segunda-feira, 7 de maio de 2018

A PRÁTICA DO AMOR NO COMBATE À MENTIRA - PARTE 2





2. AS QUALIDADES DO AMOR CRISTÃO (v. 5)

            O apóstolo Paulo apresenta um contraponto ao ensino dos falsos mestres que pervertem o Evangelho de Cristo e induzem as pessoas ao erro. Assim como escreveu aos crentes de Corinto que o amor é o maior de todos os dons e deve servir como base para a crença e a prática corretas (1 Co 13), ele escreve à Timóteo com uma finalidade única: estabelecer o amor como fundamento sólido para a crença e a prática da Igreja de Éfeso. Paulo escreve: “Ora, o intuito da presente admoestação visa ao amor que procede de coração puro, e de boa consciência, e de fé sem hipocrisia” (1:5). O termo “admoestação” (gr. parangelias), traduzido pela ARC como “mandamento, significa ordem, comando, mandamento. Era usado a respeito da ordem de magistrados seculares (At 5:28; 16:240, e os mandamentos de Paulo (1 Ts 4:2; 1 Tm 1:5,8). Ele vem é substantivo de parangello (transmitir uma mensagem, ordenar, declarar). Logo, a epístola contém uma ordenação apostólica a respeito da questão dos falsos mestres e suas heresias. Ela é uma mensagem em forma de mandamento que Timóteo deveria de fato levar em conta e obedecer.
Assim como a doutrina precisa ser correta, a prática do amor ensinado por essa doutrina deve ser coerente com ela. A doutrina não existe para causar separação ou discussões, mas para unir os crentes em torno de uma só fé. O amor é o alicerce da fé cristã e nos chama a um viver coerente com a nossa vocação, na qual somos unidos pelo Espírito Santo no vínculo da paz (Ef 3:17; 4:1-3). Paulo ensina aos efésios em sua epístola que a unidade deve ser mantida, porque “há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos” (4:4-6). A fé cristã genuína não comporta sentimentos contrários ao amor e crenças ou atitudes que não estejam alicerçadas sobre ele e que promovam divisões ao invés da edificação do corpo de Cristo.
O amor não sobrevive sem a doutrina (ou os mandamentos), como escreveu João em sua primeira epístola: “Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus: quando amamos a Deus e praticamos os seus mandamentos” (1 Jo 5:2). Os falsos profetas e os falsos mestres são homens ímpios, sem afeição alguma, que pela prática da mentira demonstram a sua aversão à verdade e o seu desprezo por Deus e pelas pessoas. Escrevendo aos colossenses, Paulo nos exorta, entre outras coisas, a não mentirmos uns aos outros (Cl 3:9), mas a desenvolvermos valores morais próprios daqueles que possuem um novo nascimento, onde o amor e a Palavra de Cristo servem como alicerces seguros não somente da nossa fé, mas também das nossas relações interpessoais (vs. 12-17). Os mentirosos desprezam a verdade e buscam difundir suas mentiras como uma forma de desviar aqueles que, por sua vez, não estão totalmente seguros do conteúdo da sua fé, que se deixam levar por todo lado por ventos de doutrina (Ef 4;14).


Coração puro

            Paulo não somente recorre ao amor como firme fundamento da doutrina e da comunhão da Igreja, como também qualifica este amor ou aquele que afirma possuí-lo (v. 5). Em primeiro lugar, o amor capaz de resolver a questão dos falsos profetas e orientar a prática de vida da Igreja provém de um coração puro (gr. katharos). Neste contexto, o coração puro implica em um coração limpo, puro em um sentido moral, sem culpa, inocente (At 18:6; 20:26), sincero, justo, livre do mal (Mt 5:8; Jo 13:11; 1 Tm 3:9; 2 Tm 1:3; 2:22; 1 Pe 1:22). O apóstolo Paulo está chamando os crentes de Éfeso a viverem uma vida íntegra, uma vida que não comporta o pecado nem cede espaço às heresias. A integridade moral cristã está ligada à crença correta que conduz a práticas corretas. A partir do momento em que abandonamos a integridade da nossa fé, somos despidos da integridade do nosso caráter. Crer e não praticar conduz a uma espiritualidade contraditória.
De acordo com o estudo “O cristão e a integridade: buscar o equilíbrio ou viver a verdade?”, de minha autoria, somente a verdade pode produzir integridade, pois “Assim como a nossa crença deve ser ortodoxa, fundamentada totalmente na Palavra de Deus, aliada à verdade absoluta e jamais relativista, também a nossa prática de vida não pode comportar o dualismo, o relativismo”. A integridade está diretamente ligada ao nosso caráter, de modo que é possível determinar que tipo de crentes somos através do nosso comportamento, acima de tudo aquele que se manifesta em oculto. Outros comportamentos, porém, afloram diante do público através do falso ensino e das práticas provenientes deles. Não podemos nos deixar enganar, pois “Embora muitos se afirmem cristãos, seguidores de Jesus, alguns demonstram, por suas crenças e suas práticas, que não são quem dizem ser. Isso está claro na Bíblia ao se referir a respeito dos falsos mestres, falsos profetas, falsos apóstolos e o anticristo (cf. Mt 7:15-23; 24:4,5, 24:23-26; Gl 1:6-8; 2 Co 11:3,4,13-15; 2 Ts 2:3,4,8-10; 2 Pe 2:1-22; Jd 1:1-23)”.


