segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

QUAL A MENSAGEM DA MISSÃO?




TEXTO ÁUREO: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo, quem, porém, não crer será condenado” (Marcos 16:15,16).


1. INTRODUÇÃO

O Senhor Jesus deu à sua Igreja uma tarefa que outrora era confiada aos profetas: a de pregar ao mundo o seu Evangelho. Essa tarefa tem sido realizada com brilhantismo no decorrer da história cristã, mas também carrega alguns momentos de obscuridade. Nem sempre o que foi pregado foi a mensagem que o Senhor deixou. Atualmente, acima de tudo no cristianismo neopentecostal à moda brasileira, a mensagem evangélica tem sido deturpada, cedendo o seu lugar a uma proclamação triunfalista do ideal humano de felicidade plena e prosperidade financeira. A humildade de Jesus, o seu sacrifício na cruz e a salvação que é oferecida por meio desse sacrifício estão sendo desprezados. Não existe mais espaço para pregações que envolvam a fé e o arrependimento, os dois elementos básicos da conversão, muito menos a santidade de vida consequente dessa conversão.


2. PERGUNTA DE TRANSIÇÃO

Quando pensamos em missão, a qual missão nos referimos? Se a nossa missão é pregar o Evangelho, sabemos ao menos qual o conteúdo do Evangelho que deve ser pregado? As nossas pregações estão alinhadas com a mensagem da cruz? Entender isso nos ajudará e compreender a nossa posição como missionários e o nosso real papel como embaixadores do Reino de Deus.


3. DEFININDO A MISSÃO DA IGREJA

A missão da Igreja é a glorificação do Nome de Deus por meio de ações coerentes com os valores do seu Reino, tendo como base sólida a sua Palavra e como fator motivador o amor, vivendo debaixo da sua graça e na dependência total do Espírito Santo. Deus é glorificado quando aquilo que somos, pensamos, sentimos, falamos e fazemos reflete o seu caráter santo e justo e está submisso à sua soberana vontade.


4. A GRANDE COMISSÃO

Compreender a missão e o nosso papel como ministros do Evangelho de Cristo significa, antes de mais nada, compreender a natureza da Grande Comissão. Para alguns ela se mostra bastante simples, uma tarefa evangelística de anunciar as boas-novas aos povos. Para outros ela é impraticável, uma vez que, de acordo com algumas teologias, o Evangelho não precisa ser pregado. Ainda outros veem nas missões um problema sério e incompatível com o pensamento mundano do politicamente correto, onde cada um tem a sua crença e devemos respeitar a todas. Pregar o Evangelho significaria ir contra a liberdade religiosa humana ou um proselitismo que visa impor uma crença sobre as outras.


4.1 Um chamado: Ide

A quem o Senhor Jesus dirige quando ordena que o seu evangelho seja pregado? A quem Ele está chamando? Um grupo de elite de crentes munidos das armas espirituais corretas para divulgar as boas-novas? Este é um chamado para a Igreja. Se a Grande Comissão é para toda a Igreja, precisamos compreender como esta deve se comportar diante do chamado do Senhor, não como um indivíduo apenas, mas como um corpo.

·         A Igreja é o corpo de Cristo, logo, todos os seus membros devem estar envolvidos na tarefa da evangelização. Cada crente é um evangelista, um missionário. Embora exista o dom de evangelismo, que capacita pessoas de forma especial e extraordinária para o serviço da evangelização, todo crente é por natureza um evangelizador, um fazedor de discípulos.
·         O termo grego para “ide” é proteuthentes, que significa “indo”, o que mostra uma Igreja que está a caminho. Muito mais que uma comunidade reunida em torno de si mesma para cultuar a Deus, a Igreja se mostra itinerante, envolvida com a tarefa de levar a Palavra de Deus ao mundo. Quando aprendemos que culto não é aquilo que de presta a Deus dentro de um templo, mas um estilo de vida santo e obediente, entendemos que o nosso culto envolve todo o nosso ser, todos os momentos e aspectos da nossa vida. Logo, onde estivermos Deus deverá estar sendo cultuado. Onde estivermos seremos membros do seu corpo atuante. Não fomos salvos para ficar, mas para ir. A nossa vida cristã é dinâmica, militante, transformadora.
·         A Igreja Caminhante é aquela que está a caminho, de porta em porta, de vida em vida, de necessidade em necessidade, de amor em amor, de luta em luta, de Palavra em Palavra, de fé em fé. Ela não está estagnada, não cultua a Deus a partir de si mesma, mas a partir da verdade Bíblica que lança o cristão num relacionamento horizontal (pessoas-pessoas; Igreja-mundo) como fruto de um relacionamento vertical (Igreja-Deus). Estar a caminho, fora das quatro paredes do templo e da prisão invisível do nosso ego significa que entendemos o chamado de Jesus. Nenhum profeta ou servo do Senhor, ao ser chamado, permaneceu onde estava. Até mesmo Jonas saiu do seu lugar, embora em direção oposta àquela designada por Deus. Jamais poderemos ficar indiferentes ao chamado de Deus. A própria estagnação é uma resposta, todavia negativa, mas que prestaremos contas a Deus.


4.2. Uma direção: por todo o mundo

A direção da Igreja comissionada por Jesus é o mundo inteiro. O Senhor disse em Atos 1:8: “mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra”. A Igreja não pode se limitar àquilo que acontece nas suas quatro paredes. Hoje temos uma Igreja ensimesmada, que vive somente para si, suas programações e eventos, sem se preocupar com os que estão fora das suas quatro paredes e precisam ouvir o Evangelho. Isso tem a sua raiz numa teologia que convence o indivíduo de que o centro da sua adoração é ele mesmo e seus problemas, não colocando a sua fé a serviço do Reino, do irmão, do próximo, mas tão somente das suas necessidades e sonhos. Precisamos ir até as pessoas, não esperar que elas venham até nós. Estratégias para atrair o pecador para ouvir a Palavra no templo estão equivocadas. Coloca-se nas mãos do pastor o poder de pregar e converter almas e exclui-se o restante da Igreja dessa tarefa. A pregação é onde o pecador estiver.

