quarta-feira, 21 de março de 2018

EDUCAÇÃO CRISTÃ DE FILHOS - COMUNICANDO-SE PARA EDUCAR




COMUNICANDO-SE PARA EDUCAR


            A educação é um tipo de comunicação onde transmitimos informações que serão apreendidas por nossos filhos. Mas o que é uma informação? A informação pode ser compreendida como um conhecimento, notícia ou ciência. A informação traz um significado que produz o conhecimento a respeito de algo ou alguém; ela é dotada de relevância e propósito e reduz a incerteza. Quando a informação está presente, existe a possibilidade de ação e interação com o ambiente, devido à informação ser processada por meio da mediação humana, exigindo um consenso em relação ao significado (TERCIOTTI e MACARENCO, 2009). Essa informação, todavia, para ser efetivada, precisa se transformar em “conhecimento”. O conhecimento é o bem mais precioso da família, algo que tem sido alvo de constantes estudos, desenvolvimentos e investimentos e treinamentos e capacitações e compreende o precioso tesouro familiar. Ele envolve a capacidade humana de observação da realidade do mundo em volta e inclui reflexão, síntese e contexto. Esse conhecimento é o produto da observação dos dados e da apreensão da informação. Ele é muito mais que o acúmulo de informações, mas é a resposta consciente daquilo que foi compreendido. A forma como cada indivíduo absorve as informações e o valor que agrega a cada uma delas é que determinará que tipo de conhecimento terá da realidade e quais ações serão praticadas.
As informações podem vir tanto da observação da criança do exemplo que encontra no seu próprio lar, como das palavras que são proferidas. Informações positivas são aquelas carregadas de amor e de carinho, onde a autoestima da criança é cultivada com palavras de motivação e elogios. Mesmo quando ela erra, os pais, com as palavras certas, incentivam a mudança e o acerto. A própria relação entre os pais e as palavras que eles trocam entre si servem se estímulo para a criança crescer mentalmente, emocionalmente e espiritualmente saudável. Por outro lado, palavras negativas tendem a produzir uma estrutura emocional, intelectual e espiritual deturpada e instável. Muitos pais xingam e amaldiçoam os seus filhos com palavras destrutivas, que minam a sua autoestima e deformam o seu caráter. A tendência é a criança reproduzir em sua vida uma imagem negativa de si mesma, baseada nas informações recebidas pelos seus pais. Informações deturpadas acerca de Deus, da vida, do mundo e da família também produzirão na mente da criança informações erradas que as levarão a ter atitudes igualmente erradas diante de Deus, da vida, do mundo e da família.


Aprimorando o processo de comunicação

A Palavra de Deus nos ensina no livro de Provérbios: “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele” (22:6). Vemos aqui a clara comunicação entre pais e filhos: o caminho em que a criança deve andar. Entendemos que os pais conhecem este caminho, e por isso têm condições de ensiná-los aos seus filhos. Então, a informação correta – o caminho que se deve trilhar – deve ser repassada da maneira correta, num processo claro de comunicação que exclui falhas e desentendimentos. Com algumas exceções, a tendência da criança, tanto na fase infante quanto na fase adulta, é reproduzir o modelo de comportamento observado em casa, o que envolve não somente as palavras que são ditas, mas também o exemplo que é demonstrado no lar. Nem sempre as palavras e os exemplos são coerentes. Ralph Waldo Emerson disse: “Suas atitudes falam tão alto que eu não consigo ouvir o que você diz”. Precisamos dar à criança as informações corretas a respeito dela mesma e do seu papel na sociedade. O que estaremos comunicando se não amarmos este caminho?
As informações devem ser coerentes e jamais contraditórios. Elas devem oferecer segurança à criança para que ela se sinta estimulada e absorver e praticar essas informações. É preciso, porém, saber escutar. Os pais nem sempre estão dispostos a escutar o que os seus filhos têm a dizer, não se importam com o que eles pensam a respeito da vida e da própria família, não escutam as suas queixas nem procuram entender suas dores e dúvidas. Se queremos nos comunicar com os nossos filhos, precisamos entender que a comunicação é uma via de mão dupla: eu falo e o outro escuta, depois o outro fala e eu escuto, ou vice-versa. Se não tivermos a capacidade de escutar os questionamentos e os pontos de vista de quem fala conosco, mas nos concentrarmos apenas na nossa verdade, a verdadeira comunicação não ocorrerá, muito menos a educação.
Eis algumas dicas para praticarmos uma escuta de qualidade durante o processo de educação e, assim, darmos aos nossos filhos a segurança de que podem confiar em nós e que estamos dispostos até mesmo a assumir as nossas falhas em busca de um relacionamento aberto e eficaz com eles[1].


