terça-feira, 3 de novembro de 2020

COMPONENTES DA RESILIÊNCIA


 
Durante os meus anos de vida e de conversão a Jesus, já tive a oportunidade de praticar a resiliência em diversas fases e momentos. Precisei superar complexos arraigados à minha personalidade causados por anos sob a opressão do bullying. Precisei me esforçar para vencer decepções na área afetiva. Precisei lutar contra a frustração causada pelo desemprego e as humilhações que tive de suportar. Precisei manter a minha sanidade após a perda da minha casa, do meu lar. Olhando para as lutas de tantas pessoas com quem convivi e que aconselhei durante todos esses anos, desde minha conversão, em 1994, sinto que minhas batalhas não foram tão grandes assim. Histórias de abandonos, abusos, violência doméstica, o suicídio da filha jovem de uma amiga, a luta de um irmão da igreja contra o câncer, o luto pelo esposo falecido, a batalha com o irmão alcoólatra e tantos outros eventos que chegam a doer o coração.

Seja em tudo que vivi e aquilo que vivenciei através dos depoimentos e desabafos de outras pessoas, a resiliência aparece como um elemento decisivo para a história de vida de cada um. Assim como experimentei a verdadeira superação, vi outras pessoas superarem; mas assim como ainda luto para vencer algumas situações, também vejo muitos na mesma luta. Se problemas sempre existirão, a necessidade de resiliência também. Ser resiliente em determinada situação não é garantia que sejamos em todas, porque todas serão diferentes. A garantia que temos é sempre sairemos fortalecidos e mais sábios para enfrentar novas reveses com mais assertividade. Com o passar do tempo e das dores, criamos um arsenal emocional, intelectual e espiritual que iremos utilizar mais adiante. Além disso, Deus nos provê um crescimento espiritual constante na prática da sua Palavra e na vivência no Espírito.
A resiliência está ligada diretamente ao nosso comportamento com relação a Deus, a nós mesmos e aos problemas que nos afligem. A nossa atitude diante das tempestades é que determinará a nossa resiliência. Carmello escreve que "o processo de desenvolvimento da resiliência é, basicamente, orquestração dos componentes psicológicos e cognitivos do indivíduo e dos elementos de apoio do ambiente que o cerca" (op. cit., p. 74). O contexto, o indivíduo ou grupo, e o próprio processo fazem parte do processo da resiliência, que também envolve quatro componentes que veremos aqui: condutas, características, fatores de promoção e atributos de sustentação (idem). Isso veremos de maneira introdutória para definirmos o nosso conceito de resiliência e a sua natureza. Todos esses componentes estarão diluídos nos diversos capítulos que se seguirão.
 
 
Padrões de conduta
 
O modo como encaramos a vida revela o tipo de pessoa que somos e o nosso nível de resiliência. Existem pessoas reativas e proativas. As reativas enxergam as crises como obstáculos intransponíveis, vivem assoladas pelas circunstâncias e se deixam abater pelos momentos de tensão. Elas vivem na defensiva, sentindo-se como vítimas, além de serem resistentes às mudanças. As pessoas com maior tendência a ser resilientes são proativas. Elas não vivem se vitimizando nem resistem às mudanças. Pelo contrário: enxergam as crises como oportunidades de crescimento. Apesar de sentirem as mesmas emoções negativas diante da crise que as pessoas reativas, elas não se deixam abalar, confiam em Deus e na sua Palavra. São pessoas positivas, focadas, flexíveis e organizadas.
 
 
Características predominantes em resilientes
 
As pessoas resilientes possuem algumas características inatas ou desenvolvidas ao longo da vida. Tais características, na verdade, também estão naquelas pessoas que não consideramos resilientes, esperando serem acionadas. Com relação à resiliência cristã, somente aqueles que foram regenerados possuem certas características que provém diretamente do Espírito Santo, como o fruto do Espírito e os dons espirituais, cabendo ao cristão lançar mão delas ao se deixar guiar pelo Espírito. As adversidades servem como gatilhos que disparam algo em nós, um sentimento que requer uma ação, uma resposta. A resposta de muitos pode ser a ansiedade e o desespero. O Senhor disse que não devemos andar ansiosos pela nossa vida, porque Deus cuida de nós com amor paternal (6:31-34). O mesmo afirmou o apóstolo Paulo, que nos orienta a entregar todas as nossas petições a Deus para que tenhamos paz (Fp 4:6,7).
O cristão resiliente é protagonista, jamais abandona o palco da sua própria história, mas atua de maneira consciente na resolução dos seus problemas. Ele é criativo ao buscar soluções, sabe ter ideias produtivas e é inovador. Ele também apreciada as mudanças. Isso não quer dizer que ele não tenha medo, mas que não se deixa dominar por ele. Outra característica é a sua elevada autoestima. Ele não se sente um inútil, muito menos fracassado, mas sabe o valor que tem para Deus, conhece suas limitações, mas também seus talentos. O cristão resiliente também é eficaz. Ele não tenta, ele faz. Ele também possui senso de humor, está feliz mesmo em meio às crises, porque a alegria do Senhor é a sua força. Por fim, ele possui equilíbrio emocional, que, segundo Carmello (ibidem, p. 84), é uma "Característica aplicada a pessoas ou grupos que têm capacidade de sentir, entender e aplicar eficazmente o poder e a perspicácia de suas emoções como fonte de energia, informação, conexão e influência humana".
 