O fato de Jesus delimitar a área de atuação dos discípulos a partir do local onde eles se encontravam, mostra uma preocupação doméstica. Os primeiros a ouvirem a mensagem do Evangelho deveriam ser os judeus, depois os seus vizinhos samaritanos, até que a mensagem se estenderia por todas as partes. Nós já fazemos parte dos “confins da terra”, somos povos longínquos alcançados pelo Evangelho. A nossa missão deve começar aqui mesmo, na nossa rua, no nosso bairro. Muitas vezes nos preocupamos com o que acontece do outro lado do mundo e não enxergamos o que acontece logo ali na esquina. Treinamos e enviamos missionários para a África ou a Ásia, enquanto existem pessoas sedentas do Evangelho aqui mesmo. Isto não significa que não se deve enviar missionários para longe, mas que precisamos priorizar o nosso quintal, a nossa casa antes de cuidarmos da casa dos outros. Vemos aqui a grande importância do discipulado, do treinamento de evangelistas nesses países, para que eles alcancem seu próprio povo e possam atuar na sua própria área, sem depender da força-tarefa de outros países.


4.3. Uma missão: e pregai

A missão da Igreja é a glorificação do Nome de Deus, sendo a proclamação do Evangelho um elemento essencial dessa missão. Somos chamados a pregar, a proclamar, a falar. A palavra proclamação vem do termo grego kerygma e também pode significar pregação (Mt 12:41; Mc 16:8). Nem sempre é isto que está acontecendo. Quando olhamos certas denominações, percebemos que o kerygma está muito longe de ser a sua alma. Exalta-se a liderança, expulsa-se demônios, opera-se milagres, pratica-se uma fé sincrética e supersticiosa, promete-se bênçãos de prosperidade financeira e felicidade total, faz-se campanhas de oração de todos os tipos, utiliza-se objetos sagrados e mantras, mas não se proclama mensagem alguma. Como fazer discípulos sem o Evangelho que gera discípulos? Como os pecadores serão convencidos do pecado se até mesmo a própria palavra “pecado” já foi erradicada dos púlpitos? As mensagens modernas assemelham-se ao conteúdo dos livros de autoajuda, que colocam o homem em busca de si mesmo, não de Deus. Muitos pregadores têm trocado o conteúdo do Evangelho por palestras sobre temas psicológicos, apresentando as grandes descobertas das ciências da mente como soluções simples para os problemas da humanidade, não fazendo mais menção ao poder de Deus e a atuação do Espírito Santo na vida do crente. Tudo se resolve com terapia e força de vontade, que alguns traduzem como fé.

A proclamação verdadeira do Evangelho genuíno envolve:

·         A pregação verbal do Evangelho, anunciando a Cristo e mostrando o plano da salvação (1 Pe 2:9).
·         O discipulado: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século” (Mt 28:19,20). Após a conversão, o crente precisa ser ensinado quanto àquilo que Deus espera dele e que está expresso na Bíblia. O objetivo desse discipulado, além de fortalecer a fé e desenvolver a santidade do discipulando, deve levá-lo a fazer novos discípulos.
·         O ensino: “ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado” (cf. 2 Tm 2:2). O ensino na Igreja tem um conteúdo: a mensagem de Jesus. Nada que ultrapasse esta mensagem deve fazer parte do ensino da Igreja.
·         Cuidado com os pobres (Gl 2:10). A Igreja tem uma tarefa social, a de cuidar dos pobres que estão no seu meio e daqueles que não fazem parte do seu rol de membros. Essa tarefa social é uma resposta positiva ao amor de Deus em nós, que nos leva a amar a nós mesmos e ao próximo.


4.4. Uma mensagem: o Evangelho

Eis o conteúdo do “pregai". Este é o ponto central do chamado da Igreja, da sua missão. A mensagem errada nos levará a práticas erradas. Que Evangelho temos pregado? Que palavra temos ensinado? Que tipo de discípulos estamos fazendo? A mensagem que o Senhor nos enviou a pregar não foi outra senão o seu Evangelho. A palavra “evangelho”, do grego euangelion, significa “boa notícia”, ou “boa-nova”. Mas que boas novas são essas? É uma mensagem essencialmente de salvação, como podemos atestar ao ler toda a Bíblia. O evangelho que tem sido pregado hoje é um evangelho mentiroso, de facilidades e prosperidade, que retiram Jesus do centro da mensagem para colocar o homem e as suas necessidades e projetos. Não se fala mais em salvação, arrependimento de pecados, conversão, céu ou inferno. A mensagem da missão da Igreja é a cruz de Cristo. Se não estamos pregando sobre a cruz, não estamos fazendo missão, mesmo que estejamos de casa em casa, cidade em cidade, país em país. João resumiu o seu Evangelho da seguinte maneira: “Estes, porém, foram registrados para que creias que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20:31). A mensagem bíblica é uma mensagem de arrependimento e conversão:

·         Antigo Testamento: “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós” (Is 53:6).
·         Os anjos: “eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor” (Lc 2:10,11).
·         João Batista: “Naqueles dias apareceu João Batista pregando no deserto da Judeia e dizia: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 3:1).
·         Jesus: “O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1:15).
·         Pedro: “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados, a fim de que, da presença do Senhor, venham tempos de refrigério, e que envie ele o Cristo, que já foi designado, Jesus” (At 3:19,20).
·         Paulo: “Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam” (At 17:30).
·         João: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 Jo 1:9).
·         Apocalipse: “Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te” (Ap 3:19).


4.5. Um público: a toda criatura

O Senhor Jesus não determinou um grupo de pessoas específico para ouvir a mensagem da salvação. “Toda criatura” significa todas as pessoas da face da terra, independente de sua condição social, cultura, etnia, nível de escolaridade, filosofia política, vícios ou qualquer outro fator. Todos precisam ouvir as boas-novas de salvação. Alguns cristãos chamados de “calvinistas radicais” entendem que a salvação é somente para os eleitos e que eles de alguma forma serão salvos, pois não podem perecer. Então não é necessário pregar o Evangelho. Mas não é isso que a Bíblia ensina. Mesmo aos próprios eleitos a salvação está condicionada ao ouvir da Palavra de Deus. A fé vem pela pregação e a pregação pela Palavra de Cristo (Rm 10:17). Esse público está lá fora, no mundo. A Igreja não pode deixar de sair e pregar o Evangelho. Todavia, a grande maioria das nossas programações são voltadas para nós mesmos: cultos e campanhas diversos, festividades, jejuns, eventos (mulheres, jovens, adolescentes, crianças, casais).

