganha com Deus se dá pelo uso indevido do nome de Jesus e o pagamento de pesados dízimos e ofertas. Deus não cura de graça, é preciso comprar algum objeto ungido. Deus não abençoa de graça, é preciso participar de alguma campanha de oração, fazer votos e provar a fé por meio de dinheiro dado ao pastor, bispo ou apóstolo. Não somente as bênçãos são negociáveis, mas também os valores. Ninguém parece se importar em estar ferindo princípios éticos e morais imutáveis e inegociáveis da Palavra de Deus, como verdade, honestidade, justiça, solidariedade, integridade, obediência e amor. O que está em vista não é o ser, mas o ter. Há uma escancarada inversão de valores, uma troca da ortodoxia pelo neoliberalismo mundano.
Quantas pessoas hoje vão ao supermercado comprar uma lâmpada incandescente? Provavelmente nenhuma, pois elas saíram de linha e cederam seu espaço às lâmpadas mais econômicas e duráveis, como as de LED. Se os donos de supermercados investirem na compra das antigas lâmpadas, terão prejuízo. O mesmo ocorre em diversas igrejas com relação às pessoas: o Evangelho da salvação parece não ser "rentável", porque são poucos os que se preocupam com a sua vida após a morte. Mas muitos se preocupam com um excelente padrão de vida, com a sua salvação financeira e como fazer para viver sem problemas. É isso que agora está nas prateleiras e é oferecido de forma escancarada. Tem-se trocado a graça da salvação pelo preço alto a ser pago por esse evangelho LED: a condenação eterna. A quantidade de chamados parece aumentar vertiginosamente, enquanto vê-se diminuir a quantidade de escolhidos.
Com toda essa nova realidade do cristianismo, criou-se uma expressão paradoxal: a pregação que esvazia igrejas. Se o objetivo dos líderes é encher de almas as igrejas através da pregação do Evangelho da cruz, o efeito tem sido justamente o oposto. Isto acontece porque, de acordo com a lei da oferta e da procura do mercado da fé, ninguém quer pagar ter mandamentos a seguir, arrependimento e abandono de pecados, compromisso com Deus e com a sua obra, reconciliação, certeza de lutas e perseguições, necessidade de viver se modo íntegro. O principal "produto" oferecido nas igrejas do Evangelho da cruz não pode ser usufruído plenamente no aqui e agora, mas somente no porvir. As pessoas pagam para ter bênçãos sem limites, uma vida cristã de facilidades e sem compromisso, que nada lhes cobre e lhes permita continuar em seus pecados. Elas não querem passar por aflições, mas exigem a vitória da cruz. Elas não ligam para o ensino da Palavra, o clamor missionário, a responsabilidade social cristã, mas querem estar onde se profetiza bênçãos. Se é de graça, não tem valor. Pregar contra essas coisas ou não satisfazer essas necessidades é de fato correr o risco de esvaziar os templos.
Para a nossa alegria, o templo pode esvaziar, mas a Igreja do Senhor jamais perde os seus membros. Eles estão firmemente alicerçados sobre a Rocha e possuem um amor incondicional pela Palavra de Deus, ao ponto de rejeitarem qualquer investida mundana e demoníaca contra a sã doutrina. Eles permanecem quando a palavra de exortação é dura e os convoca ao arrependimento e à santidade. Quando a tribulação chega, eles se lançam aos pés do Senhor e confiam nele. Eles não encostam Deus contra a parede exigindo que a felicidade plena os alcance, mas aprenderam a viver contente em qualquer situação, a não se abalar, não se entristecer, mas em tudo ao Senhor louvar. Eles não seguem Jesus porque esperam receber algo dele, mas porque já receberam algo que jamais mereceram: a salvação. Eles já não vivem mais para si, mas Cristo vive neles, santificando-os, fazendo-os frutificar.
Esses membros dessa Igreja conhecem, vivem e pregam a mensagem da cruz, uma mensagem de fé, esperança, salvação, reconciliação, quebrantamento, arrependimento, transformação, comprometimento, integridade e solidariedade. Os seus valores estão alicerçados sobre a Palavra de Deus e são inegociáveis. Jamais negam a fé, jamais abandonam a Deus, mesmo quando se acidentam nas veredas do antigo homem. Eles enxergam além das suas próprias necessidades, veem o próximo, encontram o irmão, socorrem os necessitados. Essa é a Igreja nascida na graça e que nela vive e trabalha. A igreja salva, remida pelo sangue de Cristo, assentada nas regiões celestiais desde antes da fundação do mundo. Essa é a Igreja que subirá com o Senhor nas alturas, que não está apegada ao reino deste mundo e aos seus prazeres e riquezas, mas que anela por uma pátria superior, por um tesouro imperecível já guardado para ela nos céus. Essa é a noiva do Senhor, que dia e noite clama: Vem, Senhor Jesus.


Mizael de Souza Xavier


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