 
Fatores de promoção
 
Quando falamos a respeito da resiliência, acima de tudo a cristã, estamos nos referindo a diversos fatores que, sendo somados, concorrem para que ela aconteça. Não podemos esquecer que, como crentes em Cristo Jesus, somos membros do seu corpo, que é a Igreja. Embora falemos na resiliência como algo individual, ela depende da coletividade e se desenvolve a partir dela. Na Igreja ninguém ganha ou perde sozinho. Quando um se machuca, todos sentem e choram com ele; mas se ele é honrado, com ele todos se alegram (1 Co 12:26,27). Somos o tempo inteiro influenciados por Deus, pelas pessoas, pelo ambiente e por nossas próprias disposições interiores. Essas influências servem para melhorar o nosso desempenho e facilitar a conquista dos nossos objetivos. Existem quatro fatores que concorrem para a capacitação para o enfrentamento das situações de crise, com melhor adaptação e abertura às mudanças. São eles:
 
 
Modelo de desafio
 
Esse modelo envolve a maneira como encaramos a realidade, percebendo-nos como protagonistas capazes de operar a transformação que precisamos. Isso envolve a capacidade de reconhecimento da verdadeira dimensão do problema, o reconhecimento das possibilidades de enfrentamento e o estabelecimento de metas para sua solução. Como cristãos, também somos desafiados a confiar no Senhor e na força do seu poder para nos fortalecer (Ef 6:10). Este é um modelo sobrenatural de resiliência do qual o mundo não dispõe. Ele vai além de nós mesmos e nos revela que já somos mais que vencedores em Cristo. Por mais que tenhamos responsabilidades para cumprir no processo de superação e crescimento, é Deus quem opera em nós tanto o querer como o realizar em todas as situações e áreas da nossa vida, segundo a sua boa vontade (Fp 2:13).
 
 
Vínculos significativos
 
Eles estão ligados ao que falamos anteriormente a respeito da dinâmica do corpo de Cristo. Não precisamos carregar sozinhos os nossos fardos, mas podemos e devemos compartilhar com os irmãos na fé as nossas lutas, como eles também compartilharão as suas conosco. A resiliência cristã nos chama à solidariedade, quando levamos as cargas uns dos outros (Gl 6:2) e à comunicação efetiva na busca por soluções. Muitos sofrem calados, não compartilham as suas dores para serem ajudados. Sem o apoio emocional e espiritual necessários, não podemos vencer. Resiliência que surge sem a ajuda mútua não é a resiliência verdadeira. Como veremos neste estudo, somos seres interdependentes.
 
 
Mente solucionadora
 
No capítulo três, quando aprenderemos mais detalhadamente sobre as características do cristão resiliente, começaremos com algo muito importante: a mente. Resiliência é transformação, e esta é impossível sem uma mente transformada. É o que a Bíblia chama de metanoia, como lemos em Romanos 12:1, onde o apóstolo Paulo diz que devemos nos transformar pela renovação da nossa mente. Uma mente transformada está em busca da vontade de Deus. E é isso que o cristão resiliente deve buscar: a vontade de Deus para a sua vida como a força motriz da sua superação. Além disso, uma mente solucionadora é analítica, ela não está focada no problema, mas na sua solução e na oportunidade de crescimento que ele traz consigo. A mente cristã resiliente está impregnada do caráter de Cristo e tende a agir conforme os seus passos. O apóstolo Paulo brilhava esse caminho, por isso era capaz de aconselhar: "Sede meus imitadores, como também eu de Cristo" (1 Co 11:1).
 
 
Sentido de propósito e futuro
 
Esses fatores são característicos da vida daquela que foi salvo para uma "viva esperança" (1 Pe 1:3). Por trás de toda adversidade existe um propósito divino, algo que vem para nos ensinar, corrigir e aperfeiçoar. E o sofrimento como força propulsionadora é a raiz do crescimento cristão: "E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus vos chamou à sua eterna glória, depois de haverdes padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoará, confirmará, fortificará e fortalecerá" (1 Pe 5:10). Como crentes, o nosso propósito maior é glorificar a Deus através da nossa vida, incluindo as dores. Pela fé temos esperança na solução dos nossos problemas, mas vamos bem mais além: temos uma esperança eterna, que não podemos ver, mas que é uma certeza (Tg 5:7,8; 1 Jo 3:3; Rm 5:2; 8:24). Essa esperança é a marca do cristão resiliente. O apóstolo Paulo escreve: "E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência, e a paciência a experiência, e a experiência a esperança" (Rm 5:3,4).
 
 
Atributos de sustentação
 
Segundo Carmello, os atributos de sustentação "são responsáveis pelo alto grau de adaptação positiva do indivíduo às mudanças, promovendo a preparação e o aprendizado necessários para seu crescimento e fortalecimento" (idem, p. 97). Esses atributos facilitam a sua resiliência, e envolvem:
 
 
Eu sou (crenças, princípios e valores, considerados forças intrínsecas do indivíduo)
 
São as nossas crenças e princípios que determinam as nossas atitudes. Elas envolvem a nossa visão de mundo, a maneira como concebemos e nos relacionamos com tudo ao nosso redor e, acima de nós, Deus. Na resiliência cristã, a nossa cosmovisão está alicerçada sobre a Palavra de Deus. Nós somos aquilo que Deus nos revela: pecadores regenerados e controlados pela sua graça. Somos filhos da luz, logo não andamos mais em trevas. Somos mais que vencedores em Cristo Jesus. Nas palavras do apóstolo Pedro: "Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz" (1 Pe 2:9). Quando vivemos de acordo com esses atributos, estamos prontos para vencer quaisquer obstáculos e crescer.
 