Outro problema envolvido nessa questão é que, conforme alguns pastores e pregadores crescem em seus ministérios e alcançam certa proeminência, já não se contentam mais com públicos pequenos, dando preferência às grandes multidões. Pregar em uma “igrejinha” já não é para eles, porque eles são muito grandes para tão pouco. De pastores passam a conferencistas, palestrando apenas em grandes eventos ou grandes igrejas, e isso a um preço alto. O fato de cobrarem por uma pregação demonstra que o que está em vista não é o Reino de Deus nem a glorificação do seu santo Nome, mas a exaltação do pregador. Embora os grandes sermões de Jesus tenham sido direcionamos a poucas pessoas (como os seus discípulos) ou apenas a uma pessoa (como Nicodemos e a mulher samaritana), os pregadores modernos acham desperdício de tempo e talento preparar um sermão para meia dúzia de crentes escutarem.


4.6. Uma promessa de salvação: Quem crer e for batizado será salvo

A mensagem do Evangelho traz uma viva esperança: a certeza da salvação em Cristo, o perdão para os pecados, a comunhão reatada com Deus, a filiação divina, o selo do Espírito Santo. Essa mensagem tem sido trocada por uma esperança meramente terrena, por bênçãos passageiras que não levam à salvação nem produzem compromisso com o Reino de Deus. Estamos escondendo das pessoas a mensagem principal do Evangelho, apresentando uma proclamação equivocada que não coloca ninguém no céu. De certa forma, estamos fechando as portas do céu a quem deseja entrar. É preciso dizer abertamente que Cristo salva (Jo 3:16), que Ele nos liberta do pecado e nos livra da ira de Deus e do seu juízo (Jo 3:18; 5:24). O Evangelho é poder de Deus para a salvação (Rm 1:16). Falando aos presbíteros de Éfeso a respeito do seu ministério naquela importante cidade, Paulo fala sobre o conteúdo do seu ensino: “jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa e de vo-la ensinar publicamente e também de casa em casa, testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo (At 20:20,21). Arrependimento e fé são as bases da verdadeira conversão. Muitas “conversões” são produzidas sem essas duas bases, o que gera crentes insinceros, isto é, que jamais se converteram de verdade.


4.7. Uma promessa de condenação: Quem, porém, não crer será condenado

A Palavra de Deus é a verdade (Jo 17:17). Ela não é uma meia-verdade. Quando a proclamamos, não podemos ocultar absolutamente nada. Se existe uma promessa de salvação para aqueles que crerem no Evangelho, também existe uma promessa de condenação para os que não crerem (Rm 3:9,23). Estes serão condenados. Para alguns, a nossa mensagem é cheiro de vida, mas para outros, cheiro de morte (2 Co 2:14-17). João 3:36 junta estas duas realidades: a vida eterna para quem crê no Filho de Deus e a ira para aqueles que permanecem rebeldes contra Ele. Apocalipse 21 também expressa essas duas situações: as delícias do paraíso celestial para os crentes em Cristo Jesus e a danação eterna no inferno para os ímpios (Ap 21:1-8). Se existe a vida, existe a morte e a segunda morte; se existe a salvação, existe a condenação; se existe o céu, existe o inferno; se existe o perdão, existe o castigo. A pregação que não apresenta os dois lados da moeda, não é o Evangelho. Assim como não podemos apenas falar do céu sem nos referirmos ao inferno, também não podemos falar somente do inferno sem qualquer alusão ao céu.


5. CONCLUSÃO

A missão da Igreja é a missio Dei, isto é, a missão de Deus. Nesta missão, conhecer a natureza de Deus, da sua mensagem e da Igreja é essencial. Fora da Palavra de Deus, não existe cristianismo genuíno. Aquilo que se sente, pensa, fala e prega acerca de Deus deve estar bem firmado na sua Palavra, sendo prático, impactante, transformador e capaz de alcançar as almas de Jesus (cf. Rm 1:16,17; Cl 1:28,29).


Mizael Xavier

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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

CINCO EVIDÊNCIAS DE QUE VOCÊ PRECISA DE SALVAÇÃO


CINCO EVIDÊNCIAS DE QUE VOCÊ PRECISA DE SALVAÇÃO
(Mizael Xavier)

TEXTO ÁUREO: “E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo” (Hb 9:27).


INTRODUÇÃO

Um dia a humanidade estará diante de Deus para ser julgada por Ele. Entretanto, nem todos têm essa consciência; alguns porque ainda não sabem, porque ninguém lhes ensinou sobre isso; outros porque preferem crer que isso é mentira ou que são boas demais para ir para o inferno. O fato é: independente de acreditarmos ou não, o julgamento acontecerá, e será num dia em que não sabemos, num abrir e fechar de olhos (1 Co 15:52), num momento em que ninguém espera (Mt 25:13). Neste dia, todas as nossas crenças terão sido válidas ou nos lançarão num abismo profundo.


PERGUNTA DE TRANSIÇÃO:

Se você morresse hoje, estaria preparado para enfrentar o grande julgamento, para ser julgado por Deus? Pode ser que não. Pode ser que esteja seguro por achar-se bom demais para ir para o inferno e que Deus lhe dará uma boa recompensa. Mas eu quero lhe apresentar algumas evidências que vão lhe provar que você precisa desesperadamente de salvação.


AS EVIDÊNCIAS

Primeira evidência. Nós não somos considerados pecadores por causa dos pecados que praticamos diariamente, mas por causa de um pecado maior, chamado de “pecado original”, originado na Queda do homem no jardim do Éden. Quando Adão e Eva desobedeceram a Deus, condenaram toda a raça humana (Gn 3:1-24). Assim, todos os que nasceram a partir de então, nasceram sob condenação, destituídos da glória de Deus (Rm 3:23). O pecado não é um evento, mas uma condição de toda a humanidade. Todos sem exceção nascemos perdidos e mortos (Rm 5:12).