Romper de vez com o medo de ouvir

Para escutar nossos filhos de maneira eficaz e atingir o âmago dos seus problemas, precisamos, antes de tudo, romper com o medo de ouvir. Esse medo pode surgir do risco de nos envolvermos em suas crises ou de descobrir que o culpado por elas somos nós. Também o medo de não ter capacidade de ajudar impede a escuta. Muitos pais só descobrem que seus filhos estão se envolvendo com drogas ou com a criminalidade quando as consequências começam a aparecer. O mesmo acontece com as crianças que sofrem Bullying. Ao invés de ouvir as consequências, devemos, primeiramente, escutar os sinais que poderão fazer com que elas não apareçam. Quanto menos desejamos conhecer, menos chances temos de aprender sobre os nossos filhos. Quanto mais resistimos em dar ouvidos ao que acontece ao nosso redor, menos chances temos de crescer como pessoas, como crentes e como pais. Quando nos empenhamos em escutar, teremos mais condições de aplicar as verdades bíblicas à realidade dos nossos filhos.


Comunicar-se consigo mesmo

A Palavra de Deus traz um princípio áureo para o relacionamento humano: amar ao próximo como a si mesmo, o que subtende que devemos também nos amar. Podemos ousar parafrasear o texto bíblico e afirmar: escuta o teu próximo como a ti mesmo, o que claramente nos diz que também devemos nos escutar. Se temos problemas para amar a nós mesmos, como amaremos o próximo? E se temos problemas para escutar a nós mesmos, como escutaremos as pessoas ao nosso redor? Aqui o medo também se faz presente e deve ser tenazmente combatido. Muitos pais não se comunicam com seus filhos nem conseguem lhes dar uma educação correta porque eles mesmos têm problemas de autoestima que ainda não resolveram. Não valorizam os filhos porque não se valorizam. Não param para ouvir porque eles próprios não se escutam, não refletem acerca da sua própria existência.
Então é importante avaliar que pensamento temos a respeito de nós mesmos. Esses pensamentos é que direcionarão as nossas atitudes e o nosso comportamento no mundo e como pais, o que influenciará diretamente no tipo de educação que daremos aos nossos filhos. Não somente os pensamentos, mas a maneira de pensar deve ser observada. Que pensamentos podemos considerar construtivos que devam ser cultivados? Que pensamentos destrutivos, repletos de informações negativas e que complexos devem ser descartados? E mais: qual desses pensamentos tem dirigido a nossa maneira de ver e de viver a vida, de nos relacionar com os nossos filhos e educá-los? É preciso que desenvolvamos a conversação interna e pare para escutar a nós mesmos, sem medo ou preconceito. Isto tem a ver com a autoconfiança. Se não nos sentirmos seguros com relação a nós mesmos, não poderemos transmitir aos nossos filhos a segurança que eles precisam para crescer como pessoas. Isto significa, também, admitir as próprias falhas e a necessidade de crescimento.