 
Eu estou (estados de ânimo, disposições e posturas, também forças intrínsecas)
 
Por mais abatidos que nos sintamos, jamais nos veremos como derrotados. O apóstolo Paulo se reconhecia como alguém pequeno demais, imerecedor da graça de Deus e da missão que lhe fora confiada. Ele sabia que nele não habitava bem algum, mas conhecia o poder que operava em sua vida, pois a sua suficiência vinha de Deus (2 Co 3:5). As nossas disposições interiores devem refletir o caráter e a coragem de quem é templo do Espírito Santo e cuja força vem do Senhor. Se pessoas comuns costumam superar grandes crises e traumas, muito mais poderá aquele que o Senhor salvou. Assim diz o Senhor: "Não sabes, não ouviste que o eterno Deus, o Senhor, o Criador dos fins da terra, nem se cansa nem se fatiga? É inescrutável o seu entendimento. Dá força ao cansado, e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor. Os jovens se cansarão e se fatigarão, e os moços certamente cairão; mas os que esperam no SENHOR renovarão as forças, subirão com asas como águias; correrão, e não se cansarão; caminharão, e não se fatigarão" (Is 40:28-31).
 
 
Eu tenho (apoio de pares, liderança, cultura, que são atributos do meio em que o indivíduo vive)
 
Este atributo reforça o que já falamos: ninguém luta ou vence sozinho. O meio em que vivemos (família, sociedade, escola, trabalho e até mesmo a igreja) nem sempre nos dão o sustento necessário para superarmos nossas crises, muito pelo contrário. Mas em meio ao caos precisamos encontrar um caminho seguro para trilhar. Sempre haverá pessoas de Deus no nosso caminho. Precisamos contar com os irmãos da igreja, os líderes de ministérios e nossos pastores. Além disso, é necessário escolher com sabedoria quem e o que exercerá influência sobre as nossas escolhas e atitudes: as crises ou a esperança, a setas do inimigo ou o estímulo do Espírito, a vontade da carne ou a Palavra de Deus. Não podemos ser frutos passivos do meio, mas precisamos agir sobre ele e com ele para um crescimento mútuo. Eis o que escreve Tiago: "Está alguém entre vós aflito? Ore. Está alguém contente? Cante louvores. Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e orem sôbre ele, ungindo-o com azeite em nome do Senhor; e a oração da fé salvará o doente, e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados. Confessai as vossas culpas uns aos outros, e orai uns pelos outros, para que sareis: a oração feita por um justo pode muito em seus efeitos" (Tg 5:13-16). A cura acontece quando beneficiamos uns aos outros.
 
 
Eu posso (aquisição de competências relevantes para a superação dos desafios, relacionando-se às habilidades de aprendizagem e de capacitação)
 
O "eu posso" do cristão está contido na seguinte premissa: "Tudo posso naquele que me fortalece" (Fp 4:13). Ele luta equipado pelo poder do Deus eterno. Este poder também produz conhecimento. A falta de conhecimento promove muitos erros e impossibilita o nosso avanço em meio às crises e na nossa vida espiritual de modo geral. Em primeiro lugar está a falta de conhecimento da Palavra de Deus. O Senhor disse que o seu povo estava sendo destruído porque lhe faltava conhecimento (Os 4:6). Quando abrimos mão de conhecer a Deus por meio da Palavra que Ele nos revelou, deixamos de saber o que Ele espera de nós e a maneira como deseja que realizemos a sua vontade. A vida cristã está em ouvir ou ler e obedecer a Palavra de Deus. Em segundo lugar está a falta de conhecimento a respeito de nós mesmos: os nossos defeitos e qualidades, nossos talentos e habilidades, nossos pontos fracos e nossas forças, nossos dons espirituais e nosso lugar no corpo de Cristo. Esse conhecimento nos faz encarar os problemas de maneira corajosa e assertiva, dando-nos muito maiores condições de superá-los e os instrumentos corretos. Que habilidades e competências precisamos desenvolver?

ESTE ESTUDO É PARTE DO LIVRO "RESILIÊNCIA CRISTÃ", DE MINHA AUTORIA, AINDA EM FASE DE ESCRITA. ESCREVI OUTRO LIVRO QUE É INTEIRAMENTE DEDICADO À RESILIÊNCIA, MAS VOLTADO PARA AQUELES QUE ENFRENTAM O FIM DE UMA RELAÇÃO AMOROSA OU ABUSIVA, EMBORA AS SUAS LIÇÕES SOBRE RESILIÊNCIA SE APLIQUEM PERFEITAMENTE A TODAS AS SITUAÇÕES DA NOSSA VIDA. VOCÊ PODE ADQUIRI-LO EM FORMATO E-BOOK PELA AMAZON:



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NINGUÉM MORRE DE AMOR!



Eis algumas questões que atormentam muitas pessoas:

 
1. Como sobreviver à perda de um grande amor?
2. Como superar o término de um relacionamento amoroso?
3. Como se recuperar após o fim de uma relação abusiva?
4. Como dar a volta por cima e viver uma nova história de amor?
 
Essas e muitas outras questões sobre o relacionamento amoroso e suas implicações estão no livro NINGUÉM MORRE DE AMOR. Afinal de contas, de amor não se morre, mas se vive!
 
Para abranger toda a profundidade do tema e tratá-lo com a seriedade que ele merece e como o leitor precisa, o livro NINGUÉM MORRE DE AMOR está estrategicamente dividido em três partes que sugerem uma evolução na sua caminhada rumo ao sucesso pessoal:
 
ANTES QUE CHEGUE AO FIM
. A arte de prevenir incêndios
. Por que os relacionamentos entram em colapso?
. O perigo das redes sociais
. Reacendendo a chama do amor
. Antes que venha o adeus
 
DO FIM À SUPERAÇÃO
. Tudo acabou. E agora?
. Encarando a realidade
. Primeiro passo: reprograme-se
. O caminho da cura
. Atitudes que transformam
. Aprendendo a lidar com os sentimentos
. Revendo a nossa relação com o ex
. Possibilidades
. Identificando a relação abusiva
 
DA SUPERAÇÃO AO NOVO AMOR
. Da superação à continuidade
. Os problemas de transição
. É possível viver um novo amor
. Empoderando-se para o amor
. A quem se entregar?
. Como conhecer a vontade de Deus?
 