Segunda evidência. O pecado original afastou o homem de Deus, colocou-o debaixo da sua ira e trouxe-lhe a presença do pecado e da morte (Rm 6:23). Todos nós nascemos mortos em nossos delitos e pecados. Não há quem faça o bem nem que busque a Deus. Todas as nossas justiças de Deus são como coisa imunda e desprezível (Rm 3:10-18). Não há nada que possamos fazer para reverter essa situação. Não somos capazes de cumprir a Lei de Deus, de seguir os seus mandamentos. Estamos constantemente pecando. O pecado é um crime contra Deus passivo de punição.

Terceira evidência. Os nossos pecados individuais denunciam que de fato fomos afetados pela Queda. A nossa natureza é de todo corrompida, não existe bem algum dentro de nós (Mt 15:19; Rm 7:17-19). O fato de pecarmos sempre, de não conseguirmos cumprir a lei de Deus é uma prova de que nada podemos fazer sem Deus e de que precisamos de salvação (1 Jo 3:4-9). Deus é justo em nos condenar no dia do julgamento, em nos enviar para o inferno, um lugar de tormento eterno, onde nunca mais teremos a oportunidade de nos arrepender para alcançar a vida eterna (Mt 25:41; 1 Ts 1:4-10; Ap 20:13-15; 21:8).


Quarta evidência. Como não estamos debaixo da ira de Deus por conta dos nossos pecados em primeiro grau, mas da nossa condição de pecadores herdada na Queda, os nossos pecados são apenas consequências desse mal maior. Logo, mesmo que sejamos pessoas aparentemente santas e justas aos nossos olhos, mesmo que pratiquemos o bem e façamos caridade, ainda assim estamos sob condenação, debaixo da ira de Deus, porque a salvação não é pelas obras, mas pela fé em Jesus Cristo (Jo 5:24; Ef 2:8,9; Gl 2:21; Rm 3:24; 9:16). Logo, ninguém pode se achar desculpado diante de Deus nem crer que sem Cristo poderá ir para o céu, ou que não precisa de Deus nem do céu. Assim, o destino final continuará sendo o inferno, para onde o pecador irá com todas as suas boas obras praticadas com o intuito de merecer a salvação. O apóstolo João escreveu: “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 Jo 1:8,9).

Quinta evidência. A ira de Deus contra o pecador está patente nas Escrituras, de modo que não existe possibilidade de alguém se considerar justo ou de não precisar de salvação (Jo 3:36; Rm 1:18; 2:6-8; 12:19). Embora Deus seja amoroso e bom, Ele não compactua com o pecado; logo, punirá o pecador e sua irresoluta desobediência. A Bíblia garante essa condenação e afirma que ela está próxima.


A SALVAÇÃO PROVIDENCIADA

Deus providencia um meio de salvação. O salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida (Rm 6:23). Deus não sente prazer na morte do ímpio, por isso lhe forneceu um meio de salvação: seu único Filho, que morreu na cruz para salvar o pecador (Jo 3:16; 1 Pe 2:22-24; 3:18; 2 Co 5:21). A dívida impagável que temos com Deus foi paga por Cristo ao derramar o seu sangue. Através de Cristo somos regenerados, a ira de Deus que está sobre nós é aplacada, a paz entre Ele e nós é feita e finalmente somos com Ele reconciliados (Cl 2:13-15). Quando aceitamos a Jesus como nosso Senhor e Salvador, somos selados com o Espírito Santo e nos tornamos seus filhos (Ef 1:13). Esta salvação é unicamente pela graça de Deus, pela fé em Jesus Cristo. Não existe nada que possamos ou precisemos fazer, apenas crer quando convencidos do pecado pelo Espírito (Rm 5:1; Ef 2:8,9). Embora Deus abomine o pecado, Ele nos ama e prova o seu amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores (Rm 5:8). A fé em Jesus nos garante a vida eterna nos céus (Jo 6:68; 17:3; 1 Jo 5:11-13; Gl 6:7,8).

A salvação é agora. Deus determinou um tempo em que virá julgar a humanidade. Muitos vivem de acordo com a sua vontade afirmando que “tudo é no tempo de Deus”. mas não sabemos quando será esse tempo, quando Jesus voltará. A Bíblia não diz que devemos “esperar o tempo de Deus” para nos arrependermos, mas que esse tempo é agora, já, imediatamente: “Eu te ouvi no tempo da oportunidade e te socorri no dia da salvação; eis, agora, o tempo sobremodo oportuno, eis, agora, o dia da salvação” (2 Co 6:2). O apóstolo Pedro escreveu: “Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento. Virá, entretanto como um ladrão, o Dia do Senhor...” (2 Pe 3:9,10). Para aqueles que desejam viver a sua vida segundo seus interesses, sem atentar para a necessidade de salvação, o Senhor diz: “Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é o que entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus” (Lc 12:20,21).

Nem todos crerão. Muitos argumentam que Deus é bom demais para punir alguém com algo tão terrível como o inferno, um lugar de tormento, de fogo e enxofre, onde a alma arderá pela eternidade. Mas a Bíblia nos garante essa condenação aos ímpios, aos que se mantiveram rebeldes contra o Filho e morreram sem crer nele para a salvação (Jo 3:36). O amor de Deus inclui a sua ira e a sua indignação contra o pecado e o pecador (1 Ts 5:3; 2 Ts 1:8,9). Ao lançar o pecador no inferno, Deus está sendo justo, como está sendo misericordioso ao levar o crente para o céu para reinar com Ele (Rm 2:6-11; 9:22-24; 11:22; 1 Ts 5:9). O apóstolo João escreveu: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome” (Jo 1:11,12).


CONCLUSÃO

Independente da sua ideia a respeito de Deus, de Jesus, da salvação e da eternidade, o fato bíblico inegável é que você é um pecador e está distante da glória de Deus, carente de uma salvação que somente a fé em Cristo pode lhe dar. A decisão de abraçar a fé ou não repercutirá na sua eternidade e revelará onde você irá passá-la, para onde a sua alma irá após o Juízo Final: céu ou inferno. Deus lhe diz nas Escrituras: “Ora, não levou Deus em conta o tempo da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam; porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos” (At 17:30,31). Você quer comparecer diante de Deus como quem rejeitou a sua salvação ou como aqueles que o amam e esperam a sua vinda? O autor de Hebreus escreveu: “assim também Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para a salvação” (Hb 9:28).