Escutar antes de falar

Uma das grandes barreiras na comunicação entre pais e filhos que impedem que a educação eficaz aconteça é a falta de vontade dos pais em ouvir o que os seus filhos têm a dizer. É claro que o inverso também é verdade, mas estamos tratando do papel dos pais na educação. É escutando que se aprende sobre as pessoas e sobre tudo. Se falarmos muito e ouvirmos pouco, apreenderemos pouco conteúdo, teremos apenas nossos próprios pensamentos e nos faltará o enriquecimento do conhecimento e da experiência do outro. Além disso, não chegaremos ao cerne da questão, à profundidade dos questionamentos, das críticas, dos sonhos, das dificuldades, dos complexos e dos medos que os nossos filhos carregam. Ficaremos apenas com o nosso lado da história, a nossa observação superficial que geralmente não abrange toda a realidade.
Este é um comportamento a ser evitado por aquele que deseja ser um bom educador, que quer influenciar os seus filhos por meio de uma boa educação. Se influenciarmos os nossos filhos primeiramente por meio de uma escuta interessada, teremos cumprido mais que a metade do caminho para impactar suas vidas e suas atitudes. Podemos ter certeza de que eles se sentirão mais a vontade com pais que os escutam com sinceridade, que com pais que rejeitam a sua voz e não respeitam a sua opinião. Não escutar é enganar a si mesmo, é limitar-se, é abrir mão de importantes insights para a construção de relacionamentos saudáveis e uma educação sólida.
Escutar antes de falar é um enorme desafio para a maioria das pessoas. Geralmente estamos nos impondo, exercendo o nosso direito de liberdade de expressão sem dar às pessoas a oportunidade de também se expressarem. Isto representa uma enorme perda para a nossa vida pessoal e familiar. Como pais cristãos, é o nosso desejo transmitir conhecimento e influenciar nossos filhos através de uma boa educação. Então, desenvolver a habilidade de escutar antes de falar vai nos trazer grandes benefícios. O primeiro benefício será a humildade de reconhecer-nos limitados, carentes de constante aprendizado, o que é um ganho imensurável. Quando mais nos enxergarmos necessitados de aprender, mais iremos à busca do aprendizado e mais cheios de conteúdo nos tornaremos. Quando escutamos primeiro e falamos depois, o benefício é mútuo. É preciso considerar que os outros têm informações, ideias ou perspectivas que possam influenciar o que temos a dizer (COVEY, 2008, p. 214). Se passarmos para nossos filhos a imagem de crentes que já alcançaram a perfeição, além de estarmos sendo desonestos, eles sofrerão uma grande frustração ao de depararem com nossos erros, que com certeza virão.


Perceber o que acontece ao redor

            Existem pais que estão alienados dentro do seu próprio lar. Em parte isto está ligado aos problemas da falta da escuta que já comentamos, mas podemos ir mais além. Para educar com qualidade e eficácia, precisamos estar atentos a tudo o que acontece ao nosso redor. É importante saber que nós não falamos apenas por meio das palavras, mas a linguagem corporal e as nossas atitudes dizem muitas coisas. Às vezes pode-se perceber até uma dose de incoerência entre o que as palavras dizem e o que as ações declaram. Se nossos filhos dizem que estão bem e aceitamos isso sem questionar, sem observá-los mais atentamente, talvez deixemos passar uma crise que eles estão vivendo ou algum problema que estão enfrentando na escola, por exemplo. Muitas mensagens que nossos filhos nos enviam deixam de ser percebidas porque não foram escutadas ou lidas corretamente. Se não percebermos os sinais que nos são enviados, como avisos de que algo não está bem e requer um posicionamento, ou mesmo oportunidades que batem à nossa porta, pode ser que sejamos pegos de surpresa e percamos muitas boas oportunidades ou deixemos de ajudar nossos filhos no momento em que eles mais precisavam do nosso apoio. Jesus costumava dizer: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Mt 13:19).
Se não percebermos estes sinais, se não pararmos para observar a vida como um todo e a dos nossos filhos e refletir sobre isso constantemente, vivendo apenas como vivem as pedras, perderemos os benefícios que estes sinais podem nos trazer. Perceber o ambiente é somar conhecimento, experiências e manter-se constantemente se atualizando. Significa, também, estar a par das necessidades dos filhos, das suas queixas, dores e expectativas. Tratar os problemas superficialmente poderá não revolvê-los e ainda irá agravá-los. Essa observação requer amor, tempo, interesse e esforço. Os pais precisam sair um pouco de dentro da redoma que os protege do compromisso e se envolverem ativamente com seus filhos. Eles precisam estar dispostos a fazer até mesmo sacrifícios pessoais para que a educação cristã de qualidade aconteça. O Senhor Jesus foi educador por excelência, não somente escutou como também se envolveu ativamente com as pessoas. Ele ouviu seus problemas e observou atentamente o seu comportamento. Assim podia dar a resposta certa e trazer a solução eficaz.