Este livro foi produzindo para todas aqueles que precisam e querem superar perdas e dar a volta por cima, independente da sua confissão religiosa. Todavia, ele foi escrito dentro de uma óptica cristã, com valores bíblicos que cabem na vida de todos nós, mesmo os que não acreditam em Deus.
 
O que o livro NINGUÉM MORRE DE AMOR não promete é algum tipo de mágica, mas o processo da cura, da libertação e da superação, que para alguns pode ser bastante doloroso, mas extremamente necessário. Logo, ler não é o suficiente: é preciso partir para a prática.
 
NINGUÉM MORRE DE AMOR irá lhe ajudar a vencer suas barreiras interiores, rever seus próprios sentimentos, fortalecer a emoção e a mente, amar a si próprio, liberar perdão, acreditar no amor, investir na sua própria felicidade e abrir-se para uma nova oportunidade de amar e ser amado. Sim, é possível!
 
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O AMOR NÃO ENXERGA OS DEFEITOS DO OUTRO

 


"O amor não enxerga os defeitos do outro". Você concorda com isso? O autor do livro "O pequeno Príncipe", Antoine de Saint-Exupéry, escreveu: "Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos". Linda essa frase. Mas não podemos esquecer que, em se tratando de seres humanos, o essencial que uma pessoa carrega em si pode não ser nada agradável. Às vezes, por enxergar apenas aquilo que é aparente, fechamos os nossos olhos para verdades essenciais da pessoa que jamais poderiam ter passado desapercebidas. Isso pode envolver algo positivo (qualidades que desprezamos porque não gostamos da sua aparência, do seu jeito de ser ou seu nível social, por exemplo) ou negativo (os defeitos que decidimos relevar em nome de algo que nos interessou muito, como a sua aparência, o seu nível social elevado ou qualquer outra coisa do nosso interesse).

 Outra afirmação importante nessa frase é que o coração "vê". O autor não está conclamando todos a uma cegueira coletiva, mas apenas redirecionando a fonte da nossa visão: dos olhos (aquilo que é aparente) para o coração (aquilo que é afetivo e busca a essência). E o coração não se faz de cego! O que está diante dos olhos é aparente, mas o coração enxerga bem a fundo. Ele quer conhecer o âmago do ser, a essência. Bom, todos sabemos que essa é uma metáfora, porque o coração nada vê, quem vê é o nosso interesse sincero em conhecer a fundo a pessoa que amamos ao invés de a olharmos apenas na superfície. E se não gostarmos daquilo que vimos?

 Talvez devêssemos mudar um pouco a frase do célebre autor e afirmar: "É preciso enxergar o coração, não aquilo quem está diante dos nossos olhos". Isso é algo aproximado da visão de Deus! Ou seja: devemos olhar as pessoas como Deus as olha. E como ela nos olha? A resposta está expressa nas palavras do Senhor quando Davi foi escolhido dentre os seus irmãos para ser o rei de Israel, quando Samuel acreditou que um dos filhos mais vistosos de Jessé, chamado Eliabe, seria o escolhido: “Porém o Senhor disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o rejeitei; porque o Senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração” (1 Samuel 16:7). Daí vem o ditado: quem vê cara, não vê coração.

 É preciso muito cuidado: algumas pessoas mostram ser o que não são, enquanto outras não mostram ser, mas são. E o cuidado é redobrado quando percebemos que cada situação dessa carrega um sentido oposto. Explico: algumas pessoas fingem quem são boas, enquanto escondem um monstro dentro de si. Outras se esforçam para se parecerem más, talvez como um mecanismo de defesa, enquanto escondem muitas coisas boas que apenas esperam a oportunidade de se revelar. Como discernir quem é quem? Tempo, dedicação e conhecimento. Quem busca uma relação amorosa séria e duradoura, sabe que o tempo jamais faltará. Quem prefere se apressar, talvez se arrependerá. Ou talvez até não! Mas se existe o modo certo e seguro de fazer as coisas, por que não investir nele? Devemos investir nosso tempo em conhecer a verdade, porque ela é libertadora!

 Como poderemos enxergar a verdade existente na pessoa amada? Fechando os olhos? Nem os olhos nem o coração, mas questionando e até mesmo observando o seu comportamento: as nossas atitudes refletem o nosso interior. Uma pessoa pode até nos enganar com a sua hipocrisia por algum tempo, mas a longo prazo ela revela quem é, não há dúvidas. Portanto, além de enxergar, devemos também conversar: Quem é você? O que você é? O que ambos teremos a ganhar com este relacionamento? Existe algo importante que eu deva saber antes que a coisa fique séria? Não devemos temer fazer isso, afinal de contas, a vida é nossa, e quem vai se relacionar com tal pessoa somos nós. Se tudo der errado, não são os gurus da autoajuda e das frases de impacto que sofrerão as dores: somos nós!

 Fechar os olhos para os defeitos da pessoa amada é uma perigosa falácia, criada por quem, talvez, não deseja que os seus próprios defeitos sejam expostos ou considerados. O grande problema em pensar que é possível não enxergar os defeitos de quem amamos e pretendemos nos relacionar é que eles não deixam de existir, mas continuam ali, presentes em cada palavra e/ou gesto. Podemos fingir que eles não existem, todavia eles não farão o mesmo por nós, mas sempre irão se revelar, de preferência contra nós. Fechamos os olhos para o defeito de mentir da pessoa, agora ela mente para nós.