APELO

Se o Espírito Santo tocou o seu coração, se você reconhece que é pecador e que está debaixo da ira de Deus; se você entende que somente pela fé em Jesus Cristo pode ser salvo e que virar as costas a esta salvação é incorrer em condenação eterna, arrependa-se, aceite a Jesus como seu único e suficiente Salvador e receba de graça a vida eterna (Lc 5:31,32; At 3:19).


Mizael de Souza Xavier
22 de fevereiro de 2017.

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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A GRAÇA SOBERANA DE DEUS E A CERTEZA DA SALVAÇÃO




1 A QUEDA DO HOMEM

            Conforme aprendido em sala de aula durante as aulas do curso de soteriologia, a doutrina da salvação possui um histórico de controvérsias envolvendo diferentes teólogos ao longo dos séculos. Todas essas questões têm como ponto de partida o problema causado pela Queda, como descrito em Gênesis 3:1-24. O mundo, tanto geográfico quanto o estado de coisas pós-Queda, é um lugar destituído da presença direta de Deus tal qual ele a possuía no paraíso. No mundo, destituído da glória de Deus, o homem vive sob a presença da ira divina e a maldição do pecado. Embora a graça comum de Deus ainda esteja agindo através da sua lei e da sua providência, o mundo é o palco das ações malignas praticadas pelo homem pecador. Somente a graça de Deus faz com que esse mal não ultrapasse certos limites, permitindo ao homem ainda cultivar sentimentos de justiça e equilíbrio mental que o impedem de extrapolar o seu próprio mal. A leitura do homem pós-Queda não é das mais animadoras. Ele foi criado por Deus e posto no paraíso para viver eternamente e em plena comunhão com Ele. Se no Éden o homem andava com Deus, passeava com ele naquele lindo jardim, após a Queda a sua presença dessa forma pessoal foi suprimida e o homem pecador passou a ter de invocá-lo, o que vemos a partir do nascimento de Enos, filho de Sete (Gn 4:26).
A narrativa da Queda se inicia bem antes da própria Queda em si, no momento em que Deus estabeleceu limites para o agir humano no paraíso que criara. Após dar a Adão e Eva domínio e liberdade sobre todas as coisas criadas, o Senhor os advertiu: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás: porque no dia em que dela comerdes, certamente morrereis” (Gn 2:16,17). A transgressão de Adão e Eva veio pela desobediência a uma lei de Deus. Se havia uma lei que eles deveriam obedecer, significa que havia a possibilidade nata da desobediência. Junto com a lei, a consequência da sua quebra. Nota-se que Deus afirmou que comer do fruto da “árvore proibida” redundaria em morte. Este aviso serviu como um contra-argumento de Satanás: “É certo que não morrereis” (3:4), revelando-o como o pai da mentira (Jo 8:44).
Na Queda, a situação confortável e favorável do ser humano foi transformada, porque o homem desobedeceu a Deus, atraindo maldição para si e para toda a criação. Se antes da Queda o homem tinha uma inclinação positiva para Deus, após a Queda ele se tornou escravo do mal. A sua perfeição tornou-se imperfeição, a sua vontade tornou-se maligna e a sua liberdade foi suprimida pela escravidão do pecado. Somos, então, seres caídos, destituídos da glória de Deus, herdeiros do pecado do primeiro casal e carentes de uma salvação que somente em Cristo podemos obter. Em Romanos 5:12, essa realidade está explicitada: o pecado e a morte são herdados por toda a humanidade. É um evento de proporções mundiais e que se estende por todos os tempos até a volta de Jesus. Nenhum ser humano nascido a partir da Queda está isento do pecado original nem da necessidade de fé e arrependimento para a salvação. Todos somos pecadores (Jo 8:34; 1 Jo 1:8,9; 3:8; Rm 7:14-17; Pv 28:13; Sl 32:1,5; 25:11).
Conforme aprendido, Agostinho (354-430) sistematizou o que chamou de “os quatro estados da alma”. Em primeiro lugar, define-se Deus como non posse peccare (não posso pecar), referindo-se a sua impossibilidade de pecar (cf. Lv 11:44; 1 Sm 2:2; Hc 1:13; Tg 1:13). O pecado é algo particular do ser humano e que não encontra em Deus nenhuma culpa. Agostinho definiu:

1.      Pré-Queda: posse peccare, posse non peccare (posso pecar, posso não pecar). Embora o homem tivesse sido criado com a posse peccare, isto é, com uma capacidade nata para cair, antes da Queda ele podia escolher somente aquilo que era agradável a Deus, vivendo em estado constante de submissão (posse non peccare).
2.      Pós-Queda: non posse non peccare (não posso não pecar). A partir do momento em que desobedeceu a Deus e perdeu a comunhão com Ele que desfrutava no paraíso, a sua presença pessoal, o homem passou a não ter mais possibilidade de “não pecar”. A sua inclinação é totalmente depravada, impossibilitada de escolher não pecar, senão pela graça de Deus. Este é o conceito de “depravação total” ensinado pelo Calvinismo.
3.      Renascido: posse peccare et posse non peccare (posso pecar e posso não pecar). Em Cristo, o homem é remetido à situação anterior experimentada no Éden, isto é: a possibilidade de escolher não pecar. Isso é possível pela graça de Deus que o alcançou e pela presença do Espírito Santo em seu coração.
4.      Glorificado: non posse peccare. Em seu estado glorificado após a sua inserção no céu, o homem não terá mais a possibilidade de pecar. No céu não haverá a presença do pecado e a salvação terá sido completada pelo Senhor.

Outros estudiosos da Bíblia, acima de tudo Pelágio (350-423) pensavam e ensinavam de forma diferente e contrária ao ensino de Agostinho. Ele foi proibido de lecionar e os seus ensinos foram declarados como heréticos nos concílios de Cartago (418), Éfeso (431) e Orange (529). Dentre as distorções do ensino claro das Escrituras a respeito da Queda e das suas consequências, podemos destacar suas afirmações infundadas que a alma humana não foi maculada pelo pecado, que Adão foi apenas um mau exemplo e não herdamos dele a culpa hereditária; sendo assim, Deus não precisa atuar na vida humana nem salvar o pecador (tecnicamente não existe pecador). Para ele, o homem tem a possibilidade, mesmo após a Queda, de não pecar, isto é, de escolher sem a intervenção de Deus fazer aquilo que o agrada. Pelágio deu grande ênfase ao “livre-arbítrio”, o contrário de Agostinho, que cria tão somente na “livre agência”. As doutrinas de Pelágio desembocarão nos fundamentos de fé de Armínio (1560-1609).

