quarta-feira, 13 de maio de 2015

A PALHAÇA GORDA






Ela sentou-se no chão e chorou. Assim que as suas lágrimas começaram a cair borrando toda a sua maquiagem, as pessoas finalmente começaram a rir. Primeiro um borburinho aqui e outro ali. De repente, alguém deu uma grande risada e disse: “Olhem só, ela está chorando!”. E aos poucos toda a plateia estava unida num sinfonia inquietante de gargalhadas, enquanto apontavam para ela ali, estática. Ela colocou as duas mãos tapando o rosto por alguns instantes. Queria estar em outro lugar que não ali, talvez em um buraco profundo e escuro.
            Ao passo em que as risadas aumentavam, ela foi se erguendo lentamente, até ficar totalmente de pé no meio do picadeiro. Apenas a sua cabeça permanecia abaixada num misto de vergonha e frustração. Mas quando erguia os olhos e olhava ao seu redor, podia ver o resto das pessoas rindo como jamais haviam rido em toda a sua vida. Até que sentiu uma pancada nas costas e viu uma fruta podre qualquer caindo ao chão. Lentamente inclinou-se para a plateia e agradeceu, como fazem os grandes artistas após um belo espetáculo, enquanto são ovacionados e recebem flores. Depois saiu lentamente ao som das risadas estridentes, que logo se transformaram em vaias, urros e palavras tão desprezíveis que ela jamais esqueceria, ainda que vivesse cem anos.
            Na coxia, a caminho do seu camarim, os seus amigos e colegas que tanto lhe deram força, tentaram consolá-la, mas não havia no mundo bálsamo capaz de curar a imensa dor que transpassava o seu coração ferido. A sua alma estava desfigurada pela amargura e pelo desprezo daqueles que ela desejara simplesmente divertir, levar motivos para fazer a alegria brotar como uma flor reluzente num asfalto duro e frio. Ela, que tentou levar um pouco da alegria que sempre fez parte da sua vida, mesmo dos momentos mais tristes, sentia-se frustrada. Já no camarim, sentada diante de um imenso espelho, ela pôde contemplar o seu rosto outrora radiante e risonho, e agora manchado pelo triste pranto. O panquêque branco da face misturava-se ao vermelho de redor da sua boca, como sangue escorrendo e manchando as folhas de um caderno. Pegou um lenço umedecido e começou a se limpar. Haveria de se livrar daquela pintura, que não passava de um símbolo amargo da ousadia de sonhar, da ilusão de achar que poderia fazer aquilo que todos afirmaram que ela jamais conseguiria. Ela pensou: “Eles têm razão, eu sou um fracasso, uma grande e gorda piada”.
            Mas o que teria saído errado? Durante a sua vida até ali ela tinha sido alvo de piadas. As pessoas se divertiam tanto com a sua figura, que ela começou a fazer graça, a ser a palhaça da turma. Passou a vinda inteira se escondendo por trás de uma máscara cômica para sofrer menos, para fingir que os apelidos que colocavam nela eram parte de um grande circo em que ela era a grande personagem principal. Preferia rir de si mesma ao ter que enfrentar a realidade de que era apenas um objeto de escárnio, era desprezada, abominada. Alguns diziam: “Lá vem a palhaça gorda!”. E foi o que ela tentou fazer: ser a palhaça gorda. Então, o que tinha saído errado? Por que quando ela se vestiu como uma palhaça, se pintou como uma palhaça e se apresentou no circo como uma palhaça as pessoas não riram? Por que elas riram apenas da sua dor, da sua vergonha, das suas lágrimas, da sua desgraça? Por que a maior diversão do público naquela noite de grande espetáculo tinha sido rir vendo a palhaça gorda chorando?
            Ela voltou para o seu lar, o vigésimo andar de um apartamento no subúrbio. Ao menos a sua família, os seus pais, se importavam com ela. Jamais deixaram de amá-la, de lhe dar ânimo para vencer tantos obstáculos impostos pela vida, pelas pessoas que a vida lhe trazia. Beijou a sua mãe, abraçou o seu pai, pediu-lhes a bênção. A sua mãe lhe perguntou: “O que houve, minha filha? Você parece triste?”. Ela respondeu: “Não é nada mãe. Só estou um pouco cansada”. Poucos minutos depois ela estava na varanda do apartamento. Colocou um banquinho próximo à grade que a protegia de cair lá em baixo. As risadas e os xingamentos ainda ecoavam em sua mente e atordoavam o seu coração. Mesmo ali, sozinha, ela podia ver cada rosto, cada expressão de desprezo, cada dedo apontado na sua direção.
Enquanto mais lágrimas caíam dos seus olhos e se lançavam ao solo, ela subiu lentamente no banco, passou as pernas para o outro lado da grade e se sentou sobre ela, apoiando-se com as duas mãos. Os carros e as pessoas transitando metros a baixo dos seus pés, pareciam minúsculas formigas indo e vindo. Ela então abriu os braços no desejo de abraçar a morte, fechou os olhos e respirou fundo. Com certeza as gargalhadas iriam cessar e ninguém nunca mais ia rir à custa da palhaça gorda. Seria aquele o seu último ato, a cena crucial e derradeira da sua vida e da sua carreira. Ele se inclinou para frente para permitir que o seu corpo se entregasse nas mãos implacáveis da lei da gravidade e pudesse encontrar no seu fim o começo para uma nova vida. A última lágrima caiu. Duas mãos tocaram os seus ombros e a puxaram fortemente para trás. Ela caiu no chão da varanda do apartamento ainda com os olhos fechados. Quando abriu os olhos lentamente, o seu pai e a sua mãe estava de joelhos ao seu lado e choravam, enquanto a olhavam com o olhar mais terno e amoroso que se poderia ver em todo o universo, em toda a história. Ela sentou-se, enxugou as lágrimas e abraçou os seus pais, dizendo: “Obrigado por me amarem”.


OBS: Foto meramente ilustrativa copiada da Internet. Esta história não diz respeito à vida da pessoa na foto.

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