 O certo é que devemos sim enxergar os defeitos da pessoa amada, como ela também enxergará os nossos. Isso é algo absolutamente natural, além de sábio. Primeiro porque oa defeitos são parte integrante da sua personalidade. Não teremos somente um lado dela (o bom), mas ela toda. Por isso, qualidades e defeitos precisam estar bem patentes para nós. Outros o tempo se encarregará de revelar. Segundo: talvez alguns defeitos não sejam suportáveis. A tendência de quem está apaixonado é achar que pode suportar tudo por amor e que com o tempo a mudança necessária ocorrerá. Até que chegam as mentiras, as traições, a indiferença, as agressões. E aí a história de "fechar os olhos para os defeitos do outro" se revela uma terrível armadilha.

 Precisamos conhecer os defeitos da pessoa com quem vamos nos relacionar, como também ela conhecerá os nossos. Eles podem ser listados durante uma conversa franca. Alguns, claro, eclodirão somente com a convivência. O objetivo desse conhecimento não é descartar a pessoa por causa dos seus defeitos. A não ser que ela revele que é maníaca homicida. O objetivo é saber em que terreno estamos pisando e se teremos condições de continuar pisando nele ou se é melhor dar meia volta. Se alguém disser que não abre mão de certa prática nem para salvar a relação, há que se pensar sobre o assunto. Existe a esperança de que Deus opere um milagre. Mas talvez não.

 Até que ponto estamos dispostos a suportar uma pessoa com um ciúme doentio? Estamos seguros de entrar numa relação com uma pessoa possessiva e controladora, sabendo que a nossa liberdade será praticamente anulada? O que dizer de pessoas emocionalmente instáveis ou até mentalmente desequilibradas? Talvez nos assustemos ao descobrir comportamentos violentos, depressivos, manipuladores, dependentes ou mesmo apáticos. Não é errado estabelecer limites para nós mesmos, algo do tipo: Eu suporto tudo, mas não levante a mão para me bater.

 Saber que uma pessoa possui defeitos é bastante salutar para nós mesmos enquanto pessoas igualmente defeituosas. Ela possui as suas fragilidades, nós possuímos as nossas. Poderemos, então compreender e aceitar um ao outro, comprometendo-nos mutuamente com as mudanças necessárias. Quando ambos reconhecem suas limitações, não podem contar perfeição um do outro, a menos que estejam dispostas a buscar juntos a perfeição tão almejada.

 Conhecer o outro de antemão é importante. Para nos afastamos sumariamente de alguém? Em casos extremos, sim. Mas o ideal é para saber em que podemos ajudar e ser ajudados. Um e outro se conhecem para crescerem juntos, ultrapassarem suas barreiras interiores, suas limitações, seus exageros, seus medos, suas crises. Quem ama de verdade estará ao lado da pessoa amada para ajudá-la a se tornar uma pessoa cada dia melhor. Tudo isso, é claro, se ambas se dispuserem a isso, se reconhecem em que precisam mudar, se forem humildes e corajosas o suficiente para enfrentar o processo.

 Portanto, devemos desistir dessa ideia de que o amor é cego. A loucura é cega, mas o amor, não. Fechar os olhos para os defeitos do outro é engano e autoengano. Além disso, é uma total falta do amor que se afirma sentir. Quem ama, ajuda o outro a crescer. Fingir que ele é perfeito não o ajudará. Só ama de verdade quem é capaz de enxergar os defeitos da pessoa amada e permanecer ao seu lado. O amor falso fecha os olhos para os defeitos, e ainda ora: "Meu Deus, faça com que ele mude, porque não quero passar por tal e tal coisa". Hipocrisia.

 Uma última palavra sobre esse cuidado tão importante sobre a maneira como devemos enxergar o outro é o cuidado que devemos ter com o nosso olhar para não emitimos julgamentos precipitados e injusto. Muitas vezes só enxergamos aquilo que queremos, desprezando todo o resto. Mergulhamos a ponta dos dedos dos pés na superfície do oceano que é alguém e já emitimos um parecer desfavorável, sem nos permitir mergulhar nas suas profundezas. Os nossos olhos (ou coração) podem estar enxergando a realidade com filtros capazes de distorcê-la? Que filtros são esses? Preconceito, orgulho, traumas, complexos, medo, insegurança e tantos outros. Por melhor que a pessoa seja, quando usamos o filtro dos traumas por exemplo (violência, abandono, abusos, bullying, etc.), acabamos vendo nela um inimigo em potencial. Projetamos sobre ela culpas que não são dela, criamos vários possíveis quadros do futuro em que ela nos faz mal sem que ela sequer saiba. É o que acontece após várias desilusões amorosas: se todas erraram comigo, ela também errará. Logo, é melhor nem tentar. E seguimos fazendo tudo errado de algo que poderia ser bonito e ter dado certo.

 O ponto central desde estudo é enxergar os defeitos de maneira sadia, construtiva e transformadora. Mas atenção: nso significa enxergar os defeitos que achamos que a pessoa possui ou que presumimos que ela desenvolverá com o tempo. Não podemos lançar cargas injustas sobre os outros. E vale a pena ressaltar: essa é uma vida de mão dupla: observamos e somos observados, avaliamos e somos avaliados.

 Quando encontrar alguém especial, preste bastante atenção aos seus defeitos. Mas lembre-se: não deixe de perceber as suas qualidades. Não procure motivos para partir, mas para ficar. Outra coisa muito importante: tenha sempre diante de si o espelho invisível da verdade, onde seus próprios defeitos e qualidades se revelam. Não existem seres humanos perfeitos, mas seres humanos imperfeitos que dão o seu melhor para que o amor aconteça e a paz se estabeleça.