2 OS CINCO PONTOS DO CALVINISMO

            Outros temas aprendidos estão atrelados à doutrina da salvação: conversão, arrependimento e fé. Quando falamos em conversão, outros temas nos vêm à mente e implicam em algumas dificuldades para entendermos a genuína conversão. Se pensarmos em ternos de arminianismo, entenderemos que o ser humano não é corrompido totalmente e por isso ainda possui uma capacidade dada pela “graça preveniente” de Deus de responder positivamente ao chamado à conversão. Logo, esta partiria de um entendimento humano da sua condição pecaminosa e a sua resposta ao chamado gracioso de Deus para abraçar a salvação oferecida a todos por Cristo. Pensando sob o ponto de vista calvinista e a depravação total do ser humano, a conversão parte de um chamado eficaz do Senhor aos seus eleitos, que não veem outra opção senão se converterem a Ele. A isso se chama “graça irresistível”. Não há como resistir ao chamado de Deus.  Este chamado é “especial” ou “eficaz”. Embora o arminianismo creia que a salvação é em Cristo somente, por meio da graça, o fato de o pecador escolher ou não ser salvo, afeta negativamente a soberania de Deus e torna o homem participante da sua salvação (sinergismo), uma vez que cabe a ele dizer sim ou não a Deus. Na doutrina calvinista, a obra da conversão, inclusive a própria fé que salva (Ef 2:8,9), é exclusivamente de Deus e não há participação alguma do pecador nesse processo (monergismo).
            Segundo o meu entender, não é possível sustentar a doutrina arminiana, que em tudo nos recorda a heresia pelagiana. Enxergar o ser humano como alguém capaz de buscar a Deus por sua própria vontade e ser salvo através de uma cooperação com o Espírito Santo, é desprezar o sacrifício de Cristo na cruz e ir contra os propósitos eternos de Deus. Como alguém que se encontra morto em seus delitos e pecados (Ef 2:1) pode buscar a vida por uma vontade nata? Além disso, o livre-arbítrio também não parece ser condizente com o ensino geral das Escrituras Sagradas, onde a soberania de Deus se mostra em cada passo da vida humana rumo a um fim já planejado. Dessa forma, a explicação agostiniana estudada no capítulo anterior e desenvolvida posteriormente por João Calvino (1509-1564) demonstra-se uma forma clara de entendimento das Sagradas Escrituras naquilo que diz respeito à salvação do pecador. De acordo com Calvino, toda a raça humana herdou a corrupção e a culpa oriundas da Queda, de modo que somos totalmente depravados, participantes do pecado de Adão. Ele também enfatizou a vontade soberana de Deus contra a ideia do livre-arbítrio pregada por Armínio. Assim sendo, o homem é totalmente mal e incapaz de por si só buscar a Deus. outra ênfase de Calvino foi sobre a eleição divina de alguns indivíduos para alcançarem a salvação, em contraponto à eleição de um povo (igreja) ensinada por Armínio.
            Abraçar os cinco pontos do calvinismo determinados pelo sínodo de Dort (1619-1618), ao menos para mim, não é de todo simples, tendo em vista certa resistência à ideia da eleição incondicional. Todavia, entender a condição humana como sendo de depravação total, a sua impossibilidade de buscar a salvação por sua própria vontade e a soberania indiscutível de Deus, faz-nos entender que só existe uma forma para o pecador alcançar a salvação: quando chamado por Deus e convencido do pecado pelo Espírito Santo, onde a própria fé é um dom de Deus dado ao pecador para que Ele creia. Assim sendo, segue a minha compreensão sobre aquilo que creio ser a vontade de Deus referente à salvação do pecador, baseado nos cinco pontos do calvinismo.

2.1 Depravação total

“Depravação total” significa que o homem está de todo corrompido pelo pecado, de modo que não pode mais escolher não pecar nem buscar a Deus. A Queda trouxe-nos a presença da concupiscência. A concupiscência é a propensão humana para o pecado, a busca pelo paraíso por meio da sensualidade. É interessante definirmos o que é o pecado. O pecado é uma inclinação interior para fazermos aquilo que Deus desaprova. Como vimos, não temos possibilidade de escolha, pois esta nos foi suprimida após a Queda. O pecado é, também, a rebelião e a desobediência contra Deus. Não somos pecadores porque ferimos um conjunto de normas morais humanas que balizam o nosso comportamento na sociedade; nós o somos por causa de uma avaliação feita pelo próprio Deus (Rm 3:23,24). A incapacitação espiritual também á uma característica do pecado. O homem é um ser incapaz de se relacionar com Deus sem a salvação. Estamos todos mortos antes de sermos convencidos pelo Espírito Santo, afastados de Deus; somos pecadores não-arrependidos (Ef 2:1). Qualquer tentativa de aproximação de Deus sem ser por meio de Cristo, qualquer ação de autojustiça praticada pelo homem é rejeitada por Deus (Rm 3:9-18). O pecado também é chamado de idolatria, o que vai muito além de se prostrar e adorar ídolos. Significa tirar Deus do seu lugar, não importa o que se coloque no lugar dele. Todo pecado é, na verdade, a idolatria de si mesmo, quando se tira Deus do seu lugar soberano e se faz prevalecer a vontade do pecador.