Desenvolver a habilidade de fazer perguntas

            Um dos grandes problemas que os pais enfrentam na educação dos seus filhos é a capacidade de responder sem haver perguntado, ou seja: eles criam respostas a algum comportamento indesejável dos filhos sem procurar saber a resposta verdadeira. Ou fazem uma pergunta e eles mesmos respondem, sem dar a oportunidade à criança ou adolescente de falar por si só. Assim, deixam de apreender a realidade e permanecem alheios ao verdadeiro problema por trás de certos comportamentos. Perceber o ambiente também envolve o questionamento efetivo. Escutar está ligado à capacidade de fazer perguntas. De acordo com Bethel (1995, p.190): “Em vez de sempre procurar respostas, devemos procurar boas perguntas”.
Um bom educador deve aprender a fazer perguntas que o conduzam a buscar respostas além do óbvio. Diante de um acontecimento no lar, os pais precisam construir as perguntas certas, que lhes forneçam todos os elementos necessários para a sua compreensão, tentando encontrar respostas escondidas por trás das respostas, a mensagem oculta, subliminar. Sempre teremos novas perguntas que nos conduzirão a novas respostas. Mudando-se as perguntas, possivelmente as respostas também mudarão; mudando-se as respostas, seremos conduzidos a perguntas diferentes. Façamos perguntas que desvendem as razões escondidas por detrás dos problemas. Não aceitemos respostas simplórias e evasivas. Quanto mais perguntas fizermos, maior será o nosso conhecimento sobre a questão observada ou trazida até nós por nossos filhos. Quando encontrarmos algumas respostas, devemos ouvi-las atentamente, sem preconceito, mantendo a mente e o coração abertos e influenciáveis. Não podemos criar na mente uma resposta ideal para a pergunta que fizemos, mas esperar que a resposta real surja. Não se deve manipular os fatos. Se os pais desenvolverem a habilidade de fazer perguntas, naturalmente também desenvolverão a habilidade de respondê-las.


