domingo, 7 de abril de 2013

O QUE É O BULLYING?


Este texto faz parte do meu livro: MEMÓRIAS DO SILÊNCIO, RELATOS E REFLEXÕES DE UMA VÍTIMA DO BULLYING





O que é o bullying?

Ao idealizar este livro, não me preocupei com conceituações. Mas conforme avançava nos meus relatos, conforme escrevia as minhas reflexões sobre o tema, percebi a importância de apresentar um conceito básico do que é o bullying, de como ele se manifesta, como ele opera e através de quem tudo isso acontece. Todas essas coisas são importantes para situar o leitor dentro desta realidade, de modo que ele possa entender melhor o problema existente detrás dos relatos que encontrou aqui. Também é importante para mim, para que eu teorize o que vivi na prática e aprenda não somente a contar a minha história, mas, também, a lidar melhor com ela. E, é claro, servirá também aos leitores vítimas e aos espectadores deste fenômeno.
            Presente na sociedade desde o início dos tempos, o bullying é, segundo Fante e Pedra (2008, p. 33), uma palavra de origem inglesa. O termo bullying não encontra equivalente na língua portuguesa; isto é, não há um termo único na nossa língua que consiga abarcar toda a complexidade do bullying. Essa palavra designa comportamentos agressivos e antissociais praticados por indivíduos e/ou grupos contra outros indivíduos e/ou grupos. A expressão bullying – que pode ser traduzida como valentão, tirano, brigão – corresponde a “um conjunto de atitudes de violência física e/ou psicológica, de caráter tensional e repetitivo, praticado por um bully (agressor) contra uma ou mais vítimas que se encontram impossibilitadas de se defender” (SILVA, 2010, p. 21). Embora o seu estudo remonte o ano de 1970, na Suécia e na Dinamarca, foi somente no fim dos anos de 1990 e início do ano 2000 que o tema chegou ao Brasil.
            O bullying está diretamente ligado aos comportamentos agressivos apresentados por crianças e adolescentes no meio em que vivem e interagem, especialmente na escola. Os pesquisadores que estudaram a interação entre as crianças, o seu comportamento num grupo, identificaram, além de um lado positivo, afetuoso e prestativo, a agressividade que, segundo Bee e Boyd (2011, p. 329), “pode ser definida como comportamento aparentemente visando ferir alguma outra pessoa ou um objeto.” Essa agressividade, presente de alguma forma em toda criança, foi classificada pelas autoras de duas maneiras: a) “Agressão instrumental”, onde a criança tem como finalidade alcançar um objetivo, como, por exemplo, tomar o brinquedo de outra criança, cessando a agressividade uma vez que o objetivo é alcançado; b) esse comportamento tende a se modificar uma vez que a criança cresce e as suas habilidades verbais melhoram. Das agressões físicas, ela passa, então, às agressões verbais, tais como insultos, xingamentos e palavrões. A partir daí, o propósito da agressão muda, tendo como principal objetivo ferir os sentimentos da outra pessoa, o que os especialistas denominam “agressão hostil.”
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        Fante e Pedra (2008, p. 82), falam sobre as consequências à saúde das vítimas do bullying. Ele é responsável por 80% das doenças da atualidade devido ao seu alto nível de estresse. As doenças relacionadas a esse fenômeno são inúmeras:

dores de cabeça, tonturas, náuseas, ânsia de vômito, dor no estomago, diarréia, enurese, sudorese, febre, taquicardia, tensão, dores musculares, excesso de sono ou insônia, pesadelos, perda ou aumento de apetite, dores generalizadas, gastrite, úlcera, colite, bulimia, anorexia, herpes, rinite, alergias, problemas respiratórios, obesidade e comprometimento de órgãos e sistemas.

            Além dos males causados à saúde física das vítimas, existem aqueles males ainda mais difíceis de tratar, porque para muitos deles não existem medicamentos vendidos nas farmácias. Esses males dependerão, também, da estrutura psíquica de cada um, de modo que a reação ao bullying dependerá da forma como cada indivíduo se comporta diante dele, de como o acolhe em sua vida psíquica e a resposta que lhe dá. Ainda segundo Fante e Pedra (Idem, p. 84), esses males – que podem trazer prejuízos ao desenvolvimento da inteligência e da capacidade de aprendizagem, além do comprometimento da socialização – podem ser

ansiedade, tensão, medo, raiva, irritabilidade, dificuldade de concentração, dificuldade de atenção, angústia, tristeza, desgosto, apatia, cansaço, insegurança, retraimento, sensação de impotência e rejeição, sentimentos de abandono e inferioridade, mágoa, oscilações de humor, desejos de vingança e pensamentos suicidas, depressão, fobias, hiperatividade.