 Mizael Xavier

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domingo, 1 de novembro de 2020

ASSÉDIO MORAL NO AMBIENTE DE TRABALHO

 


           

Desde que se tem conhecimento da existência humana no mundo, sabe-se também dos conflitos que envolvem as relações entre as pessoas. O ser humano é um ser comunitário, projetado para viver em coletividade, para compartilhar de si e receber do outro. Com raras exceções, muitas delas patológicas, o isolamento não é uma regra quando se fala de pessoas, mas o viver em comunidade – seja ela familiar, religiosa, civil, empresarial ou qualquer outra – faz parte do cotidiano dos indivíduos, que firmam sociedade entre si e se relacionam. Em todos os ambientes existenciais humanos e no ambiente de trabalho em especial, as relações pessoais e interpessoais estão cada vez mais ligadas ao êxito do indivíduo, acentuando-se a sua capacidade de criar e manter relações entre seus iguais e seus superiores. De acordo com Moscovici (2010, p. 173), “A interação humana é complexa e multidimensional”.

            Todos os conflitos nascem da relação do indivíduo consigo mesmo, em primeira instancia, e dele com aqueles que estão ao seu redor. O ambiente organizacional abarca um sem-número de pessoas com pensamentos, sentimentos e ideais muitas vezes divergentes, que embora estejam trabalhando para um mesmo fim – seu sucesso pessoal e da organização –, geralmente entram em conflito. Basta recordar exemplos de competição acirrada por cargos e lideranças, o autoritarismo de líderes que não enxergam seus funcionários como parceiros ou colaboradores, o despreparo de alguns empregados, a falta de competência de gestores, os desgastes com crises internas e externas que afetam diretamente o clima organizacional, a comunicação ineficiente. Todos esses fatores geram conflitos que podem chegar a agressões e a demissões.

            Dentre os muitos conflitos recorrentes no meio organizacional, um tipo de agressão muito comum, fruto da relação entre indivíduos em posição de autoridade e seus subordinados, é o assédio moral no ambiente do trabalho, tema bastante discutido e objeto de projetos de leis que regulamentam o assunto, tornando crime a sua prática. Este tema pertinente para os gestores de pessoas merece acurado debate, uma vez que os conflitos entre patrões e empregados são constantes, devendo-se fazer a separação entre aquilo que é considerado normal numa situação conflituosa e o que pode se configurar uma agressão, seja ela verbal ou física. Nem todo conflito no ambiente de trabalho caracteriza-se como assédio moral, mas em ambos os casos é necessário tratar o problema onde ele se manifesta, ao invés de se preocupar apenas com os sintomas. Como num diagrama de causa e efeito, relaciona-se o efeito (problema) com as suas possíveis causas. A desmotivação e o clima organizacional insustentável podem ter as suas raízes numa situação de assédio.

            Como se poderá ver, o assedio moral é um tipo de conflito que influencia de maneira negativa a organização em todos os seus níveis hierárquicos e seus setores. Ele possui personagens e papéis bem definidos, que fazem uso principalmente da autoridade de um cargo de liderança ou gerência para agir com autoritarismo sobre os seus subordinados. Possui ainda personagens que sofrem a agressão e outros que as observam. O assédio moral é uma trama organizacional cujos princípios não encontram respaldo na ética e na moral de nenhuma empresa, cuja prática distancia-se da visão e dos valores organizacionais relevantes e cujo fim não promove o alcance dos objetivos estratégicos da organização. Ao contrário, ele estagna o poder criativo e inovador da empresa, porque ela não é feita senão de pessoas e, no caso do assédio moral, de pessoas em constante conflito, insatisfeitas e desmotivadas. Por outro lado, as vítimas desse tipo de agressão podem estar bastante motivadas em destruir tudo o que estiver ao seu redor. O problema é bem mais complexo que se possa imaginar.

            Segundo o site normaslegais.com.br, em um texto adaptado pelo Guia Trabalhista, tendo como fonte o TST, em pesquisa realizada em 1996 pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), foi detectado que doze milhões de trabalhadores da União Europeia já viveram situações humilhantes no trabalho que acarretaram distúrbios de saúde mental. No Brasil, onde a situação não foge à regra, uma pesquisa pioneira realizada pela médica do trabalho, Margarida Barreto, em sua tese de mestrado, constatou que 42% dos trabalhadores entrevistados foram vítimas de assédio moral no ambiente de trabalho. Esses dados podem servir de base para uma preocupação global com o assédio moral e suas consequências à saúde das vítimas, de suas famílias, das empresas e da sociedade como um todo.

            Estas e outras questões serão debatidas no presente trabalho, tendo como foco as soluções estratégicas que podem ser implementadas pelas organizações e, em especial, pelos gestores de pessoas na prevenção e no combate ao assédio moral no ambiente de trabalho. Entende-se aqui que somente uma visão holística da situação torna possível enfrentar o problema onde ele realmente acontece. A participação integrada da sociedade, dos legisladores, dos empresários e dos colaboradores na busca por soluções é parte da própria solução, porque desperta em todos o sentimento de responsabilidade e comprometimento rumo à paz nas organizações.


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Este livro traz uma análise minuciosa do Assédio Moral no Ambiente de Trabalho, com enfoque na Gestão de Pessoas. O objetivo é analisar a problemática em todos os âmbitos da organização (poder, cultura, comunicação, contratação, treinamento, capacitação, avaliação de desempenho, desenvolvimento humano, qualidade de vida, etc.), apresentando soluções práticas para prevenção e enfrentamento do assédio nas instituições.