Ser um bom ouvinte para ser um bom educador

Ouvir é uma arte que precede o falar. Se aprendermos a arte de escutar, descobriremos que educar não é tão difícil quanto parece. Além de saber por que escutar, é preciso entender como escutar. Escutar é ouvir com qualidade.  Quando formos ouvir nossos filhos, devemos ouvi-los atentamente, demonstrando verdadeiro interessa naquilo que eles querem nos comunicar e mantenha atenção exclusiva neles. Muitos pais mantém um afastamento dos seus filhos porque não estão interessados naquilo que eles têm a dizer quando falam de como foi o seu dia na escola, dos desenhos que assistiu ou a sua opinião com relação a algum assunto. Alguns insistem em afirmar que criança não deve se meter em conversa de adultos, até mesmo expulsando-as com rispidez ao invés de acolhê-las de lhes dar a oportunidade de participar de alguma conversação, quando esta está compatível com a sua idade, claro.
Wood (op. cit., p. 63) afirma que escutar é uma das pedras fundamentais da comunicação eficaz e que “escutar de verdade significa absorver o que o outro diz com todo o nosso ser – corpo, mente e alma”. Quando escutamos de verdade não emitimos a nossa opinião própria, mas permitidos que o outro manifeste o seu interior, descarregue as suas emoções, e isto é uma demonstração de amor e respeito. Esse tipo de escuta permite que, no fim da fala do outro, tenhamos a sua versão própria, com as palavras e expressões que ele utilizou, não a nossa. Para isso precisamos criar um ambiente propício ao diálogo, onde estejamos inteiramente presentes e o nossos filhos possam se revelar inteiramente a nós. Ouvindo assim, as nossas perguntas, quando necessárias, serão coerentes e serenas. Se nos comportarmos de forma diferente, demonstrando desinteresse ou tédio, intuitivamente seremos percebidos e a comunicação não fluirá.
Quantos pais hoje estão disponíveis para escutarem com atenção e sinceridade os seus filhos? Quantos se importam com a sua opinião? Quantos os conhecem de fato? No processo de educação dos nossos filhos, precisamos disponíveis para escutá-los. Powell e Brady (2000, p. 76) escreveram sobre nossa reação ao bater em uma porta e não obter resposta, ou ligar para um telefone e só ouvir sinal de ocupado: “Há uma reação de desapontamento semelhante na maioria de nós quando desejamos verdadeiramente partilhar alguma parte profunda de nós mesmos só para perceber que nosso suposto ouvinte parece não estar disponível”. E é isto que desestimula muitos filhos e leva-os a buscarem no mundo e na turma de amigos alguém que os ouça atentamente: os seus pais não estão disponíveis.
Os pais precisam estar disponíveis para ouvir seus filhos com a mesma atenção e respeito que esperam receber deles. Não é fácil. Ouvir atentamente requer tempo, foco e concentração (GERZON, 2006, p. 139). Pais cheios do Espírito Santo são educadores que se importam e se envolvem amorosamente com seus filhos para educá-los corretamente. Pais que são péssimos ouvintes podem até conquistar a obediência dos seus filhos, mas dificilmente conquistarão o seu respeito e os influenciarão por meio do seu exemplo. Sejamos líderes da nossa família no ouvir e as os nossos filhos escutarão atentamente o que temos a lhes ensinar)


Evitar ouvir julgando os filhos

            Não é fácil esvaziar a nossa mente de pressupostos enquanto escutamos nossos filhos. Os julgamentos limitam a nossa percepção e a nossa capacidade de ouvir, impedindo-nos de absorver novas informações. É difícil termos uma apreciação sincera do outro se não nos permitimos ouvi-lo em sua própria realidade, longe dos nossos pressupostos. Julgamos alguém por causa da sua aparência, do seu nível social, da sua religião, do seu partido político, do seu time de futebol e por meio desses filtros equivocados damos ou não atenção ao que está sendo dito e avaliamos cada palavra do nosso próprio modo preestabelecido. O mesmo acontece quando dialogamos com os nossos filhos: estabelecemos uma visão do que eles são, pensam e sentem; rotulamos as suas ideias e seus sonhos e não consideremos verdadeiramente o seu lado. Julgamos suas ações sem antes nos acercar das suas razões.
Evitar julgamento significa, também, ouvir a perspectiva do outro. A única maneira de você desenvolver essa capacidade é praticando. Antes de os pais expressarem seus pontos de vista, podem permitir que seus se expressem primeiro, ouvindo-os atentamente e sem emitir julgamentos precipitados. De de início podemos concordar com o seu direito de ter um ponto de vista e depois deixe claro o nosso, não para criar um caso, mas para acrescentar mutuamente conhecimento. Quando sabemos um pouco mais sobre eles, eles sabem um pouco mais sobre nós. O fiel da balança será o saber de ambos avaliados à luz da Bíblia. A Palavra de Deus sempre transmitirá a verdade por completo, que pode conter ambos os pontos de vista ou nenhum dos dois, o que levará não somente os filhos, mas os próprios pais a reavaliarem suas certezas, concordando ambos com o que a Bíblia lhes ensina.
            Não somente nossos filhos, mas de igual modo os fatos e os acontecimentos, se vistos por meio das lentes do nosso julgamento negativo, podem ser distorcidos, impedindo-nos se absorver a sua verdade e experimentar o aprendizado que deles emana. Após ouvir alguém falar ou observar algum objeto, fato ou acontecimento, apreendendo a sua verdade, podemos emitir o nosso ponto de vista, sem preconceitos. Para isso é preciso, nas palavras de Ellinor e Gerard (1998, p. 119), praticar a suspensão de julgamento que “requer que estejamos dispostos a abrir mão, ao menos temporariamente, de nossas certezas, do apego a nossos julgamentos, nossas opiniões e avaliações, até mesmo nas situações mais árduas”. Isto não significa que não podemos ter uma opinião própria formada sobre o assunto com o qual mantemos contato, mas que devemos manter a neutralidade necessária para ouvir e aceitar o ponto de vista do outro, dos nossos filhos. Enquanto estivermos julgando, não estaremos escutando efetivamente. Esta é uma prática a ser desenvolvida cotidianamente e que será necessária à nossa atuação como educadores. Após escutar sem julgamentos e apreendermos a essência do que está sendo dito, podemos aconselhar e exortar com propriedade e com a autoridade das Escrituras.