2.2 Eleição, expiação e graça

            A meu ver, a doutrina da eleição incondicional, juntamente com a expiação limitada, é uma das mais difíceis de se compreender. A doutrina da eleição – ou predestinação – tem como base a ideia de que Deus elegeu dentre a humanidade aqueles que deseja salvar – os eleitos –, enquanto que os outros – os não-eleitos – deixou sob condenação. Tal doutrina afirma ser a eleição incondicional e baseia-se inteiramente na livre vontade de Deus em atrair e salvar o homem, pois este está perdido de tal forma e de tal maneira morto espiritualmente, que não pode fazer nada por si mesmo, muito menos crer para a salvação. Assim, Deus escolheu alguns e os predestinou a crer. No momento por Ele planejado, Deus abre o coração do eleito para que possa crer e seja salvo. Neste caso, a regeneração não é fruto da fé, mas precede a fé, pois somente o homem regenerado é capaz de crer. Esta doutrina, defendida pelos calvinistas, tem a seguinte base:

·         É Deus quem escolhe os que serão salvos (cf. Jo 15:16; At 13:48; Sl 65:4; Fp 2:13).
·         A eleição se baseia no propósito de Deus (cf. Ef 1:11; 2 Tm 1:9; Rm 8:28).
·         O homem é incapaz de buscar a Deus por iniciativa própria, por isso Deus toma a frente (cf. Jo 6:44; Mt 11:27; Hb 12:2; At 16:14; Lc 17:5).
·         A vontade de Deus não pode ser frustrada e será sempre realizada (cf. Is 55:11).

O meu entendimento das Escrituras sempre me levou a acreditar que Deus elegeu em Cristo toda a raça humana. Isto é: a morte de Cristo na cruz foi providencial para apagar o pecado de todos os que por Ele se achegassem a Deus. O texto mais conhecido e citado da Bíblia – João 3:16 – serve como explicação para a expiação ilimitada de Cristo. Ora, se todos pecaram e carecem da glória de Deus, como Paulo afirma aos romanos, porque nem todos podem ser salvos? Porque Deus usaria de ira para com todos e de misericórdia somente a poucos eleitos? Paulo parece fornecer uma resposta ao pensamento da eleição limitada: Deus encerrou a todos sob a condenação do pecado para que pudesse usar de misericórdia para com todos (11:32). Todavia, nem todos abraçarão a salvação oferecida por Deus, pois nem todos crerão, e crer é indispensável para que o pecador possa salvar-se por meio da graça que lhe é proposta.
O desejo de Deus que todos os homens cheguem ao pleno conhecimento da verdade (1 Tm 2:4) e alcancem a salvação é estendido a todos nós, tendo como única condição a fé. É o que Paulo escreve a Tito: “Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens” (2:11). O caráter da graça de Deus é salvador e se manifestou na obra expiatória de Cristo, não apenas aos judeus, a uma casta de eleitos, mas a todos os homens, trazendo consequêcias positivas sobre as suas vidas. Deus se deu em resgate por todos (1 Tm 2:6), testemunho que Paulo dava aos gentios, para o qual foi designado pregador, apóstolo e mestre (v. 7).
João afirma pelo Espírito Santo que Jesus é Deus e por isso existia antes dos tempos eternos, de modo que tudo o que foi feito, foi feito por Ele e, sem ele, nada do que foi feito se fez. O v. 4 afirma que a vida estava nele e a vida “era a luz dos homens” (v. 4). Como testemunha da luz, Ele veio “a fim de todos virem a crer por intermédio dele” (v. 7). Como luz vinda ao mundo, ele “ilumina a todo homem” (v. 9). João começa aqui a traçar o perfil do amor de Deus e do ministério de Cristo: o amor de Deus é universal, isto é, abarca toda a humanidade caída, pois não são apenas os eleitos que estão nas trevas e precisam vir para a luz, mas toda raça humana caminha nos mesmos passos.
A rejeição de Israel é tema do livro de Romanos, por terem rejeitado a Jesus como Messias, crucificando-o na cruz (cf. Rm 9). Apenas um remanescente será preservado, que serão aqueles que creem em Jesus (Rm 9:27). E esse remanescente não é segundo a eleição da carne – da circuncisão – mas segundo a eleição da graça (Rm 11:5). E segundo a eleição da graça “todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus” (3:23,24). A eleição da graça salva os gentios, independente da circuncisão. Porque, como afirma João: “a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome” (1:12). Então, a expiação é ilimitada, estendida a todos os homens, sem distinção alguma.
Seguindo essa linha de pensamento, sempre rejeitei o fato de Deus haver escolhido alguns eleitos para salvá-los, tendo em vista que todos pecaram, então todos precisam e podem ser salvos. Entretanto, o fato de crer na corrupção total do ser humano me traz um entrave: se é preciso a fé para crer e ser salvo, como seres humanos de todo corrompidos podem crer? É necessária a intervenção divina, o agir de Deus no coração do pecador por meio do seu Santo Espírito. Porém, se creio que esse agir se estende a todos os pecadores incondicionalmente, devo admitir que existe a possibilidade de alguém dizer não a Deus, isto é: Deus falha em sua ação de salvar o pecador e torna-se dependente da resposta que este lhe dará. A graça passa a ser resistível. Isto também significa negar a soberania de Deus e acreditar no livre-arbítrio humano, o que de fato está fora de cogitação. Deixo aqui o meu entendimento em aberto, de modo que continuarei estudando para chegar a uma compreensão completa da questão.