Eis uma visão parcial do conteúdo, com base em parte do sumário:


O ASSÉDIO MORAL E SEUS DESDOBRAMENTOS

O que é

Tipos de vítimas

Tipos de agressores

Tipos de expectadores

Tipos de agressão)

ASSÉDIO MORAL E A SAÚDE DO TRABALHADOR

Higiene do trabalho

Estresse no trabalho

Doença Ocupacional

Ergonomia do trabalho

Ergonomia cognitiva

Ergonomia organizacional

COMPORTAMENTO HUMANO NO TRABALHO

Escola Comportamentalista de Kurt Lewin

O comportamento humano e o behaviorismo

O comportamento humano e a Gestalt

A diversidade do comportamento humano no trabalho

Previsão do comportamento humano

Fatores que influenciam o comportamento humano na empresa

Comportamento, motivação e personalidade

O ASSÉDIO MORAL E AS LEIS

Das garantias constitucionais à dignidade humana

A Declaração Universal dos Direitos Humanos

Do crime de tortura

O Novo Código Civil Brasileiro

Leis antimobbing

Projeto de Lei4742/2001

PODER E LIDERANÇA NAS ORGANIZAÇÕES

Estilos de poder nas organizações

Níveis de poder

Estilos de liderança nas organizações

CULTURA E VALORES NAS ORGANIZAÇÕES

Cultura organizacional e assédio moral

Valores humanos da organização

O ASSÉDIO MORAL E A COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL

Barreiras à comunicação organizacional causadas pelo assédio moral

GESTÃO ESTRATÉGICA DE COMBATE E PREVENÇÃO

Gestão de tolerância zero contra o assédio moral no trabalho

A atuação estratégica do gestor de pessoas

Desenvolvimento de equipes

Relações com empregados

Outras estratégias

GESTÃO DE SUPERAÇÃO PESSOAL

DESENVOLVIMENTO ORGANIZACIONAL E ASSÉDIO MORAL

Características do Desenvolvimento Organizacional

Técnicas de Desenvolvimento Organizacional

Operacionalização da mudança

GESTÃO DE QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO

O que significa um ambiente com QVT?

A QVT e o assédio moral

A QVT e a motivação

Transformando ambientes doentes em ambientes de QVT

O papel estratégico do gestor de pessoas na QVT

ESTUDOS DE CASO


Segue uma farta bibliografia.


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terça-feira, 26 de maio de 2020

QUAIS SÃO OS SEUS INTERESSES NA IGREJA?





Geralmente, as pessoas olham para a Igreja como que para um espelho, esperando ver refletir nela a sua imagem: sua personalidade, seus interesses e suas expectativas. Procuramos na igreja aquilo que somos ou que reflita quem esperamos ser e ter. De igual modo, tendemos a nos afastar quando somos confrontados com aquilo que somos e convocados a mudar, ou quando vemos que os interesses da instituição não são condizentes com os nossos. Devemos avaliar, à luz da Palavra de Deus, quem está certo nesse caso. Se o nosso interesse for pela nossa vontade sendo suprida enquanto vivemos uma vida cristã desregrada e sem compromisso, podemos nos frustrar ao nos deparar com igrejas que procuram a vontade de Deus e primam por uma vida santa e comprometida com o Reino dos céus. Por outro lado, podemos estar em busca do genuíno Evangelho da graça de Deus, interessados em uma vida santa e ávidos em servir, mas sair frustrados ao encontrar igrejas que só pensam em estratégias para tirar o nosso dinheiro.
As origens de muitas novas "igrejas de garagem" ou até grandes denominações acompanham essa tendência da busca por interesses pessoais. Alguns líderes acabam crescendo demais nas suas denominações e acham que já é hora de abrir o seu próprio ministério, que para alguns significa literalmente abrir o seu próprio negócio. O mercado da fé está crescendo e dá ocasião a esse tipo de coisa, principalmente com uma visibilidade cada vez mais crescente através da midiatização da fé, onde pregadores medem o seu sucesso pelo número de curtidas, acessos e comentários às suas publicações e lives. E essa fama toda tem ajudado a engordar o "cachê " de tantos ao serem convidados para pregações, palestras, congressos, shows e cruzadas. O Cristianismo dos séculos passados produziu grandes pregadores, teólogos e missionários, como Spurgeon, Lloyd-Jones, Moody, John Wesley e o saudoso Russell Shedd, entre tantos outros. Hoje, o que o cristianismo fast-food tem produzido? Muitos Macedos, Soares e Santiagos. Claro, as exceções existem e estão na Igreja verdadeira, não em empresas particulares da fé.