Ouvir através de canais não-verbais

Uma educação cristã de qualidade também envolve escutar com os olhos. Embora pareça estranho, esta é uma verdade que se deve ao fato de que as pessoas não comunicam tudo o que desejam falar somente através da fala, mas por meio de inúmeros outros sinais, sendo a linguagem corporal apenas um deles. As palavras nem sempre conseguem expressar totalmente o que sentimos. Muitas pessoas, sem palavras, deixam claro aquilo que sentem: explosão de raiva, risos, choro, espanto, atitudes violentas. Ellinor e Gerard (op. cit., p. 178) afirmam que “O desenvolvimento da capacidade de ouvir através de canais não-verbais é uma poderosa adição para o diálogo”. É importante para os pais educadores acercar-se dessa questão com profundidade. Existem muitos diálogos praticados que nos passam despercebidos, embora estejamos expostos a eles a todo tempo. Um olhar, uma aceno de mão, um sinal luminoso, alguém com os punhos cerrados, passos apressados, mãos estendidas em sua direção, um dia inteiro trancado em um quarto e até mesmo o silêncio são formas não verbais de comunicação.
            O papel do educador deve ser o papel de um escutador da sua família. Estamos tão atentos a palavras, frases, vozes e gritos que acabamos deixando de escutar as mensagens que se escondem detrás do silêncio e da ausência. As palavras que não são ditas de repente são aquelas que mais respondem às nossas perguntas e revelam muitos problemas. A ausência de som, de vozes, traz imenso significado. A ausência pode falar mais profundamente que a presença. Basta que saibamos escutá-la e fazer a leitura correta. Os pais devem procurar escutar o que seus filhos estão dizendo, mesmo quando eles estiverem calados. Isso pode ser feito a todo instante, em todas as situações, e nos trarão uma visão mais ampla de como a nossa família está caminhando, do comportamento dos nossos filhos e do nosso próprio comportamento.