2.3 Perseverança dos santos

            Neste ponto, não me restam dúvidas de que a declaração “uma vez salvo, salvo para sempre” está correta. Pensando no Evangelho de João, especialmente João 3:16, e meditando nas suas verdades à luz da certeza e da segurança da salvação, descobrimos que Jesus garante firmemente que aquele que nele crê jamais entrará em condenação. Jesus mostra a Nicodemos que assim como Moisés levantou a serpente no deserto (Nm 21:8,9), importava que o Filho do Homem fosse levantado (v. 14). A serpente levantada por Moisés é ilustrativa e demonstra a forma eficaz da salvação operada pelo Messias levantado na cruz. Da mesma forma como aqueles que olhavam para a serpente de bronze eram curados e salvos da morte, todo aquele que põe a sua confiança em Cristo – para a salvação –, que aceita a mensagem da cruz, é salvo da condenação eterna. Se temos a vida eterna, jamais pereceremos e Deus nos ressuscitará no último dia. Eis a grande verdade: Jesus Cristo nos dá a certeza hoje de que já temos a vida eterna ainda a se revelar no último dia. Ainda que experimentemos a morte física, não passaremos pela condenação eterna, pois não estamos mais mortos espiritualmente, mas Cristo nos deu vida: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá eternamente” (11:25,26).
Ainda no Evangelho segundo João, Jesus Cristo nos garante que jamais abrirá mão daquele que o Pai lhe dá (Jo 6:37), porque a vontade de Deus é que nenhum se perca e Ele o ressuscitará no último dia (v. 39,40). Jesus é o pão vivo que garante a vida eterna a todo aquele que nele crê (v. 50,51). Quem comer deste pão jamais terá fome (6:35), e quem beber do seu sangue, jamais terá sede. É impossível comer deste pão e perecer (6:50,51,58). Aqueles que estão em Cristo são as suas ovelhas protegidas e jamais se perderão (10:10,11). Ele é o bom pastor que conhece as suas ovelhas pelo nome e elas o conhecem e ouvem a sua voz (10:4,14). Se somos ovelhas de Cristo, não precisamos temer o vale da sombra da morte nem o lobo voraz. Ainda que algum de nós se extravie dos seus caminhos, Ele deixa tudo e vai nos resgatar, e nos traz em seus braços de volta ao seu aprisco, se não nesta vida, na outra.
O apóstolo Paulo fala sobre a segurança da salvação em todas as suas epístolas. Quando estudamos o livro de Romanos, por exemplo, descobrimos duas realidades contrastantes: a do nosso pecado que nos separa de Deus (3:23) e a sua maravilhosa Graça que nos justifica em Cristo Jesus (3:24). Todo o livro é um resumo daquilo que Deus vem revelando ao homem desde Gênesis: a justificação pela Graça, por meio da fé. Romanos não somente nos mostra o caminho seguro da salvação, como nos consola com estas palavras eternas: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (8:1). Eis um resumo dos pontos principais a respeito da segurança eterna do crente;

·         6:8-1 – Estamos mortos para o pecado e vivos para Deus.
·         6:12-14 – O pecado não tem domínio sobre nós.
·         6:14,18 – Somos servos da justiça.
·         8:1,2 – Nenhuma condenação para os que estão em Cristo.
·         8:9-11 – Somos habitação do Espírito.
·         8:16,17 – Somos filhos de Deus.
·         8:24 – Temos a esperança eterna.
·         8:29,30 – A obra de Cristo é completa.
·         8:35-39 – O cristão vence o mundo.
·         9:31-33 – Quem está em Cristo não é confundido.
·         11:29 – Os dons de Deus são irrevogáveis.
·         14:4 – O Senhor é poderoso para nos suster.
·         16:25,26 – Somos confirmados segundo o Evangelho.

Também o autor do livro de Hebreus fala a respeito da salvação eterna e apresenta de forma brilhante a superioridade da Nova Aliança em Cristo sobre a Antiga Aliança baseada na Lei. Cristo é exaltado como a revelação suprema e final de Deus, sendo Ele o próprio Deus cuja Majestade está nas alturas e cujo Nome é superior a todo nome (1:1-4). Ele é superior aos anjos (1:4-14) e o seu sacerdócio é superior ao antigo (4:14 – 10:18). E é esta superioridade que traz um caráter definitivo à sua obra salvítica, porque tudo aquilo que pela Lei fora impossível ao homem conquistar, Jesus, como sacerdote e vítima, conquistou para ele no Calvário.
No cap. 9, vemos que a esperança do cristão é superior a da Antiga Aliança, pois se baseia naquilo que é perfeito e o conduz até Deus (7:19). O sacerdócio de Cristo torna a nossa situação diante de Deus igualmente imutável (v. 24). A salvação em Cristo não pode ser revogada, pois não pertence à Lei que muda se mudar o sacerdócio, mas à graça que pertence ao sacerdócio eterno de Cristo. Tendo tal sacerdócio imutável e eterno, Jesus “pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (v. 25). Jesus não tem fim de dias, mas vive eternamente para interceder por nós (v. 27). A Nova Aliança de Cristo é instituída sobre superiores promessas firmadas com Deus (8:10), que em Cristo perdoa e esquece os nossos pecados (v. 12). Este perdão é total e não pode ser revogado, pois a promessa é superior e a Aliança, eterna.
O sacrifício eterno de Cristo na cruz nos garante: 1) eterna redenção; 2) remissão dos pecados; 3) recebimento da promessa da eterna herança. Através do seu sangue que foi derramado sobre a cruz, temos certeza de que fomos remidos dos nossos pecados (v. 22). Não há mais necessidade de sacrifícios, pois o sacrifício de Cristo foi o suficiente. E se o seu sacrifício é poderoso para nos salvar, como haveríamos de perecer uma vez tendo crido nele? Em Hebreus entendemos plenamente a eficácia do sacrifício de Jesus, que “se manifestou uma vez por todas, para aniquilar, pelo sacrifício de si mesmo, o pecado” (v. 26). Este sacrifício é a certeza de que aquele que nele crê está definitivamente salvo, aguardando apenas o momento em que Cristo voltará para levar os seus: “E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo, assim também Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para a salvação” (vs. 27,28).

Por isso somos exortados de modo que “Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel” (v. 23). Que esperança é esta? Como podemos ver em Romanos 8:24, Tito 3:4-7 e 1 Pe 3:15, a nossa esperança é Jesus Cristo ressuscitado. E que promessa o Deus fiel tem para nós? É a promessa de entrar nos seu descanso (cf. Hb cap. 4). Se cremos em Deus, podemos ter certeza que Ele é fiel às suas promessas e poderoso para nos levar a salvo até o seu descanso eterno nos céus. Aquele que confessa a Cristo como Senhor e Salvador – a nossa esperança – pode estar certo que no fim será recompensado, porque Deus não pode mentir. A perseverança dos santos é possível porque eles não perseveram para a salvação, mas porque são salvos. Eles jamais perecerão porque não foram salvos por suas próprias forças nem por elas podem se manter de pé, mas porque a graça de Deus os escolheu, aproximou, regenerou, salvou, santificou e continua a santificar todos os dias. A perseverança dos santos está fundamentada no amor providencial de Deus em Cristo, na sua soberana vontade e no seu poder.

OBS: Estudo apresentado na aula de SOTERIOLOGIA, no Seminário Teológico Potiguar (Parnamirim, RN), em janeiro de 2017.

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