            Os tipos de agressões praticadas pelos bullies são diversos e envolvem torturas físicas e psicológicas. Segundo Fante e Pedra (Idem, p. 36), as ações dos bullies podem ser, entre outras, definidas como: humilhar, intimidar, constranger, discriminar, aterrorizar, amedrontar, tiranizar, excluir, isolar, ignorar, perseguir, chantagear, assediar, ameaçar, difamar, insinuar, agredir, bater, chutar, empurrar, derrubar, ferir, esconder, quebrar, furtar e roubar pertences. Silva (2010, p. 3) acrescenta: colocar apelidos pejorativos, fazer piadas ofensivas, beliscar, atirar objetos contra as vítimas, fazer intrigas e fofocas, abusar, violentar. E Middelton-Moz e Zawadski (2007, p. 21) ajuntam: exposição ao ridículo, ostracismo, sexualização e, no caso do bullying no local de trabalho (chamado de assédio moral), transformação em bode expiatório, atribuição de tarefas pouco profissionais ou áreas indesejáveis no local de trabalho, negativa de férias ou feriados.
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Felizmente, desde que o assunto ganhou grandes proporções devido à sua constante presença na mídia, acima de tudo nos noticiários policiais, a sociedade tem investido em formas de identificar, prevenir e combater o bullying. Como a escola é o ambiente principal onde essa história se desenvolve, os olhares dos especialistas estão voltados para ela. Conforme escrevem Fante e Pedra (idem, p. 106)

É preciso que a escola reconheça a existência do fenômeno e, sobretudo, esteja consciente de seus prejuízos para a personalidade e o desenvolvimento socioeducacional dos estudantes. A escola também precisa capacitar seus profissionais para observação, identificação, diagnóstico, intervenção e encaminhamentos corretos, levar o tema a discussão com toda a comunidade escolar e traçar estratégias preventivas que sejam capazes de fazer frente ao fenômeno. Além do engajamento de todos, é preciso contar com a ajuda de consultores externos, como especialistas no tema, psicólogos e assistentes sociais.

            Essa, porém, não deve ser uma discussão apenas no âmbito escolar, porque o bullying está presente em todas as áreas da sociedade. Eu sofri com o bullying na escola, no trabalho e até mesmo no exército. Além do olhar necessário para as vítimas, é preciso identificar e tratar os agressores. Alguns são passivos de punições prescritas na lei brasileira e isso não deve ser desprezado. Os bullies não podem ser considerados apenas como indivíduos doentes, carentes de tratamento psicológico e médico. Embora alguns casos de pessoas agressivas demonstrem um quadro psíquico perturbado, a maioria dos agressores age de forma consciente e deliberada, causando sofrimento proposital às suas vítimas e se divertindo com isso. Além de todo cuidado que devemos ter no trato desse mal social, os agressores não podem ser esquecidos, porque esse problema não existiria sem eles.
            O que vem confirmar que os bullies agem de forma pensada e planejada, é que eles não modificam o seu comportamento no decorrer dos anos, como se as suas atitudes passadas fossem tão somente “coisa de criança” ou de adolescentes inconsequentes descobrindo a vida. Ao contrário disso, eles tendem a aperfeiçoar as suas práticas abusivas conforme o tempo passa e a redirecioná-las em qualquer ambiente em que estejam: comunidade, família, trabalho. Se não tratado a tempo, este fenômeno é algo que pode se tornar ainda maior e mais perigoso.
O bullying também traz consequências terríveis para aqueles que o praticam, o que torna esse fenômeno ainda mais perigoso e devastador. Algumas dessas consequências, conforme Fante e Pedra (2008, p. 90), evidenciam-se por

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Dessa forma, aquele bully que oprimia garotinhos na escola tem todas as chances de se tornar um marido, um pai e/ou um patrão opressor. O que ele é hoje, será ainda amanhã, e talvez pior. Assim como uma vítima pode superar a agressão e viver uma vida normal, também o agressor pode superar a sua vida de agressões e se transformar num cidadão exemplar. Todavia, assim como é muito mais provável que a vítima desenvolva feridas profundas e traumas insuperáveis por toda a sua vida, também é mais certo que o agressor continuará sua onda de violência. O que fazer para cortar esse fluxo e redirecioná-lo para algo produtivo e socialmente aceitável é um desafio para todos nós: vítimas machucadas e espectadores preocupados e sensibilizados.


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Um comentário:

  1. SEMPRE FIQUEI QUIETA AGUENTEI AS ACUSAÇÕES E ATÉ ACEITAVA QUE ME CHAMASSEM DE FEIA,CHATA,NERD,TERRORISTA,ETC.EU FICAVA SENTADA E AGUENTAVA QUE ME CHAMASSEM ASSIM PQ EU TINHA MUITO MEDO QUE ELES FIZESSEM ALGO PARA MINHA FAMÍLIA MAS AAGORA EU SEI QUE DEUS ESTA DO MEU LADO E NELE POSSO CONFIAR.OBRIGADA SENHOR POR TUDO

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