Criar oportunidades através da escuta

            A não ser que você esteja escutando alguém falar para depois utilizar contra ela tudo o que ela falou para prejudicá-la; a não ser que a sua escuta tenha um fim meramente egoísta, quando você escuta, uma porta sempre se abre para inúmeras oportunidades e as diferenças são transformadas. A intolerância e o preconceito, por exemplo, encontram no diálogo honesto e construtivo a oportunidade da aceitação do outro, da quebra de barreiras raciais, étnicas e religiosas, promovendo a paz e a fraternidade. A destreza em saber ouvir é indispensável aos líderes, embora seja uma ação geralmente desvalorizada em ambientes de ensino (GERZON). Ouvir é o primeiro passo, “saber ouvir” é o passo seguinte e é isto que estamos aprendendo aqui. Saber escutar lhe dá a oportunidade de crescer profissionalmente e como pessoa. Pode reatar relacionamentos desfeitos, ajudar a manter os atuais, construir novas amizades, conquistar a admiração e o respeito das pessoas.
            Quais são as possibilidades de você aprender algo sem escutar? Na faculdade, na empresa, no lar, num relacionamento, onde quer que você esteja e o que quer que faça, só poderá aprender algo se estiver atento a tudo e a todos. Crie oportunidades através da escuta, permita-se ser influenciado positivamente pelas pessoas. Sem escutar você pode cair em inúmeras armadilhas, cometer vários erros, abraçar causas contrárias à moral e ao bom senso. Basta você se lembrar de quantas vezes você saiu prejudicado porque não escutou os conselhos dos seus pais. Lembre-se, não estamos falando apenas de escutar palavras, mas de escutar os diversos sinais que o ambiente nos traz. Como bom observador, você pode identificar uma necessidade das pessoas no seu ambiente de trabalho antes que elas manifestem essa necessidade, antecipando-se a ela, agindo de maneira proativa. Os verdadeiros líderes são proativos. Como orador, a escuta lhe permitirá vencer a barreira do medo, se autoconhecer, acercar-se das circunstâncias que envolvem o seu discurso, a palestra. Escutar as pessoas lhe dará a oportunidade de falar diretamente ao seu coração, alcançando o âmago dos seus problemas e aspirações.


Concluindo

            A educação só é possível quando todos os canais de comunicação estão abertos e os fatores que possam causar falhas nessa comunicação são reconhecidos e ajustados. Pais e filhos precisam se comunicar com eficiência e verdade, praticando a escuta eficaz. Onde não há escuta, não há diálogo; onde não há diálogo, não existe entendimento; onde não há entendimento, a educação não acontece. Imaginamos que ensinar algo aos nossos filhos signifique abrir o seu cérebro e despejar nele um caminhão de informações, que deverão ser assimiladas automaticamente, sem levar em conta que esse cérebro não é um depósito, mas um organismo vivo que possui suas próprias ideias a respeito de tudo. É preciso uma estratégia melhor para chegar até ele, a começar por ouvir e entender o que ele pensa.
            O conteúdo da comunicação dos pais para os filhos, claro, é a Palavra de Deus, o direcionamento divino para a vida de ambos. O caminho em que a criança deve andar é o caminho de Deus proposto nas Escrituras; um caminho que possui princípios éticos, morais e espirituais perfeitos, que resistem ao passar dos séculos, que se impõem sobre as vãs filosofias mundanas e que pode de fato transformar o caráter do ser humano e conduzi-lo a um comportamento santo. Se não educarmos os nossos filhos no caminho correto, o mundo o fará no caminho errado. Para isso, precisamos estabelecer regras e impor limites, recompensando o comportamento desejável e punindo o indesejável. Se criarmos nossos filhos sem regras e limites, eles crescerão despreparados para enfrentar o mundo ou buscarão no mundo esses elementos essenciais que não tiveram em casa.
O que jamais faltará na Bíblia são essas regras e limites a serem ensinados aos filhos e praticados pelos próprios pais. Os pais devem ser os primeiros a praticar aquilo que ensinam às crianças. Isto não significa uma segurança plena de que elas seguirão o seu exemplo, pois muitas poderão escolher seguir um caminho inverso. É preciso entender que as crianças, assim como os adultos, precisam de salvação. Somente crendo em Cristo Jesus e sendo selada com o Espírito Santo a criança será capaz de escolher o que é certo e abrir mãos dos seus próprios prazeres e da tentação do mundo.


[1] Adaptado do livro “Como falar em público”, de minha autoria, ainda a publicar.

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