Um ministério particular em que o fundador é o presidente e o administrador de toda a vida da igreja, oferece grandes oportunidades de independência total. Se é ele o poderoso chefão da sua denominação, está em seu poder estabelecer as doutrinas, o estilo do culto, os usos e costumes, além de administrar todos os dízimos e ofertas. Não é necessário consultar um corpo de ministros, muito menos a congregação para decisões importantes para a comunidade. Se durante a noite ele sonhar com alguma coisa, pode chegar diante da igreja e transmitir seu sonho como revelação da vontade de Deus. Na verdade, nem é necessário esperar o sonho acontecer, basta dizer que sentiu da parte de Deus ou que Deus lhe revelou que quem der o "trízimo" será abençoado 30 vezes mais. Quem se levantará para contrariá-lo? Quem abrirá a Bíblia para demonstrar que ele é um herege e que aquilo é doutrina de demônios? Quem o fizer, pode se dirigir logo depois à porta de saída, ou será escoltado para fora a força pelos obreiros.
Por todas essas coisas é importante que aqueles que afirmam haver se convertido e manifestem o desejo de fazer parte de uma igreja local tenham em mente algumas questões e doutrinas fundamentais aceitas pelas igrejas genuinamente cristãs. São elas: a natureza do Senhor da Igreja, a natureza da Igreja e a natureza da conversão. Esse conhecimento nos mostrará que não estamos na igreja para termos os nossos próprios interesses atendidos, mas para servir Àquele que é Senhor da Igreja e que, de acordo com a sua vontade soberana, irá nos abençoar. Também aprenderemos que o apelo à conversão só é legítimo quando enfatiza o nosso estado de perdição e a graça salvadora de Deus em Cristo como único meio de redenção. Também teremos consciência de que qualquer pessoa pode entrar para a igreja, mas tornar-se membro do Corpo de Cristo é somente para aqueles que pelo Espírito Santo foram convencidos e convertidos, sendo adotados por Deus como filhos e selados para o Dia da salvação.
Outra preciosa contribuição do conhecimento do senhorio de Cristo sobre a sua Igreja, da natureza desta e daqueles que fazem parte dela, é que não existe nenhuma igreja cristã verdadeira que seja personalista, que esteja edificada sobre a vontade e a figura de qualquer homem ou mulher, acima de tudo aqueles e aquelas que deram para si próprios o título de apóstolos ou "apóstolas". Sobre este tema, o reverendo Augustus Nicodemus (2011, p. 20) escreve que os apóstolos de Cristo não se tornaram donos, presidentes, chefes e proprietários das igrejas locais que eles mesmos fundaram. O próprio apóstolo Paulo, o maior missionário e plantador de igrejas do período apostólico, não requereu para si nenhuma autoridade especial separada dos demais apóstolos, muito menos permitiu que houvesse partidarismo entre este ou aquele ministro do Senhor. Paulo ou Apolo? Nenhum dos dois, pois "De  modo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento" (1 Co 3:7). Nicodemus também escreve que aqueles homens comissionados e enviados diretamente por Jesus eram “apóstolos da Igreja de Cristo, da Igreja universal, e não de igrejas locais. A autoridade deles era reconhecida por todos os cristãos de todos os lugares. Onde eles chegavam, eram reconhecidos como emissários de Cristo, com autoridade designada por ele” (idem).
A abertura de igrejas comandadas pelos seus fundadores é a expressão máxima daqueles que anseiam por uma igreja nos moldes das suas necessidades, vontades, valores, projetos e caprichos. O pensamento é: se não encontro nenhuma comunidade que se enquadre nos meus padrões, criarei uma para mim e ela poderá satisfazer a todos os meus interesses. Todavia, nem todos têm essa ideia ou condições financeiras de colocá-la em prática, embora muitos comecem pequeno até se tornarem grandes empreendedores da fé. A maioria permanece na sua igreja de origem, insatisfeita com tudo, participando de má vontade, falando mal dos seus pastores e criticando o modo como todos os trabalhos da igreja são realizados. Outros saem, migram para outras denominações ou ficam em casa mesmo. A sua fé não está submissa a Cristo, não serve ao Evangelho nem busca a vontade de Deus. É uma fé em si mesmo e na possibilidade se ser feliz e ter os seus problemas resolvidos.
Com todo o bem que promete trazer, o movimento dos desigrejados pode estar contribuindo para facilitar o trânsito desses indivíduos. O que pode ser melhor que um ambiente onde você entra e de onde você sai a hora que quiser? Não existe uma liderança autoritativa, rol de membros, credos, regimento interno, compromisso com ministérios, disciplina eclesiástica, prestação de contas ou qualquer outra coisa que faça com que o crente sinta que pertence àquele grupo de pessoas. Se não me sinto bem na reunião da igreja na casa do seu Zé, na próxima me reúno no lar da dona Maria. E se dona Maria não gostar do meu jeito de ser ou eu não for com a cara de alguém por lá, migro para a residência de seu João. Mas se lá em seu João não for do jeito que eu gosto e eu não conseguir o que tanto quero, tem a casa da dona Joana. Mas se por lá começarem as cobranças, ainda haverá muitas outras opções. E ninguém me dirá em que devo crer, não me pedirá sujeição a qualquer liderança, então estou livre para viver a minha fé do meu jeito. E quem poderá dizer que estou errado se a igreja se reúne somente nos lares e tenho o direito de estar onde eu quiser? Por tudo isso, percebemos o quanto é nocivo tentar ser crente e membro da Igreja fora dos padrões da Palavra de Deus.
A Igreja, portanto, não é um ambiente nosso, mas de Deus. É preciso primeiro pertencer a Ele antes de pertencer a ela. Caso contrário, somos um corpo estranho no Corpo de Cristo, como um parasita que suga de um organismo apenas aquilo que satisfaz ao seu apetite. E grande é o apetite desses novos bispos, missionários e apóstolos das mega igrejas! Conforme escreveu Salomão, a sanguessuga tem duas filhas: Dá e Dá (Pv 30:15a). Já o crente genuíno e a igreja verdadeira pregam e vivem como o apóstolo Paulo aprendeu do Senhor: "Mais bem-aventurado é dar do que receber" (At 20:35). Aquele que vai à igreja cultuar a Deus somente para "receber algo dele", está indo mesmo cultuar a Deus? Aquele que mede a qualidade da igreja que frequenta pelo seu próprio bem-estar, faz parte da Igreja? Aquele que não quer se submeter à liderança de ministros ordenados por Deus para guiar o seu rebanho poderá se submeter ao Supremo Pastor da nossa alma? Aquele que usa a estrutura da igreja para encher-se de dinheiro e propriedades tem parte no Reino de Deus? Talvez o apóstolo Pedro lhe dissesse: "Tu não tens parte nem sorte nesta palavra, porque o teu coração não é reto diante de Deus" (At 8:21).
Precisamos entender que a igreja não é um local para sermos quem quisermos, mas para, em contato com outros irmãos, termos o nosso caráter moldado através do processo de santificação que objetiva nos tornar parecidos com Cristo. A igreja também não é um ambiente para fazermos o que quisermos, mas existem mandamentos bíblicos (bases de fé e doutrinas) e regras de conduta comuns a qualquer organização humana (regimento interno). Por fim, não são os nossos próprios interesses que estão em evidência, mas a vontade de Deus acima de tudo e os interesses dos irmãos. Paulo declara: "Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus" (1 Co 10:31). E também: "Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros" (Fp 2:4). O apóstolo Paulo também apela para a nossa sensatez: "Pelo que não sejais insensatos, mas entendei qual seja a vontade do Senhor" (Ef 5:17).



AUTOR: Mizael Xavier

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