Boa consciência

Em segundo lugar, o amor proposto por Paulo como solução para os problemas da igreja de Éfeso provém de uma boa consciência (gr. syneidesis), que está ligada à consciência moral do crente (At 23:1; 1 Pe 3:16,21; 1 Tm 1:5,19; Hb 13:18). Uma das características dos falsos mestres e daqueles que seguem suas heresias apontadas por Paulo é a consciência cauterizada (4:1,2). Tal mente é o resultado da constância no pecado (Rm 1:24,25,28; Ef 4:19). No contexto da epístola a Timóteo, o pecado está ligado às consequências do ensino errado na Igreja, da ação dos falsos profetas. Não é possível haver uma boa consciência quando esta não está alicerçada na sã doutrina. Em primeiro lugar porque é o Evangelho genuíno que precisa formar o pensamento cristão; em segundo, porque não pode haver consciência limpa quando se prega e vive a mentira. A falsa doutrina conduz inevitavelmente a uma falsa moralidade. De acordo com o estudo citado, A Palavra de Deus deve ser anunciada e vivida integralmente (2 Co 2:17). “A ministração da verdade exclui as coisas que de tão vergonhosas ficam em oculto, de forma plena, jamais adulterada, de modo que haja boa consciência diante de Deus (2 Co 4:2). Os dualismos e os relativismos pertencem aos perdidos, àqueles que não obedecem à verdade, que têm cego o seu entendimento e são impedidos de conhecer plenamente o Evangelho da glória de Cristo (2 Co 4:3-5)”.


Fé sem hipocrisia

Por fim, o amor ensinado por Paulo envolve o desenvolvimento e a prática de uma fé não fingida (gr. anypokritos), que significa não dissimulada, sincera, sem disfarces (hipocrisia, como na ARA), não fingida, genuína, real, verdadeira. Se o apóstolo Paulo está escrevendo para fazer correções na espiritualidade dos crentes de Éfeso, que vinham sofrendo a influência dos falsos mestres, entender o caráter destes homens é importante para sabermos o que é uma fé sem hipocrisia. Em primeiro lugar, eles ensinavam outras doutrinas (v. 3), isto é, afirmavam ser discípulos de Jesus enquanto ensinavam preceitos que nem Ele nem os seus apóstolos ensinavam. Isto indica que não existe verdade onde a crença não é verdadeira. E se a verdade não está presente na crença, também não estará na prática de vida de quem promove a mentira nem nas suas intenções. A fé hipócrita está fundamentada na mentira (4:2), o que vai determinar como será o seu caráter e o seu comportamento. O que esperar de alguém que nos fala mentiras?
Em segundo lugar, uma fé fingida abre mão do que realmente importa para se preocupar com temas que não promovem a edificação, mas geram contendas e divisões dentro da Igreja (1:4; cf. Jd 19). A preocupação central da fé cristã é o amor. Quando o Senhor Jesus resumiu toda a Lei de Moisés e os profetas, afirmou que elas apontavam para um único mandamento: amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo (Mt 22:34-40). Qualquer ação que não provenha do amor nem o promova, está distante de se parecer com aquilo que o Senhor nos ordenou: que nos amemos uns aos outros assim como Ele próprio nos amou (Jo 15:12-17). Ao contrário do caráter distorcido e da postura herética dos falsos mestres, o amor une os irmãos e os conduz à perfeição (Cl 3:14). Se o amor leva à perfeição, a sua falta conduz à destruição. Que não age por amor não está preocupado com o bem, mas apenas com o mal. Quem não se importa em induzir as pessoas ao erros e dividi-las, não pode ser digno de crédito.


CONTINUA...



AUTOR:

Mizael de Souza Xavier, natural do Rio de Janeiro. Moro atualmente em São Paulo. Sou poeta, teólogo e escritor. Exerço o ministério pastoral na Igreja Cristão Nova Aliança do Senhor, em São Paulo/SP.

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